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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Uma ação contraditória

Recebo diariamente releases da Prefeitura aos montes. Pela quantidade e falta de critérios no envio, a maioria acaba indo direto para a lixeira ou eu passaria o dia inteiro selecionando. Um deles, no entanto, chamou minha atenção pelo assunto: saúde bucal na infância. Pensando em uma possível pauta para o caderno Viva Bem, do Diário Popular, abri.

É cômico: a Prefeitura está promovendo uma ação na praia para ensinar as crianças sobre prevenção de problemas bucais. O irônico é que, para atrair o público-alvo até a unidade de saúde onde será desenvolvido o projeto será feita DISTRIBUIÇÃO DE PIRULITOS. Isso mesmo! Dá para acreditar?

Vai entender a lógica de quem teve essa idéia "brilhante"... Dá para ver que a didática utilizada será baseada na prática. Deviam colocar uma faixa: "distribuição de cáries, AQUI"

Segue abaixo o release enviado pela Secom.

Crianças aprendem prevenção em saúde bucal

Quanto mais cedo as crianças aprendem a realizar corretamente a higiene bucal, menos chances terão de desenvolverem doenças como cárie, gengivite e periodontite. Partindo desse princípio a equipe do Departamento de Saúde Bucal da Prefeitura promove no próximo domingo (8), na Unidade Básica de Saúde do balneário dos Prazeres, atividades de prevenção em saúde oral para as crianças.

O escovódromo e as lições sobre os cuidados com os dentes começam às 14h e vão até às 18h. Para atrair a criançada para as atividades, o Programa Primeira Infância Melhor (PIM) estará presente durante todo o dia na UBS com atividades recreativas como pintura de rostos, distribuição de pirulitos e aulas de confecção de bichinhos com balões. O Posto do balneário dos Prazeres fica na Praça Aratiba, 12.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Joca Martins, prazer em vê-lo!

A tal da "velha certeza gaúcha" não se engana: Tinha tudo para ser um show memorável e foi. A noite do dia 31 era do nativismo, de adoração às tradições campeiras. O público recebeu Joca Martins de braços abertos e o antigo Theatro Guarany recebeu Joca com toda a pompa de sua imponência, mas com uma acolhedora simplicidade galponeira, dessas que só a querência proporciona.

O timbre inconfundível da voz rompeu o silêncio. Não havia eco, não havia oco. A casa estava cheia para aplaudir o cantor, de volta a sua terra. Ainda que ele cante com sentimento convicto que “qualquer lugar é querência, se houver cavalo crioulo”, não importa por onde ande, quando volta sabe: Pelotas é o chão de suas raízes.

Prova disso foram as homenagens emocionadas à personalidades daqui e ao sempre poético cenário pelotense. Emocionadas e que emocionaram. Não bastasse a paisagem da pampa ser, por si só, comovente, a melodia mansa da composição considerada um segundo hino do Rio Grande, em tom de oração, completou o momento em que todos cantaram baixinho os versos de Minha Querência.

Era mais uma música que a platéia, inspirada, sabia de cor. E mais um grande momento do show, como as duas vezes em que o ginete "Freio de Ouro" Dado Azevedo exibiu no palco sua habilidade e a destreza de seu cavalo. (Quem diria ver uma exibição dessas, ao vivo, em pleno Guarany!)

A platéia só não correspondeu ao chamado do cantor à participação quando a capacidade das cordas vocais não permitiu: aconteceu durante uma das músicas mais "altas". Não que o refrão não fosse conhecido, mas é que dificilmente a média "normal" do público consegue acompanhar o tom da voz de Joca, principalmente quando ele dá o melhor de si.

Ainda assim, o público abriu a garganta para soltar os tais "gritos selvagens", a variação desafinada de quem não aprendeu uma das artes do homem da pampa: "soltar um sapucai". "Aí que eu me refiro!", repetiu pela terceira ou quarta vez na noite para os aplausos e risos da platéia. "Foi com certeza mais um recorde mundial de grito selvagem e sapucai", afirmou em tom de brincadeira o Joca, a mesma piada do mesmo Joca que todos já conhecem e que ainda assim não perde a capacidade de surpreender, a cada apresentação.

No final, antes de provocar um verdadeiro "frenesi" - como poucos artistas locais provocam - no saguão do Theatro, diante dos fãs que queriam autógrafos e fotos, ainda atendeu a um último pedido feito à beira do palco: tocou "mais uma milonga pra Camaquã".

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Shakespeare, aqui e agora

Para uns, um reencontro. Para outros, uma oportunidade de se apaixonar à primeira vista pela obra Shakespereana. A primeira Mostra Sesc de Teatro - que trouxe ao circuito pelotense de quarta-feira a domingo oito espetáculos, além de oficinas e workshops - envolveu atores e platéias nas tramas de um dos maiores mestres na arte de fazer rir e chorar.
Lado a lado, o cômico e o trágico. De um lado Shakespeare e do outro também. Foi um prazer ver ou rever, assim tão bem.

A discussão temática foi além. Nada melhor que uma agradável conversa. Muitos assistiram com uma finalidade analista, um olhar estritamente crítico. Há quem foi apenas pelo prazer da apreciação estética, pelo gosto pelas artes cênicas. Em ambos os casos, quem esteve no Sete de Abril ou nos demais locais que abrigaram a programação teve motivos para sair satisfeito.

A sátira de temas cotidianos, a reflexão intimista, a análise das complexas relações humanas são ainda tão presentes e dizem tanto à realidade atual que não são necessárias mais que adaptações sutis para que se pense que tal texto possa ter sido recém-concebido. Por isso, diz-se "clássico".

Porém um bom espetáculo se faz de um bom texto, mas não apenas disso. A qualidade técnica e interpretativa, e a emoção dos atores escancarada no palco deram nova vida à Shakespeare e a seus personagens, em releituras excelentes e minuciosamente bem cuidadas. Contemporâneas e arejadas, as peças ganharam também personalidade. Hamlets, Antífolos, Drômios, Valentinos e Proteus assumiram uma vida própria e jamais serão iguais àqueles que foram vistos em Pelotas na semana que passou. Foram, sem dúvida, apresentações únicas. Variações criativas e atuais para personagens que em essência ainda falam muito a qualquer público.

Merece destaque o incentivo dado pelos organizadores às produções locais, que valoriza e oferece crédito a um trabalho que começa a se desenvolver. O Núcleo de Teatro da Universidade Federal de Pelotas, que contribuiu para enriquecer a programação da Mostra, demonstra que vem adquirindo maturidade, e apresentou um bom trabalho mesmo ao lado de elencos consagrados, como os grupos Nós do Morro, do Rio de Janeiro, e as companhias Rústica, Santa Estação e Stravaganza, de Porto Alegre.

O êxito do projeto vem a confirmar a qualidade dos eventos culturais realizados pelo Sesc Pelotas. A Mostra de Teatro foi mais um, de tantos grandes e bons espetáculos a que o público pelotense tem tido a oportunidade de assisir. Merece ser aplaudido de pé. Merece bis.


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Página 4 | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 30 de setembro de 2008

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Adriana Calcanhotto, como era de se esperar

Nenhum imprevisto, nenhuma surpresa ou improviso teve espaço no show de Adriana Calcanhotto. A cantora porto-alegrense, com sua impecável afinação, não dividiu o palco do Theatro com nada além do que estava no script. A proibição expressa de fotografar não evitou os flashes e celulares piscando durante vários momentos do espetáculo, mas isso também já era de se esperar. Até a música em que ia errar a letra (e como era pouco conhecida, se errou ninguém percebeu) ela anunciou com antecedência. Não era um show feito para surpreender, mas a absorção ao clima do espetáculo era tanta, em certos momentos, que poucas pessoas devem ter percebido o morcego que sobrevoou o palco no refrão da 17ª música. Se bem que um morcego voando pelo Theatro também não é nada fora do comum.

A gaúcha voltou carioquíssima e como todo carioca que se preze mostrou ter uma íntima ligação com a praia. Sofisticado? Suave? É preciso mais do que adjetivos genéricos para descrever o que aconteceu no intervalo de tempo entre as 21h13min e as 23h07min. Afinal, como diria ela mesma em Maré, música-título do CD recém-lançado e que abriu o show, sendo salgado, gelado ou azul (o mar) será só linguagem. Não era apenas uma expressão, e sim um prenúncio do que viria pela frente. Por isso, para se escrever sobre a apresentação que o Guarany assistiu na terça-feira, há que se escolher as palavras como os versos de Maré foram escolhidos.

No abrir das cortinas as camadas de azul e verde-água revelaram criaturas habitantes do mar: cavalos-marinhos, polvos, golfinhos... e uma enorme concha em primeiro-plano, igual à que a cantora trazia nas mãos junto ao ouvido quando entrou no palco, e que produzia um som oco que ressoou nos amplificadores e transportou a platéia para o grande mergulho. Com uma volumosa túnica vermelha de pregas, coberta com um véu azul, Adriana era senhora das profundezas do som e do ser e a partir daquele momento ela tinha tudo sob controle ao dirigir o leme daquela embarcação, que não estava lotada. Talvez porque a passagem estivesse cara demais para muitos que ficaram em terra firme, imaginando o que aconteceria para lá das imponentes portas do Theatro.

A linha atravessada de coxia a coxia conduzia os olhares do público, por vezes iluminada de neón. Mesmo depois de revelada sua utilidade visual no cenário, permaneceu incógnita em seu significado. Seria uma rede de pescadores? Um fio de contato submarino?

Marina Lima deu as caras na segunda música da set list, com os versos de Três, seguida pela composição Seu Pensamento, uma das novas que Adriana tinha para apresentar ao público. Sucinta em falas, ela limitou-se praticamente a repetir o discurso de sempre, que serve para todas as ocasiões. Algo como "é muito bom estar aqui e vocês podem achar que eu digo isso em todos os lugares e eu digo mesmo, mas aqui é verdade". Uma declaração sincera, aplaudida aqui e em todos os lugares.

Os primeiros versos de Mais Feliz, letra de Cazuza imortalizada na voz da porto-alegrense, quebraram a monotonia que se instaurara na platéia até aquele momento. Na seqüência, Asas trouxe um retorno à temática do show e ao álbum Maresia, gravado há 10 anos.

Subiram no palco virtualmente outros compositores como Arnaldo Antunes (Para Lá), Seu Jorge (Tive Razão), Paulo Diniz e Torquato Neto (na divertida e inocente Um dia desses eu me caso com você), Guilherme Arantes (Meu mundo e nada mais) e Rodrigo Amarante (Deixa o Verão). Do fundo do mar às constelações nuas do firmamento cantadas em Teu nome mais secreto (com Waly Salomão), só o som.

Adriana tocou violão e violoncelo, arranhou guitarras, batucou no tamborim. No samba feito para Mart'nália e apropriado por Marisa Monte deu para ver também os dedos de fora no pé que calçava um chinelo, por baixo da longa túnica, marcando o compasso no chão. Algumas canções, velhas conhecidas, ganharam arranjos arejados pela maresia e alguns efeitos eletrônicos, leves como todo o resto e sem grandes inventividade, o que talvez seja exatamente o que o público de Adriana Calcanhotto mais aprecie. Ela não inventa muito, faz o que sabe fazer e faz bem.

Aos susurros e suspiros, todos acompanharam a letra e prenderam a respiração nas reticências do verso o retrato que eu te dei / se ainda tens não sei / mas se tiver... Nos segundos que antecederam o final da letra, tudo o que se ouviu foi o barulho de uma latinha sendo aberta no fundo do teatro. Alguém não poderia ter escolhido momento pior para provocar qualquer ruído, mas faz parte... Devolva-me!

Esquadros, Fico assim sem você, Vambora e Marinheiro foram as outras do velho repertório que embalaram o coro do público e sustentaram os mais longos aplausos. O insistente pedido de alguém que queria ouvir Marina provocou risos e não foi atendido. Entre as músicas novas, Porto Alegre foi a que mais animou, em um dos momentos mais acelerados do show, prova de que ninguém consegue mesmo resistir ao "ritmo do calipso".

O segundo e definitivo bis foi encerrado na batida empolgante da guitarra de Cazuza. Ao terminar de cantar Mulher sem razão pela segunda vez na noite, desceu do palco, por alguns instantes. Tirou fotos, abraçou fãs e foi embora dançando.

Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Página 4 | Publicado em: Pelotas, Quinta-feira, 18 de setembro de 2008

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Uma escritora de primeira viagem


Era uma vez uma digitadora de laudos médicos que trabalhava em uma clínica e detestava seu emprego. Ela passava o dia escrevendo - laudos, obviamente - mas queria mesmo era escrever histórias.

Tímida e romântica, Elisiane Martins - a Lisi - escreveu um livro que não teve coragem de mostrar para quase ninguém. Até o dia em que perdeu o emprego e resolveu arriscar. Com o dinheiro da demissão mandou editar apenas trinta exemplares, fez um lançamento discreto entre familiares e amigos íntimos e nunca mais tocou no assunto.

O livro, era praticamente um segredo. Até que um belo dia ela viu no jornal uma matéria que lhe chamou a atenção. Era a história de Laura Matheus - a Dona Laura - moradora da colônia Z-3 que aos 71 anos concretizou um sonho, que sem saber compartilhava com Lisi: o de ser reconhecida como escritora.

A trajetória da pescadora de palavras até o lançamento do livro Barbiele, publicada no Caderno Zoom do Diário Popular do dia 4 de junho foi inspiradora. Mas Lisi não teve pressa. Como ela diz, tudo para ela demora a acontecer...

Meses depois enviou um e-mail à redação. Na mensagem, que pelo tom da narrativa mais parecia uma carta, ela contava a sua história e tomava coragem de finalmente mostrar ao público seu livro de estréia. Para quem estava decidida a seguir a carreira como escritora não havia mais escolha: precisava se expor à crítica.


O romantismo em tempos de MSN

O Destino de Lisa - viver além da vida, amar além do amor traz no longo título a dramaticidade e o romantismo exacerbado que carrega na trama, curta, descrita em apenas 107 páginas, mas feita para ir além, como toda história de amor.

A personagem Lisi é perdidamente apaixonada por Josef, mas mesmo depois que resolve declarar seu amor incondicional - pela Internet, de forma quase anônima -, ainda se mantém resistente em ceder à conquista do amado e ao desejo dele de conhecê-la na vida real.

O livro, têm o ritmo do diálogo em mensagens instantâneas e o andar romântico de um malandro galanteador cortejando alguma moça que desfila pela rua. E tem também um pesar. Um ar de tensão, um medo e um sentimento de perda de quem nunca teve. A história mescla a ingenuidade adolescente, a anciosidade de resposta imediata e sua antítese - uma espera nada imediatista de um amor platônico.

Às vezes soa inocente demais, idealizado demais, sentimental demais, mas... é mais um modo de se ver a vida. "As mulheres de hoje precisam se valorizar", defende. "Acho que mulheres como a Lisi existem, mas são raras. No fundo Josef (par romântico da difícil Lisi) é mais idealizado que ela. Porque é ela quem define os rumos da história o tempo todo e não deixa muitas escolhas para ele, que mesmo assim não desiste do relacionamento", diz, ao comentar os desvios de comportamento e caráter dos personagens que criou. "O livro também toca no assunto do preconceito racial. Acho que todo escritor deve se sentir responsável por falar nessas coisas", afirma.

As histórias de Lisi e Lisa têm muito em comum. A autora e a protagonista estão sempre conectadas no mundo virtual: MSN, Orkut, e-mail... mas não perdem o ar sonhador.

A ficção toma emprestado alguns fatos da vida real. Como a mãe da personagem do livro, a mãe da escritora também teve um grande amor, que foi prorrogado por tempo demais. "Depois da separação minha mãe levou muitos anos até ir procurar o homem por quem ela realmente era apaixonada. E quando ela decidiu fazer isso descobriu que ele tinha falecido", conta Lisi, que é casada e confessa que também viveu um grande e primeiro amor.

Editado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores, o livro é a primeira parte de uma história que já tem continuação. O segundo volume, com título provisório de O Segredo de Lisa, está quase concluído, mas ainda não tem previsão de lançamento. Nessa espécie de retorno à escola Romântica adaptada aos dias atuais - em que ao invés de cartas se escrevem e-mails apaixonados (será?), a grande pergunta que o livro faz ao leitor é se as ferramentas do mundo virtual sufocam os relacionamentos ou se ao contrário, o romantismo está reconquistando seu espaço na vida das pessoas e ainda é capaz de sensibilizar o público através da literatura.

Como quase todo livro de estréia, este ainda não é uma obra-prima, mas um bom começo. Quem deseja ser escritor precisa, ao menos, escrever.


Leia um trecho

Deixou o micro conectado à Internet e com o volume alto para que pudesse ouvir quando ele entrasse.

Estava comendo distraidamente o segundo pedaço de sanduíche que preparara, quando ouviu o sinal no seu micro e correu ainda mastigando, quase tropeçando nas escadas de tão agitada e atrapalhada que ficara. Sentou-se rapidamente na cadeira em frente à sua mesa do computador e seus olhos mal acreditavam no que estava vendo.

Era ele, era Josef, que acabara de entrar. Sua emoção era tão grande que mal conseguia respirar e seu coração parecia explodir. Respirou fundo e digitou:

- Oi Josef! - fechando os olhos, como se estivesse fazendo uma prece para que ele respondesse.
- Oi Lisa!
- Ele respondeu. - Ele respondeu! - pensou Lisa, paralisada em frente ao micro.
- Tudo bem com você? - foi a única coisa que conseguiu digitar.


Contato

O livro O destino de Lisa pode ser encontrado na Livraria e Café Dom da Palavra. Contato com a escritora e encomenda de exemplares pelo telefone 9161-5960 ou através do e-mail lisi.martins@yahoo.com.br.


Texto: Bianca Zanella | Imagem: Divulgação | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Página 4 | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 16 de setembro de 2008

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Eu esperava mais...

O debate de ontem à noite entre os candidatos à Prefeito de Pelotas transmitido pela TV COM foi morno. Tão morno que não chegou a assar nem o "Peru do Anselmo". Explico a piada, para quem não assistiu: o candidato "mais esquentadinho" já de saída afirmou: "Eu não sou Peru da Sadia pra preparado". A primeira participação do imprevisível e teatral Governaço prometia bem mais, mas mesmo suas outras "tiradas" não chegaram nem perto do impacto desta.

Marroni e Fetter ficaram o tempo todo fazendo o DNA do asfalto, principalmente, e de outros projetos. Os outros candidatos - pelo menos os que foram articulados o suficiente para elaborar alguma estratégia - trataram de fazer perguntas entre si que atacassem por tabela os dois candidatos mais fortes. Foi o caso do Professor Lucas, Gilberto Cunha e Mateo Chiarelli que não perderam oportunidades para dizer que existem prioridades menos superficiais do que colocar asfalto. "Se preocupar com isso é a mesma coisa que um doente que precisa de um tratamento para câncer gastar dinheiro fazendo uma cirurgia plástica!"

Anselmo atacou a todos e não teve excrúpulos para dizer que tudo o que os outros prometem fazer, ele já fez. Rejane não atacou ninguém. Não teve capacidade. Apesar de ser a candidata que conhece mais profundamente os problemas da cidade (pois cada resposta ela começava contando uma vivência pessoal de como já sofreu com aquilo) ela só conseguiu incentivar um sentimento coletivo de vergonha alheia e piedade. Tudo ela considera "um absurdo". Caiu em todos os "pega-ratões" que lhe aplicaram, e não foram muitos porque os demais candidatos até a pouparam de perguntas mais difíceis. De qualquer forma, suas breves participações foram suficientes para deixar explícito o despreparo da candidata. Mostrou que pensa pequeno demais e que não tem visão global para resolver problemas grandes. A questão do turismo, por exemplo, ela resumiu como a falta de um ônibus para levar as pessoas que chegam de outras cidades para conhecer Pelotas. De que turismo ela está falando? Aí o Fetter, na réplica, se lavou...

Como é que ela acreditou quando disseram que ela estava preparada para ser candidata, e muito pior, prefeita? Alguém poderia ter evitado toda essa pagação de mico...
Do Lucas se esperava bem mais. O candidato tem um discurso muito bom, mas para o enfrentamento no debate faltou ser mais claro e, principalmente, prático.
Mateo ficou no disco repetido de que é "O Diferente". Apresentou propostas, tentou não bater de frente com ninguém. Parece, no entanto, que falta-lhe carisma e um pouco mais de espontaneidade para crescer na campanha.
Alexandre Nunes surpreendeu, estava bastante articulado, apesar de parecer que tinha treinado horas na frente do espelho, decorando tudo o que ia falar. Mesmo assim, foi bem.

No final das contas, além do asfalto, que já se esperava, seria o tema principal no confronto Fetter - Marroni, ficaram de fora algumas questões elementares, assuntos em que ninguém ousou tocar.
O termo ecologia, por exemplo - que é um dos assuntos mais importantes e preocupantes da atualidade - não foi citado em nenhum momento. A não ser o eucalipto, mensionado levianamente como um problema "turístico" e nada mais, não se ouviu ninguém falar diretamente sobre isso. Por que será?


sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Um pouco sobre Bebeto Alves

Uma noite de casa cheia. Ali, na "avenida" João Gilberto, no encontro cenográfico entre as ruas Pelotas e Uruguaiana, no entrecruzamento entre o rock progressivo, o reagge e a milonga, eis que estava Bebeto Alves e seu violão.


Era quarta-feira e eu jamais havia imaginado encontros tão improváveis. Musicalmente falando. Pessoalmente falando. Em seu novo CD - Devoragem - o compositor, nascido em Uruguaiana, leva a antropofagia ao pé da letra, à raiz do verso, ao ápice do som. Bebeto Alves cutuca a palavra com vários ritmos, em várias variações, e assim é capaz de provocar a intersecção de tribos distintas: dos adeptos da bicho-grilagem - com suas túnicas e colares de sementes - aos gaudérios - de boinas, botas e bombachas. Com semblates sonhadores, um tanto quanto impacientes, estavam todos lá naquela noite, se apinhando (e nem sei se essa palavra existe, realmente) nos nichos do bar, em torno do pequeno palco, naquela incomum esquina do som.

Composições familiares soaram estranhas. Eu conhecia um lado poeta de Bebeto Alves sem saber que o conhecia e sem saber que ao lado dele havia um outro lado - intérprete -, de voz rouca e sentimento. Ouvi-lo cantar não é o mesmo que vê-lo cantar, de olhos arregalados e com o cacoete de assoprar e sacudir os ombros enquanto toca o violão. Cena linda foi quando ele teve nas mãos um enorme tambor, batucou suave, cantou de leve, olhando ao longe como se tivesse a lua no colo...


Era noite de cantar o novo, mas o público não esquece o passado. A platéia queria ouvir Homem Invisível, pedido que não foi negado, mas ficou pro bis. Para ser mais intimista, faltou intimidade do público para saber se comportar em momentos sonores e raros como aqueles. Pudera ter feito dois shows: e todos ficariam mudos, estarrecidos, manifestando-se apenas quando fosse convenientemente estético (fazendo coro aos refrões, ou repetindo vocalizações). Pena que o público não é tão eclético quanto o próprio compositor, pois quando variava o estilo enquanto uns curtiam a canção, outros eram puro tédio e descontração. Desatentos, batiam papo enquanto perdiam as melhores partes. Volta e meia, as melodias eram arranhadas por pedidos de silêncio. shiiiiiiiii....

Em silêncio, termino, enfim. Não sei as letras das músicas. Eu não sabia que gostava de Bebeto Alves. Mas acho que valem uns versos que descobri aquele dia e que encontrei por aí...

Eu tento compor minha música
Fazer o meu trabalho, estar na pelo dos loucos
Onde a inveja dos outros, hipócrita e cínica
Maneja o freio conforme o cavalo

Mas só quem charla com a alma
Merece o batismo de alguma milonga
Cutucando a palavra
Seguindo a estrada do seu coração

Vivo o que escrevo, sensitivo de mim
O tiro do instrumento o bom da coisa ruim
E creio que vale a pena
Lavar a erva do chimarrão

Gosto de usar a paisagem mapear as imagens num fundo de campo
Gosto da tropa de cria, chamando a poesia pra perto do rancho
Gosto da prosa sem lado pescando dourado no Rio Uruguai
Das crinas do salso, roçando no braço do meu violão

(Ah milonga, milonga, milonga, milonga palavra dos meus peçuelos
Contigo o tempo não tem segredos, por onde eu for)


Texto: Bianca Zanella | Fotos: Ândria Halfen | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Página 4 | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 16 de setembro de 2008

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Por falar em Rafael Sicca...

... o cartunista pelotense foi elencado como um dos "118 motivos para se ter orgulho da região", publicados no caderno especial de aniversário do Diário Popular esse ano.


Críticos especializados de quadrinhos e fãs leigos de HQ´s concordam que o cartunista pelotense Rafael Sica tem talento - em tiras - para mais de metro. Destaque mundial nas "webcomics" (tiras cômicas feitas para a Internet), Sica é autor de personagens como o Cara de Plástico e o Sr. Desculpas Esfarrapadas. Seus desenhos já estiveram nas páginas do Diário Popular, ilustraram revistas como Mundo Estranho, Superinteressante, MTV, VIP, Trip... Atualmente podem ser vistos no caderno Folhateen, da Folha de São Paulo, e no blog Quadrinho Ordinário.

Dizem que Rafael possui "genialidade em estado bruto". Dizem que ele tem um "humor ácido". Certo mesmo é que o traço descomportado de Sica não conhece limites para o desenho. Nas suas versáteis proporções, um quadrinho nunca é pequeno demais para caber a realidade.