terça-feira, 24 de junho de 2008

Hamlet, um afrodrama

Ser ou não ser um Hamlet afro-brasileiro? A versão porto-alegrense do clássico shakespereano, revela que há mais coisas em comum entre a tragédia inglesa e a nossa cultura do que sonha a nossa vã filosofia.


A peça, com famosos trechos de monólogos, segue fiel à narrativa original, mas ganha ares "brazucas" na montagem do grupo Caixa-Preta, em cartaz há quatro anos. Os doze artistas que fazem parte do elenco dão vida aos personagens da trama, que representam, ao mesmo tempo, associações com as religiões de matriz africana. A constituição de Hamlet, por exemplo, tem Xangô - entidade símbolo da justiça - como referência. Gertrudes - a grande mãe - está ligada à Iemanjá. Ofélia - peça chave no enredo de assassinatos - faz o papel de Iansã, a ponte entre o mundo dos mortos e dos vivos, enquanto Zé Pilintra é personificado na figura amoral do tio do protagonista, que se casa com a rainha do rei morto para assumir o trono. "Essa leitura de Hamlet a partir da mitologia brasileira tem sido bem recebida, assim como tem repercutido bem o fato de o elenco ser formado basicamente por afrodescendentes", comenta o diretor Jessé Oliveira.

As ligações entre o dito clássico e o que é genuína brasilidade popular vai além das referências religiosas: Na trilha sonora, são estilos como o samba-de-breque e o hip hop que dão tom e ritmo à história.


Livre no tempo e no espaço

Nesta adaptação livre, além de explorar interpretações contemporâneas e recontextualizadas da história, o grupo se propõe a investigar as novas relações espaciais entre o espetáculo e o público - seguindo as mais modernas tendências das artes cênicas.

Longe da rigidez das linhas do teatro, que dividem o espaço em palco e platéia, esta peça tem o diferencial de ser apresentada de forma tridimensional e absolutamente interativa. "A intenção é justamente tirar a platéia do conforto de estar na platéia", sugere o diretor, responsável por elaborar cenas que literalmente envolvem o público. "As pessoas não vão ficar olhando só para frente. Vão olhar para todos os lados, para cima e para baixo", adianta.


A peça tem duração de cerca de duas horas (podendo ser mais ou menos, dependendo das reações da platéia). Durante esse tempo, o público irá assistir a cenas em pé e a outros trechos sentado. Em alguns momentos também irá circular pelo cenário na companhia dos personagens.

A apresentação de Hamlet Sincrético em Pelotas é uma promoção do Serviço Social do Comércio (Sesc) através do projeto Arte Sesc - Cultura por toda parte.


Sinopse

Hamlet, Rei e grande líder, é assassinado. Em seu lugar, assume Cláudio, seu irmão, que se casa com Gertrudes, rainha e esposa do rei morto. O jovem Hamlet fica inconformado com a situação, principalmente porque a mãe sequer esperou o cadáver esfriar para se casar novamente e torna-se impossível a convivência entre ele e seu tio.

Após Hamlet matar Polônio, Ofélia, muito triste e deprimida, suicida-se, enquanto seu irmão, que havia partido em viagem, volta para vingar-se de Hamlet.

Cláudio tenta mais uma vez uma armadilha contra Hamlet. Ao provocar o enfrentamento entre seu sobrinho e Laertes, prepara o ambiente para que a morte do jovem príncipe aconteça, acabando em trágico desfecho para todos.


Prestigie!

O quê: Hamlet Sincrético
Quando: Quarta-feira (25), às 20h
Onde: Na Cervejaria Original Beer (Rua Almirante Tamandaré, 52).
Duração: Aproximadamente duas horas
Ingressos: Antecipados à disposição no Sesc (Rua Gonçalves Chaves, 914), ao valor de R$10,00 para o público em geral e R$5,00 para idosos, comerciários, estudantes e professores.


Texto: Bianca Zanella | Fotos: Fátima de Souza | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Capa | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 24 de junho de 2008

4 comentários:

Bianca Zanella Ribeiro disse...

Como não escrever sobre o que vi, sobre o que foi testemunhado não só por mim na noite de uma quinta-feira fria, na penumbra de um prédio em ruínas? A umidade, o ar rarefeito, os ecos... tudo fazia parte do cenário, tudo se encaixava na história da série de assassinatos.
A história da chacina, aliás, é sempre a mesma, e se repete desde os tempos de Shakespeare: Ofélia amava Hamlet, que matou Polônio por engano, que não amava ninguém. Cláudio matou Hamlet (o pai), casou-se com a cunhada rainha e virou rei. Hamlet queria vingança. Laertes (irmão de Ofélia e filho de Polônio) também. Os dois caem em uma armadilha e todos os personagens do núcleo morrem no final.
Mas a história que foi contada nesta noite, particularmente, tinha um elemento a mais: Tinha energia, certa brasilidade. A negritude adicionou cores à palidez clássica do drama inglês.
E foi em ritmo de batuque, samba de breque e hip hop que o sincretismo de Hamlet se fez. Belo, melancólico, mas com um quê de tragicômico. Hamlet mostrou que como todo brasileiro também consegue rir da própria desgraça.
Além de todas as associações com as crenças de matriz africana, não faltaram outras referências bastante contemporâneas para enriquecer ainda mais a trama, e conferir ao espetáculo atualidade e humor, misturando gírias com o linguajar clássico, elementos antigos e modernos, como o celular.
Não faltaram trechos famosos dos monólogos: O “ser ou não ser” estava lá, assim como a “vã filosofia”. Mas tudo isso temperado com as nossas próprias questões culturais sociais.
Foi cômico ver, por exemplo, Ofélia cantando My first love para Hamlet. E o que fazia um curioso cartão da Hello Kity entre as cartas de amor da romântica personagem? Um duelo ao estilo Matrix? Agentes, digo, seguranças do rei, que pareciam ter sido importados junto com algum enlatado americano? E o look de turista de Horácio, com direito a camisa florida, meias esticadas e câmera fotográfica? E a mudança de comportamento de Ofélia quando se converte à religião evangélica? Aleluia irmãos!
Sim, os suicidas merecem clemência, e a tem ao menos de quem cava sua cova. Acima da terra ou abaixo de sete palmos faz sentido que matar-se às vezes (ou sempre) é em legítima defesa. Hahaha
De holofotes a velas e até lanternas, tudo era luz que emanava também do brilho de excelentes interpretações do elenco para romper a penumbra.
Só contei o que vi, porque o resto... o resto é silêncio. Horácio pode mostrar as fotos.

Parada disse...

Obrigada pelo seu comentário sobre as atividades culturais do SESC! Sinto orgulho de tê-la como uma apreciadora dos nossos eventos.
Há, já estamos trabalhando para a peça teatral "A poltrona escura" com Cacá Carvalho que será no dia 16/07 no Sete de Abril. Abraços

Bianca Zanella Ribeiro disse...

O público pelotense já pode ficar na expectativa então... Poltrona Escura, com Cacá Carvalho, em julho no Sete de Abril!!!

Aline Reinhardt disse...

Excelente a peça. O grupo Caixa-Preta e o Sesc estão de parabéns! Nunca sentar em arquibancadas em uma noite fria de inverno foi tão bom.