terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Uma vida ressignificada

Em um apartamento claro e arejado, Eunice espera. Uma espera bem mais paciente e agradável que de tempos passados. Sentada sobre uma poltrona verde, com um colar de grandes contas coloridas ela recebe alegremente os visitantes com cumprimentos distantes. Pede licença, e com o auxílio das muletas cor-de-rosa caminha a passos mansos até o quarto para retocar o batom, com sua blusa muito branca, como as paredes da ampla sala de estar. Também pudera. Branco é a mistura de todas as cores que ela adora.


Há tempos que Eunice passou a sentir repulsa do preto. Comprou as muletas da cor que encontrou e lamenta que não sejam fabricadas cadeiras de rodas coloridas. "A cor passou a ter um outro significado na minha vida", diz ela. Mas não foi apenas a cor.

O andar de Eunice é uma vitória para quem havia deixado de caminhar, assim como vestir-se só e como receber visitas depois de tanto tempo de reclusão. A pose para a foto é um desafio. Dona de belas feições, ela jamais perdeu a vaidade. Por conta disso, foram dois anos sem permitir registros da sua imagem, sem reconhecer-se no espelho e não raro sem ser reconhecida por causa dos efeitos colaterais de um tratamento árduo.


Lições de vida

A psicóloga Eunice Damé Wrege, 61 anos, sempre foi uma profissional ativa. Professora universitária, mantinha um consultório particular e ainda assessorava empresas na gestão de recursos humanos.

Há 3 anos ela foi surpreendida pelo diagnóstico de uma doença chamada Granulomatose de Wegener e de uma hora para a outra teve a rotina interrompida, obrigada a abandonar tudo e dedicar todas as suas forças para lutar pela própria vida.

Em cada 100 mil pessoas apenas 3 sofrem dessa doença. Quando soube, ela se fez a pergunta óbvia que qualquer outra pessoa faria: "por que eu?" "A gente sempre pensa que essas coisas nunca vão acontecer com a gente, mas acontecem."

A descoberta veio através de sinais como rinite, olhos vermelhos, cansaço e depressão, sintomas que mascaravam o real problema: uma espécie de reumatismo raríssimo. Como é uma doença autoimune, o corpo de Eunice passou a combater o próprio corpo, e ela precisou se submeter à quimioterapia e a medicamentos para diminuir as defesas do organismo, ficando vulnerável a qualquer contato com outras pessoas. Com a saúde fragilizada, um simples resfriado se tornou um grande risco.

"Quando a gente adoece, adoece todo mundo junto: a família, os amigos... Mas a cura é um processo solitário", diz ela, que fez das várias batalhas vencidas um mosaico de experiências registradas em livro. Patchwork, retalhos da alma - que a autora autografa hoje à tarde na Livraria Mundial - é uma mensagem de esperança de quem teve a vida despedaçada e sobreviveu, com alegria e fé.

"Tenho medo de me expor, medo de parecer ridícula" confessa Eunice, que foi convencida a publicar o livro em favor de uma causa nobre. Ao dividir os relatos e desabafos que antes só eram compartilhados com familiares e amigos pela Internet, ela espera tornar sua cura menos solitária e oferecer um alento a quem passa por situações semelhantes. Além disso, o livro serve como alerta para outras vítimas dessa doença silenciosa.

"A gente tem que dar uma choradinha e em seguida pintar os olhos, dar um sorriso que a vida segue!"

Em suas crônicas escritas em linguagem simples, Eunice consegue falar com leveza do drama, das idas e vindas do hospital, da UTI e de todos os duros aspectos do tratamento, retratados por palavras de alguém que se sente renascida. "Quando a gente adoece volta a ser criança. A inversão é tanta que eu às vezes chamava as minhas filhas de 'mãe'", conta a autora, que a exemplo da crônica O coelhinho da Páscoa também passou por aqui (leia o trecho nesta página) diversas vezes mergulhou nos refúgios do imaginário infantil para traduzir o que sentia.

Apesar de tudo, ela pouco se queixa e preferiu assumir o papel de sobrevivente, ao invés do papel de vítima. "Nunca fui de ficar reclamando. Mas quando eu estava triste e me diziam para não chorar, mesmo assim eu chorava. Eu tinha motivos pra isso, oras! Mas a gente tem que dar uma choradinha e em seguida pintar os olhos, dar um sorriso que a vida segue!", afirma, com o tom de alguém que realmente já viveu muito para compartilhar conselhos e lições. Hoje, por sinal, é aniversário dela, para quem celebrar a vida tem realmente um significado muito especial.

Prestigie!

O quê: sessão de autógrafos de lançamento do livro Patchwork, retalhos da minha alma, da autora Eunice Damé Wrege
Quando: hoje, das 18h às 19h30min
Onde: na Livraria Mundial (rua 15 de Novembro, 564)


Leia um trecho

Como uma criança, a Páscoa começou a aguçar minhas fantasias. Jamais seria uma boa jogadora de pôquer, pois não podia deixar de esconder meus planos. Vou à casa da afilhadinha, a pequena Sofia, vou abraçar a dedicada afilhada Fernanda, vou visitar as tias, vou, vou. Era eu e mais todos os coelhinhos da Páscoa saltitantes visitando meio mundo. Aliás, eu era o próprio. Visualizava uma coelhinha gordinha dando cambalhotas de jardim em jardim.

Mais se aproximava a semana da Páscoa, mais eu mirabolava.

Até que esquentou o tempo e a temperatura de meu corpo também. De tanto o coelhinho pular? Não, era a febre mesmo. Essa parte, agora, quem vai pular sou eu, aqui no papel, porque não vale a pena a gente ficar remoendo. Só para encurtar o caso, Sexta-feira Santa, eu tremia tanto, mais do que vara verde, e quando me dei conta - pois aprendi que doente é muito esperto e que às vezes é melhor ter memória fraca - estava indo para o hospital. É, acreditem se quiser, hospital. A Bel, sempre muito atinada, já estava com as mochilas a postos. Como? Não sei, ela é muito rápida!

Chegando lá, num instantinho ela arrumou o quarto com meus pertences. Eram os meus santinhos na mesa ao lado da cama, todos em cima de um guardanapo de linho branco bordado de vermelho e azul. Detalhe: bordado por mim, pois toda moça que se prezava, na época, aprendia a bordar para seu enxoval de casamento.

(...)

Sábado vem a surpresinha: lembram que no dia seguinte seria domingo de Páscoa? E os meus planos? Parece que um “Tsunami” tinha passado por ali e varrido todos eles.

Voltemos ao sábado. O doutor, este sim, com a própria cara de um muito bom jogador de pôquer, anuncia: “Vamos ter que ir para a UTI.” Minha reação? Nem sei, estou bem embaixo daquela maior e avassaladora onda. Senti meu coração bater com toda a força na ponta dos dedos, na garganta, até chegar às pernas. Aos poucos ele foi se acalmando pois eu perguntava : “Como é lá?”, “Por que tenho que ir para lá?” E as pessoas vão dizendo coisas, e é bem melhor acreditar naquilo de bom que dizem.

(...)


Texto: Bianca Zanella | Imagem: Divulgação | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Capa | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 13 de janeiro de 2009

2 comentários:

re disse...

quem conmhece a Eunice sabe do significado que ela tem ...
Sou aluna, amiga e fã dessa mulher linda e ser humano incrivél
renata riemke

Clarissa Alcantara disse...

Eunice, Eunice!!
Foi meu coração, agora, que bateu na ponta dos dedos, louco para te abraçar!
Tempo e distância desapareceram, num segundo, por completo. Do branco de tua mágica sala só vida, vida real floresceu.
Grande carinho e saudade!
Clarissa Alcantara