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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Minha vida digital

Estou on-line, logo existo. Como a vida social na Internet está cada vez mais agitada, o Estilo lança a questão: viramos escravos da agenda virtual?

Será impressão minha ou a expressão "surfar na Internet" saiu mesmo de moda? Talvez porque hoje em dia, com a profusão de informações na rede, ninguém consiga mais se equilibrar em uma reles prancha. É bem verdade que, mesmo nos tempos mais remotos, os cibermares nunca foram muito tranquilos. Mas, com a maré cheia de conteúdos que se tem atualmente, os internautas vivem cada vez mais a se equilibrar sobre o mouse em meio a "águas" turbulentas. Apesar disso, navegar é preciso.

O Brasil é um dos países onde as pessoas permanecem mais tempo conectadas no mundo. Em março desse ano atingimos uma marca inédita: cada um dos mais de 25,5 milhões de internautas residenciais navegou, em média, 26 horas 15 minutos durante o mês. Isto é, um dia inteirinho mais uma hora e quinze minutos. O recorde nos colocou no topo do ranking mundial que mede o tempo de navegação por usuários no mundo, logo acima de países como o Reino Unido, a França e a Alemanha.

Na prática, usuários mais efetivos costumam passar muito mais tempo na Internet. Adolescentes ou quem trabalha on line – especialmente profissionais na área de mídias ou informática – chegam a permanecer cerca de 8 horas seguidas conectados todos os dias.

Para piorar, estudos indicam que, a cada ano o internauta fica cerca de 0,8% mais lento para assimilar a informação disponível on line a despeito da tecnologia que, ao contrário, é capaz de transmitir cada vez mais informações com mais velocidade.

"E o que tu queres que eu te diga, que os jovens são viciados em Internet?" Foi a pesquisadora Raquel Recuero – uma das mais conceituadas quando se trata de redes sociais – quem começou perguntando na entrevista. Ela própria é um exemplo de internauta praticamente full time. "Quando eu era adolescente costumava passar horas ‘pendurada’ no telefone", compara. Hoje o que era um simples telefone virou celular e ganhou muito mais funções e, assim como o computador, permite que ela, os adolescentes e também gente de todas as idades passem horas conectados. "O importante é ter disciplina para não deixar que essa rotina seja sufocante, e saber usar a Internet na medida em que ela é útil", diz ela.

A rotina digital é intensa, e começa cedo, muitas vezes regada à uma boa xícara de café que acompanha as primeiras leituras do dia: é o momento de dar a primeira olhada na caixa de entrada do correio eletrônico (que nem sempre é única) e, como é preciso se manter bem informado, também é hora de ler as notícias do dia em jornais on-line, blogs ou no próprio agregador de feeds.

Nesse meio tempo, ainda sobram alguns minutos para dar uma passadinha nos microblogs Twitter (para ver o que está rolando por lá) e no Plurk, para ver se os amigos têm alguma novidade e, claro, para manter o "karma" (índice que mede o nível de popularidade e interação dos usuários). Uma "pausa" para responder a janelinha do MSN que começou a piscar (ao mesmo tempo que emite seu sinal sonoro característico), e não esqueça de colocar logo na Internet aquelas fotos da festa do final de semana. Ah! E cuidado para não se perder entre os milhares de links por aí, ou lá se vai a tarde inteira…

Agregadores de Feed

Os agregadores são programas que organizam informações de acordo com as preferências e interesses dos usuários. Tais programas são receptores de RSS Feed, uma tecnologia que permite a distribuição e recebimento de conteúdo (texto, som ou vídeo) sem a necessidade de acessar um website. Basta o internauta faça um registro nos sites ou blogs de onde deseja receber informações.

Microblogs

A instantaneidade dos microblog (blogs onde se publica textos de até 140 caracteres) conquistou internautas em todas as partes do planeta. No Brasil, os adeptos do formato têm aumentado expressivamente: o Twitter, mais popular deles, teve um crescimento de 456% em acessos entre abril de 2009 e o mesmo período do ano passado.

Mesmo assim nem chega perto de ser tão popular quanto o Orkut, lançado há 5 anos. Dos 25,5 milhões de internautas residenciais no Brasil, 17,85 milhões acessam o site de relacionamentos do Google.

O Plurk, criado mais recentemente, tem uma audiência menos expressiva mas virou uma espécie de fenômeno local. Hoje o site conta com pelo menos 400 "plurkers" pelotenses.

***Continuação do texto***
Na sequência, a agenda ainda pode reservar outros compromissos: verificar recados, checar as comunidades que você administra para ver se não há nenhum post indevido e ainda dar uma espiada na página de recados do namorado(a) ou ex no Orkut; ler e comentar blogs alheios (se quiser ter audiência no seu próprio blog, é preciso frequentar os dos outros) e, por falar nisso, você também precisa atualizar o seu blog, já que a última postagem foi publicada na semana passada.

Ser popular na Internet exige tempo e, pela falta dele, de assunto ou de paciência, provavelmente o próximo texto que será escrito comece de uma forma bem pouco inspirada: "Desculpem a falta de atualização no meu blog, mas a correria está demais (e a minha preguiça também!) Prometo tentar postar com mais frequência e blá, blá, blá…" Pra quê?

Para cada plataforma na Internet, existem milhares de utilitários – alguns aplicativos extras que até melhoram a funcionalidade dos sites, mas muitos são apenas um múltiplo a mais para as formas que se tem de interagir.

A maioria das pessoas nem conhece todos os recursos que um site pode oferecer (a forma de navegar é cada vez mais personalizada) e usa somente o "basicão", assim como a maioria das pessoas também não conhecem totalmente o potencial da maior parte dos aparelhos eletrônicos que possui. Ou você sabe tudo o que o seu celular é capaz de fazer?

Minimize

Os calculistas dizem que estamos a, no máximo, seis níveis de separação de qualquer pessoa do globo. Isto é: eu tenho um amigo. O amigo desse amigo meu tem outro amigo que conhece outro alguém que tem uma vizinha cuja tia tem uma empregada que é mãe do meu amigo. Mais ou menos assim.

Quase todo mundo recebe diariamente vários e-mails de desconhecidos de toda parte que querem se tornar "amigos". Querem que a gente esteja presente em cada nova rede virtual que aparece, seja ela Orkut – a mais popular no Brasil – ou My Space, Facebook, Sonico, Hi5… E eu disse "estar presente" mesmo, porque as redes sociais na internet exigem presença. A palavra de ordem é compartilhar. O que requer atualizar constantemente o perfil (e como somos seres tão mutantes o que dizemos sobre nós hoje logo fica defasado), postar novas fotos no álbum, novos vídeos, e estar em constante interação.

Em meados do século passado o escritor belga naturalizado argentino, Júlio Cortázar, dizia - não com essas exatas palavras - que quando se tem um relógio se tem também a obrigação e a necessidade de lhe dar corda todos os dias.

As redes digitais exigem a mesma frequencia e fidelidade. Segundo o Ibope, os brasileiros visitam o Twitter, em média, uma vez a cada oito dias. Já a média de assiduidade no Orkut por parte dos internautas daqui chega a ser de pelo menos um acesso a cada dois dias.

Mas, quando a vida offline (sim! Exite vida além da vida digital!) não deixa folgas para o seu avatar ou representação do "eu digital" agir o resultado é uma infinidade de posts com pedidos de desculpas pela falta de atualização – e tem gente que realimente se sente culpada por faltar a esses "compromissos" informais – além de milhares de perfis "fantasmas" condenados ao abandono.

Se estar sempre conectado pelo computador ou celular para alguns é um castigo, para Aleksandar Mandic é versatilidade. O empresário, um dos pioneiros da internet brasileira, argumenta que isso não é "perda de tempo", e sim uma forma de otimiza-lo. "A tecnologia não evoluiu para nos tornar escravos dela, mas sim para nos colocar mais presentes no dia-a-dia dos negócios e cuidar de outros assuntos ao mesmo tempo. Agora você pode tirar férias com a família e acompanhar os negócios de perto", defende.

Uso, sem abuso
(existem incontáveis formas de usar a internet – invente uma!)

Raquel Recuero é uma jornalista pelotense e trabalha como professora, pesquisadora e consultora na área de redes sociais. Tem 78 anos (segundo seu perfil na Internet), mais de 2 mil seguidores no Twitter e, orgulhosamente, 100 de karma no Plurk.

Ela não gosta da ideia de "criar regras", mas impõe limites para si mesma: todos os dias ela lê seus feeds mais interessantes até as 8h15min, dá um "alô no Plurk para manter o karma" e sai para correr. "O que não é lido até aquele horário não leio mais", até porque no dia seguinte vai haver pelo menos o dobro de links para serem acessados.

Angélica Freitas, tem 36 anos e é poetisa. Nasceu em Pelotas mas vive pelo mundo (atualmente passa um tempo na Argentina). Participou de vários blogs coletivos, entre eles o Poeta com dead line (uma alusão à sua formação em jornalismo), onde os colaboradores escreviam poesias diretamente na Internet e o Algavária, onde tinha a obrigação de publicar uma nova poesia a cada segunda-feira. É, ou era, blogueira desde 2001 e mantinha há 7 anos o blog pessoal Tome uma Xícara de Chá. Em abril deste ano deixou muitos leitores órfãos. Na sua derradeira postagem, a despedida poética: "É um chicletinho cósmico, a internet. Mas todo mundo sabe a verdade sobre o chicletinho: vicia. Só mais um pouquinho: e lá se foi a manhã. Que não voltará jamais! Se sair do Orkut e do Facebook é 1/2 um suicídio, deixar de ter um blog e de ler blogs é 3/4 sair da cidade grande para ir morar no campo. Creiam-me. Oh, já ouço o gritar dos quero-queros! Eu quero-quero uma casa no campo!"

Tatiane Lang é psicóloga, tem 28 anos e nasceu em Pelotas. Conheceu muitos amigos no IRC, gostava de ICQ e hoje adora plurkar e bater-papo no MSN. Entrou no MySpace por "incentivo" a apresentadora de TV Oprah Winfrey, mas prefere usar o Facebook. Pensou várias vezes em criar um blog, mas nunca o fez para evitar o compromisso. Isso porque "se vai começar a fazer alguma coisa tem que se dedicar", diz ela.

Jean Marques é web designer. Tem 29 anos e nasceu em Pelotas. Passa praticamente o dia todo online e admite que fica nervoso sem internet. "Uso algumas gadgets pra tentar manter a produtividade e a organização como calendários online e lista de tarefas, esse tipo de coisa.". Durante a entrevista, concedida pelo Gtalk estava em mais três conversas online, no Plurk e em fórum.

Guilherme Felliti é jornalista, nascido em São Paulo e tem 26 anos. É colunista da revista Carta Capital e editor-assitente do site IDG Now!, especializado em tecnologia. Cansou do Twitter. Abandonou sua conta pessoal no ano passado mas continua administrando o perfil do IDG Now!, que tem 4,5 mil seguidores. Diz que já foi compulsivo pelo computador mas que hoje em dia não entraria em colapso na falta de Internet. "Passaria uma semana ou um mês longe sem problemas. Claro que não nas próximas semanas, que eu preciso acabar minha tese!". Depois que concluir o mestrado, pretende se isolar durante um final de semana sem nada tecnológico. "Abraçar o mundo digital é suicídio. Admitir que há uma tonelada de coisas legais rolando por aí e que você não poderá ver absolutamente todas é um bom caminho", disse em entrevista pelo Gtalk

Bianca Zanella é jornalista, tem 21 anos e trabalha no Diário Popular. Seu perfil no Orkut está desatualizado. Deixou de postar no Twitter há meses, mas continua acumulando seguidores (o que será que eles querem ler lá?). Meses atrás chegou ao Plurk Nirvana (com karma superior a 81) mas atualmente não consegue mais passar dos 80. Dedicada a fazer essa matéria, foi conhecer mais a fundo o assunto e criou contas no Facebook e no MySpace (que serão abandonadas). Por causa de uma falha de configuração ficou cinco dias sem receber e-mails e até agora não conseguiu ver todas as mais de 90 mensagens que acumularam nesse tempo.

Lições para reaprender a navegar

Livre-se do lixo. Filtre seus e-mails. Configure seu anti-spam para reduzir o número de e-mails indesejados e não deixe acumular mensagens não lidas na sua caixa de entrada. Além de causarem a impressão de muitas coisas pendentes, elas ainda podem fazer você perder e-mails realmente importantes. Também não esqueça da regra básica da "netiqueta" (etiqueta da Internet) e seja criterioso ao enviar mensagens para não entulhar as caixas de entrada alheias.
Organize-se. Pode dar um pouco de trabalho criar pastas para e-mails, mas em pouco tempo essa medida pode ajudar a reduzir o tempo gasto para administrar o correio eletrônico. Há quem prefira administrar todos os e-mails em uma conta universal (que recebe e-mails enviados para as contas pessoais e profissionais), mas nem sempre essa pode ser a melhor opção. Outra dica é ter uma conta exclusiva para cadastros em sites. Assim as mensagens indesejadas, principalmente publicitárias, poderão ser todas desviadas para lá.

Saiba que menos é mais. Seja qual for o seu objetivo – conquistar popularidade e "capital social", fazer contatos profissionais ou divulgar produtos e ideias, será mais fácil conseguir isso com perfis, blogs ou sites "turbinados", bem feitos e principalmente atualizados que com inúmeras páginas onde o seu nome aparece mas sem qualidade de informação.


Texto: Bianca Zanella Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Estilo / Páginas Centrais Publicado em: Pelotas, Domingo, 24 de maio de 2009

sábado, 16 de maio de 2009

Um dia para celebrar a paixão nacional em litro

Como a tequila é para o México, a vodka para a Rússia, e o saquê para o Japão, a cachaça é símbolo de brasilidade em estado líquido. Mesmo com um apelido diferente em cada região do país – canha, pinga, branquinha e muitos outros – a exclusiva aguardente de cana-de-açúcar produzida no Brasil tem nome oficial e registro no calendário: 21 de abril – Dia Nacional da Cachaça – é um dia para ser brindado.

A data foi instituída pelo então governador de Minas Gerais Itamar Franco, escolhida em referência ao início da safra de cana-de-açúcar em Minas Gerais, principal estado produtor.

Produto original brasileiro, nos primórdios era relegada apenas ao consumo dos escravos, que usavam a aguardente para amolecer a carne do porco, chamados de “cachaços”. O apelido “pinga” veio porque o líquido pingava do alambique.

No século 17, com o aprimoramento da produção, a cachaça passou a atrair consumidores, ganhou importância econômica e acabou provocando a ira dos portugueses, que contrariados com a desvalorização de sua bebida típica, a Bagaceira - produzida com o bagaço da uva -, proibiram a fabricação e o consumo da bebida criada no Brasil Colônia. Mas, a retaliação teve como reflexo o nacionalismo brasileiro e o boicote ao vinho português.

Mesmo depois de Portugal ter recuado quanto à decisão de proibir a cachaça, anos mais tarde a bebida viraria símbolo da resistência ao domínio dos colonizadores, nas palavras do herói Tiradentes em seu último pedido: “Molhem a minha goela com cachaça da terra.”

Durante o ciclo do café, a bebida dos alambiques esteve em baixa, mas a Semana da Arte Moderna, em 1922, tratou de resgatar seu valor e influência na vida artística nacional com a “cultura de botequim”, a boemia.

Hoje a produção brasileira de cachaça ultrapassa os 1,3 bilhões de litros. Destes, menos de 0,5% são exportados.


Para beber com moderação

Entre inúmeras marcas, algumas com nomes folclóricos como Consola Corno e Amansa Sogra, para leigos pode ficar difícil escolher o que beber. Há muitas opções, e apesar de limitados, os pontos de venda pelotenses oferecem variedade para os apreciadores.

No Mercado Municipal é possível encontrar exemplares regionais como a Da Colonia, de Santo Antônio da Patrulha, a Azulzinha, de Osório e a Acanguaçu, produzida aqui perto, no 4º distrito de Canguçu. Com uma produção de 1,5 mil a 2 mil litros por ano, seu Antunes Dias de Souza, a esposa e duas filhas fazem o produto em processo totalmente artesanal, desde 1986.

Da colônia francesa de Pelotas (7º distrito) é possível encontrar a Graspa, e de Rio Grande vem a tradicional Jurupiga, ambas variações de cachaça feitas à base de bagaço de uva.

Em casas de carnes e bebidas, pode-se escolher entre cerca de 90 tipos de cachaça, a maioria produzida nos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. “Nós já tivemos mais, mas reduzimos o estoque devido ao alto custo de reposição”, explica Paulo Moreira, proprietário de um dos pontos comerciais que oferece maior variedade. As mais caras são a Anízio Santiago – antiga Havana – (em falta até a semana passada) e a Canarinha, do alambique do irmão de Anízio, Noé Santiago, que custam R$ 280 e R$ 85, respectivamente.

Ano passado a maior rede de cachaçarias do mundo – a Água Doce – chegou a anunciar a inauguração de duas novas franquias, em Pelotas e Rio Grande, cidades que segundo pesquisa estariam entre os dez municípios gaúchos com maior potencial para esse mercado, de acordo com o interesse da população pelo produto. A casa ofereceria mais de 240 tipos de cachaça, além de culinária típica.

Prometia pegar, mas o empreendimento acabou não vingando antes de abrir. O franqueador para o Rio Grande do Sul e Mercosul, Rudi Kilpp, diz não ter explicação plausível para o negócio ter retroagido. “Os investidores direcionaram seus negócios para outros focos e ficamos sem parceiros”, lamenta ele, que reverteu os investimentos que faria aqui para a segunda fraquia em Porto Alegre e outra em Gramado.

Na época, o investimento estava orçado em R$ 400 mil para cada uma das franquias. Apesar do insucesso da primeira tentativa, Kilpp já se prepara para uma nova investida no sul do Estado. “Só estamos aguardando uma retomada no mercado de investimentos”, afirma.


Como escolher

Uma boa cachaça geralmente tem aroma suave. Alguns degustadores costumam agitar a garrafa para verificar a quantidade de bolhas que se formam. Quanto maior o número de bolhas, melhor a qualidade da bebida.

A cachaça de qualidade precisa ficar armazenada por, no mínimo, dois anos em uma boa madeira. Se ficar acima de oito anos vira produto nobre e ganha status no mercado.

Estampado em um dos rótulos mais tradicionais, o Velho Barreiro é considerado “o pai da pinga”. A cachaçaria que leva esse nome foi fundada em 1975, numa época em que poucas empresas assumiam a empreitada de tentar dominar o território nacional.

Por norma técnica, a cachaça original deve ter teor alcoólico entre 48% e 56% em volume, e é obtida pela destilação do mosto fermentado do caldo de cana-de-açúcar. Tem características sensoriais peculiares, que permitem distinguir seu sabor em pelo menos quatro paladares básicos: adocicado, ácido, amargo ou salgado.


“Combinarás a boa cachaça com a boa comida”

Como manda o oitavo de dez mandamentos a serem seguidos pelos bebedores de cachaça, segundo o chef e especialista no assunto Sérgio Arno, tudo o que é gorduroso vai bem com cachaça – que tem propriedades digestivas - como aprova o gosto popular. Mas os tira-gostos vão bem com cachaça branca. A envelhecida tem um sabor de madeira que compete com o do alimento, e por isso só deve ser servida após as refeições e, para os que apreciam o hábito de fumar, acompanhada de um bom charuto.

Paulo Moreira recomenda a seus clientes casquinha ou bolinhos de siri, queijo provolone, pepino e cebolinhas, entre outros aperitivos que podem compor uma farta tábua de frios para serem saboreados com a bebida. E ensina: a cachaça deve ser bebida em copo tipo martelinho e aos poucos. “O bom tomador não bebe de uma vez só. Ele vai degustando aos poucos, em pequenos goles, apenas molhando os lábios.”

Segundo especialistas, para degustar uma dose um “cachaçólogo” demora de 15 a 20 minutos. Um coquetel e uma batida requerem de 20 a 30 minutos.

O chef Sady Hömrich sugere aperitivos como pururuca, torresmo e linguicinha, carnes e frutos do mar com molhos picantes, além de indicar a caipirinha como bebida ideal para ser servida antes da feijoada. E é de autoria dele a receita de linguiça flambada na cachaça que reproduzimos nessa matéria.


Linguiça flambada na cachaça

Os ingredientes:
1/2 kg de linguiça da sua preferência (finas, de porco, mista ou calabreza)
50 ml de cachaça de alambique (branca)
1 cravo da índia

O preparo:
Corte a linguiça em pedaços de 10 cm e faça com o garfo alguns furos.
Numa panela ou frigideira, ferva os pedaços de linguiça, em água, juntando o cravo (essa fervura é importante para retirar da linguiça o excesso de gordura).
Depois de fervida retire da panela ou frigideira e seque em papel toalha.
Despreze a água e o cravo da panela ou frigideira.
Disponha os pedaços de linguiça em uma frigideira grande e seca, despejando a cachaça sobre todos os pedaços, acendendo e flambando. Cuidado: o fogo pode subir e queimar sua coifa ou depurador, se você tiver um.
Servir imediatamente acompanhada de farofa e pão francês cortado em rodelas ou aipim frito.


Vai uma dose aí?

A Caipirinha, um dos coquetéis que ocupam o topo no ranking de pedidos em bares por todo o País, já ganhou variações à base de outras frutas além do limão como morango, maracujá e abacaxi. Mas entre as releituras do drink é possível encontrar até misturas mais ousadas como a “Caipicerva”, para quem gosta de tomar uma cerveja bem gelada acompanhada por uma boa cachaça. Na sequência, você confere a receita original, para ser modificada conforme a criatividade e o paladar.


Caipirinha Tradicional

Ingredientes (para uma dose)
1 limão cortado em 4 ou 8 partes
1 colher de sopa de açúcar
2 cubos de gelo
Cachaça (dose mínima de 75 ml)

Modo de preparo:
Coloque em um copo o limão e o açúcar. Amasse bem o limão com um socador de madeira ou similar. Adicione gelo e a cachaça.

Dicas do Sady: usar cachaça jovem, com pouco ou nenhum aroma amadeirado. Descascar os limões “preguiçosamente”, deixando alguns filetes verdes. Há uma versão com menos limão e com manjericão amassado junto. “Fica ótimo!”


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Estilo / P. 12 |Publicado em: Pelotas, Domingo, 16 de maio de 2009

domingo, 10 de maio de 2009

Pra esperar quem vem de fora

Os preparativos dentro e fora do Centro de Eventos

A menos de um mês, mais precisamente a 24 dias, do início da 17ª edição da Feira Nacional do Doce – a Fenadoce – Pelotas começa a se envolver com a atmosfera do maior evento do calendário do município. A movimentação em torno da feira começa no Centro de Eventos e se expande por toda a cidade, seja na forma de formigas gigantes que mais uma vez marcarão a trilha que leva a vários pontos do centro, ou como promoções e oportunidades de consumo e trabalho. A Fenadoce vem aí. Estamos preparados?

Para diversos empresários e gestores do setor de turismo é praticamente uma unanimidade a opinião de que se amadureceu muito, mas apesar da experiência adquirida nas 16 edições anteriores a cidade ainda não consolidou todo o potencial turístico da Fenadoce.

Enquanto no interior do Centro de Eventos o clima é de aceleração nas obras de infra-estrutura, preparação dos estandes e confecção dos bonecos e alegorias que farão parte dos desfiles temáticos – principal novidade da feira este ano, do lado de fora a cidade que procura alcançar a excelência em turismo ainda se prepara a passos lentos, ou atrapalhados.

As secretarias municipais de Turismo e de Urbanismo prometem fazer o básico: a de Urbanismo irá providenciar o embelezamento urbano, especialmente no Calçadão, com plantio de flores e pinturas, enquanto a de Turismo corre para checar a manutenção da sinalização e para organizar dois novos postos de informações – um na Fenadoce e outro no centro, além dos que já funcionam na Rodoviária e no Parque da Baronesa. Isso, entretanto, ainda emperra em uma liminar da justiça que restringe a contratação de estagiários para atenderem nesses postos e também na definição do local de instalação do ponto de atendimento na área central.

Além disso, segundo o titular da pasta, Marcelo Mazza Terra, a secretaria ainda tenta, antecipadamente, realizar um levantamento das atrações que Pelotas terá para oferecer fora do Centro de Eventos durante os dias da Fenadoce a fim de recepcionar os turistas com mais opções.
E é justamente nesse ponto que falta consenso: enquanto os gestores públicos cobram uma maior mobilização por parte dos empresários, boa parte dos empresários queixa-se que a Fenadoce se concentra apenas no Centro de Eventos e os organizadores da Feira rebatem dizendo que são eles – os proprietários de bares, restaurantes, locais de visitação, etc – que devem atrair o público do Centro de Eventos para dentro da cidade, e ainda cobram maior envolvimento do poder público. Em outras palavras, o desenvolvimento do turismo local esbarra, mais uma vez, na falta de uma ação coordenada.

Para a presidente do Pelotas Convention & Visitors Bureau, Cristiane Hallal, um passo importante seria a inclusão de profissionais de turismo no quadro de funcionários da Prefeitura. Uma forma de garantir a implantação de um projeto de gestão do turismo a longo prazo. “Assim o turismo deixaria de ser uma prioridade de governo e passaria a ser uma prioridade do município”, destaca.

Até lá, entretanto, ainda há muito o que fazer e os turistas não esperam: com reservas em hotéis feitas e excursões agendadas eles estão a meio caminho andado.


“Gargalo” de crescimento

O sabor, as belezas e o patrimônio histórico e cultural de Pelotas costumam chamar a atenção de gente de várias partes do Brasil e até de fora do País. Mas, é de cidades do Rio Grande do Sul situadas em um raio de 300 quilômetros a partir de Pelotas que vem a maior parte dos turistas que visitam a Fenadoce. A feira tem um público crescente e recebe em média 340 mil visitantes a cada ano.

Gilcéia Bender, a Téia, é responsável pela recepção dos visitantes da Fenadoce há 7 edições. Em eventos como o Festival de Turismo de Gramado e através de lista de e-mail ela faz contatos com mais de 400 agências de turismo do Brasil e do Mercosul para intensificar a divulgação da feira e tentar assim incluir Pelotas no roteiro dos pacotes de viagens. Este ano a feira oferece um atrativo a mais para essas empresas, que ficarão com 20% do valor dos ingressos pagos pelos grupos. Pela grande procura, a expectativa é de que o número de excursões este ano seja de 10 a 20% maior em relação ao ano passado quando pelo menos 600 ônibus desembarcaram no Centro de Eventos. Nas agências de turismo receptivo, a Fenadoce chega a representar um incremento de 40% na demanda de serviços em relação aos meses de baixa temporada e é a melhor época do ano para o setor.

No entanto, para acomodar esse grande público esperado os espaços são disputados. A rede hoteleira de Pelotas tem capacidade para hospedar pouco mais de 1,5 mil pessoas. O número ainda pode aumentar com mais 75 novos quartos do hotel que deve ser inaugurado antes do mês de junho. Mesmo assim, ainda é pouco e já tem gente desistindo de visitar a feira por não ter onde se hospedar, segundo a proprietária de uma agência de turismo receptivo, Elva Baehr da Silva. “Isso sem contar outros constrangimentos que os turistas passam por causa da falta de qualificação dos serviços. Não há incentivo do poder público nem união no setor do turismo”, lamenta.

De acordo com o Pelotas Convention Buerau, o problema é que a procura se concentra muito nos três finais de semana da feira, enquanto entre as segundas e quintas-feiras a demanda ainda está longe de ocupar a capacidade máxima de lotação dos hotéis. “Pelo menos 10 eventos paralelos estão agendados para o período da Fenadoce. Todos querem marcar na mesma data para que quem vem de fora aproveite para visitar a feira”, afirma Cristiane Hallal.

Marcelo Mazza Terra é otimista: “A capacidade hoteleira é atualmente o limite de crescimento da Fenadoce, mas esse é um problema estrutural do mercado que tem solução e pode despertar nos empresários boas oportunidades para novos empreendimentos”.

Mas, ao mesmo tempo, não há interesse por parte dos empresários do ramo da hotelaria em ampliar muito a capacidade se durante o restante do ano a demanda for baixa, apesar do crescimento registrado pelo setor na carona do desenvolvimento da região.


Souvenir

Empresários, micro-empresários e representantes de organizações que tenham algo a oferecer para os turistas – um produto ou serviço – têm várias formas de fazer com que os visitantes fiquem sabendo. Os hotéis costumam disponibilizar aos hóspedes material impresso informativo, que também pode ser entregue nos postos de informações turísticas da Prefeitura. No site da secretaria de turismo ou por e-mail (ste@pelotas.com.br) é possível cadastrar eventos para serem divulgados.

A falta de informações, no entanto, não é o único impedimento para os visitantes dispostos a conhecer as atrações do município. A má adequação dos horários de visitação de muitos locais (que não funcionam aos finais de semana, por exemplo) é outra queixa frequente, e que deixa a péssima impressão de portas fechadas, e a vontade de conhecer por dentro as belezas do patrimônio local.

Para completar a lista de itens “espanta-turista” aparecem também os “azuizinhos”, que segundo empresários chegam a multar veículos em embarque ou desembarque na frente dos hotéis. Para o secretário de Turismo, é possível tratar melhor os visitantes, especialmente os estrangeiros que podem não conhecer as leis de trânsito daqui, “o que não se pode é permitir abusos”.


Prontos para receber?

A Fenadoce gera mais de 300 empregos diretos. Seis são para a função de recepcionistas. A equipe comandada por Téia teve até 14 pessoas em anos anteriores. Segundo ela, o quadro mais enxuto adotado há três edições se deve à mudança na dinâmica de trabalho. Ao invés de postos de informações em todas as entradas, agora os recepcionistas atendem os visitantes em um único guichê central.

Quem ocupa esses postos de trabalho são estudantes de turismo. E apesar deles serem muitos na cidade nem sempre é fácil encontrar pessoal capacitado para o trabalho. “A maior dificuldade é encontrar alguém que atenda todos os requisitos”, confirma Téia. Ser bilingue, por exemplo, com fluência em espanhol e ter disponibilidade para trabalhar em turno integral durante 19 dias seguidos são itens quase sempre incompatíveis: se o candidato preenche um dos critérios normalmente não preenche o outro.

Nas empresas de prestação de serviço as queixas por falta de mão-de-obra é quase a mesma. “Há muita carência e às vezes o problema não é nem falta de treinamento, mas falta de uma ‘visão de negócios’ e de uma percepção de que as pessoas que estão aqui não vieram somente a passeio”, diz Cristiane Hallal.

Para qualificar os funcionários, o Pelotas Convention Bureau ainda irá realizar até a Fenadoce cursos para funcionários do setor de turismo. Os recursos para isso vêm da taxa de turismo cobrada pelos hotéis, principal fonte de fundos da associação que conta com 32 mantenedores entre hotéis, bares, restaurantes, empresas organizadoras de eventos e agências de turismo. O valor da taxa é convencionado de acordo com o panorama da economia de cada cidade. Em Pelotas o valor é de R$ 1,00 por apartamento ou por pessoa (a forma de cobrança é definida pelo hotel) enquando em cidades como Porto Alegre custa em torno de R$ 3,00. “A gente ainda tem mania de ter vergonha de cobrar e acha que tratar bem o turista é dar as coisas de graça. Mas o que encanta o visitante não é pagar pouco, é pagar bem. Ter uma coisa boa por um preço justo”, defende Cristiane.

O Bureau tem um cartão de benefícios que é entregue no hotel, através do qual os associados oferecem vantagens, como forma de incentivar o visitante a utilizar os serviços dessas empresas. Mas as vantagens, segundo a própria presidente da organização, estão defazadas e devem passar por reformulações em breve: atualmente variam desde uma taça de champagne cortesia a descontos de 10% para a compra de doces.


Reflexos na economia

Que o turismo movimenta diversos setores da economia, é verdade. Mas também é inegável que uma feira do porte da Fenadoce representa uma concorrência direta para o comércio local, em curto prazo. Entre os 450 estandes que estarão na 17ª Fenadoce, quase a metade, 44%, será ocupada por expositores de fora de Pelotas.

O Sindicato do Comércio Varejista (Sindilojas) não calcula a queda de vendas no período, mas a queixa é praticamente consensual, embora alguns segmentos específicos do mercado cheguem até a indicar crescimento.

Na avaliação do presidente do Sindilojas, Renzo Antonioli, tanto a Fenadoce quanto os lojistas em geral são reféns da baixa renda per capta da população pelotense.

E ele parece ter razão. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa e Assessoria (Itepa) calculados com base no índice INPC, a renda média per capita do pelotense é R$ 747,00 mensais. Deste valor menos de 10% é gasto em itens supérfulos – saldo que pode ser transferido, em parte, de compras no Calçadão para gastos na Fenadoce.

Ainda que os organizadores da Feira afirmem que o ingresso a R$ 5,00 é o mínimo para viabilizar o evento, o gastos para visitar a Fenadoce – que incluem ainda transporte, alimentação e compras – acabam pesando no orçamento da maior parte das famílias de Pelotas. “O pelotense em geral não tem dinheiro para fazer as duas coisas: comprar no comércio e visitar a Fenadoce”, analisa Antonioli.

Mas, segundo o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Ricardo Jouglard, essa situação não pode ser analizada a curtíssimo prazo. “Levar o turista para o centro não é vantagem porque lá ele vai encontrar lojas e produtos iguais aos que tem na cidade dele. O ganho da Fenadoce para a economia da cidade a longo prazo é muito maior. As perdas se recuperam com muito ganho nos meses subsequentes”, afirma.

Como alternativa para manter os consumidores atraídos para o centro, mais uma vez será realizada a promoção Promove Pelotas, que este ano irá dar um caminhão de prêmios para o autor da melhor tira em quadrinhos.

domingo, 8 de março de 2009

Recomeços, marcos de passagens e fechamentos de ciclos são sempre importantes na vida de qualquer pessoa. Eles servem de baliza para avaliações do que passou e para o planejamento de metas para o futuro, e sempre estimulam mudanças. E, se dizem que no Brasil o ano só começa depois do Carnaval, os budistas puderam comemorar seu ano-novo em momento bastante oportuno: pelo calendário lunar, seguido pelos tibetanos, a virada do ano ocorreu no último domingo, dia 1º de março.


Um pequeno grupo - formado por praticantes e estudiosos do budismo, e também curiosos por conhecer um pouco da cultura tibetana - partiu de Pelotas ainda na madrugada para ver de perto a celebração do ano-Novo budista no Chagdud Gonpa Khadro Ling, o templo budista situado no município de Três Coroas, a 32 quilômetros de Gramado. O Losar, como é chamada a festa, é uma das principais datas do calendário budista e atrai todos os anos centenas de pessoas no templo que é considerado “um pedacinho do Tibet na Serra Gaúcha”.

A passagem do Ano do Rato da Terra para o Ano do Boi da Terra foi celebrada com a tradicional dança sagrada dos lamas e exclamações de “Losar Tashi Deleg!”. É assim que os tibetanos saúdam os visitantes e desejam “feliz ano-novo”.

Ao som de tambores, flautas, clarinetes e aboés, o ritual é uma forma de expressar as boas aspirações de abundância e prosperidade para o ano que começa. Os movimentos sincronizados são repetidos como mantras entoados pelo corpo.

“A cerimônia é vivenciado de forma diferente por cada um”, disse o guia da excursão, o monge Nelson Padma Querido. “É uma forma de espalhar as bençãos psicológicas que purificam os venenos criados pela nossa própria mente.”

Vestidos com cores vibrantes, os dançarinos mascarados representam as chamadas deidades iradas que têm como objetivo afugentar as energias negativas para evitar que elas sejam levadas de um ano para o outro. “A ira é a expressão da compaixão. Internamente está tudo muito pacífico”, disse a norte-americana Chagdud Khadro, que desde a morte do fundador do Chagdud Gonpa Khadro Ling e seu marido - Chagdud Tulku Rinpoche - assumiu a direção espiritual do templo.

Bem-humorada, ela falou sobre a importância das comemorações para inspirarem fala positiva e ações positivas. “O Tibet bate um recorde mundial. Lá o Ano-novo é celebrado por duas semanas seguidas!”, brincou.

Também presente na manhã festiva, seu enteado Jigme Tromge Rinpoche falou do significado das danças para criar um círculo de proteção e purificação do karma. “Na essência todas as danças são expressão da compaixão e uma forma de invocar seres iluminados para espalharem suas bençãos sobre todos os seres, humanos e não humanos.”

Se a simbologia dos elementos presentes na dança dos lamas parece clara, o ritual é envolto em mistérios profundos cujos significados possivelmente só possam ser desvendados através da meditação e do equilíbrio interior.

De encher os olhos

Além das danças que encantam o olhar, a paisagem da serra completada pelos imensos e bem cuidados jardins que circundam o templo e a leveza das bandeiras de oração hasteadas ao vento fazem da visita ao Khadro Ling um passeio inesquecível. As esculturas, os detalhes dos templos com acabamentos entalhados em madeira por fora e pinturas magníficas por dentro são uma atração à parte.


Para completar, vale a pena também contornar em sentido horário as gigantes rodas de mantras - que nunca param de girar - para acumular méritos, como diz a tradição, para sentir a energia do lugar em movimento sendo enviada com boas intenções a todas as partes ou, nem que seja, apenas para admirar esses símbolos sagrados de rara beleza.

No centro budista as únicas proibições são fumar e fotografar o interior dos templos (para evitar que os flashes danifiquem as pinturas). Em dias calmos, é possível aproveitar a quietude do lugar e o cenário inspirador para meditar.


Dicas para quem pretende conhecer

O local recebe visitantes de terça a sexta-feira das 9h às 11h30min e das 13h30min às 17h. Nos finais de semana abre somente das 9h às 16h30min.

A visitação é gratuita. Aos domingos, às 8h, os professores residentes no Khadro Ling conduzem sessões de práticas de meditação abertas ao público.

Como pela filosofia budista deve-se respeito pela vida de todos os seres, é recomendado aos visitantes levar repelente de insetos.

O local não oferece alimentação e a hospedagem é exclusiva para os participantes de retiros. No site (www.templobudista.org) ou pelo telefone (51) 3546-8200 é possível obter mais informações.


Texto: Bianca Zanella | Foto1: Sandro Seewald (Jornal de Gramado) | Foto2: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Tudo / Capa | Publicado em: Pelotas, Sexta-feira, 6 de março de 2009

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Reportagem sobre IJSLN rende prêmio ao Diário Popular

Contar a história do museu que leva e divulga o nome de um contador de histórias encantou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e rendeu ao Diário Popular e à jornalista Bianca Zanella a Menção Honrosa do prêmio Mário Pedrosa – Museu, Memória e Mídia. A reportagem Onde a história acontece, pubicada no caderno Estilo no dia 2 de novembro do ano passado conta os encantos e a importância da casa que pertenceu ao escritor regionalista João Simões Lopes Neto e hoje abriga o Instituto que leva seu nome e que é uma verdadeira centro de cultura no coração de Pelotas.

A menção honrosa não estava no edital que instituiu o concurso; foi um prêmio a mais estabelecido de comum acordo entre os membros da comissão avaliadora, como uma forma de premiar um trabalho bem qualificado. O Prêmio Mário Pedrosa foi idealizado pelo IPHAN como forma de incentivar a publicação de trabalhos sobre museus e, nessa que foi sua primeira edição, a importância social desses espaços foi o foco, com o tema “Museus como agentes de mudança social e desenvolvimento”.

Foi pensando nessa temática que Bianca trabalhou os aspectos de preservação e vivência da memória e incentivo cultural intenso que caracterizam o Instituto João Simões Lopes Neto. “O Henrique [Pires, presidente do IJSLN] abriu as portas do instituto e incentivou a participação no concurso”, conta a jornalista. E na forma de contar a história e a vida da casa do Capitão pode-se sentir o objetivo maior da competição promovida pelo IPHAN: fazer crescer o interesse pelos museus e por tudo que eles representam para a história cultural e a memória de um povo.

Participaram trabalhos de todo o País, publicados entre 1º de janeiro e 15 de novembro de 2008. O resultado, que deveria ter sido divulgado em 18 de dezembro, só foi publicado ontem, no Diário Oficial da União. Além da menção honrosa, outros três prêmios, previstos no edital, foram concedidos. Museu de todos, da jornalista Maria Olivia Mindêlo, publicada Jornal do Commercio, do Recife, ficou com o primeiro lugar. Na segunda e na terceira colocação foram premiados, respectivamente, A Casa é de Todos, de Jacqueline Batista (O Jornal, Maceió) e Memorial Resgata História da Mulher no Agreste de Alagoas, de Davi Barbosa Neto Salsa (Jornal Tribuna Independente, Arapiraca – AL).

A boa notícia do prêmio veio de surpresa. “Como faltava pouco mais de um mês para minha formatura quando a matéria foi publicada, O IPHAN afirmou que a participação não seria homologa”, explica a jornalista. Mesmo assim, o material foi enviado e a qualidade do texto e do conteúdo chamou a atenção do júri. Para o coordenador de redação do Diário Popular, Pablo Rodrigues, que editou e acompanhou a construção da reportagem, o prêmio confirma o potencial da matéria. “Eu sempre soube que tinha chance de ser premiada. É um baita tema e uma baita matéria”, elogia.

Recebida com festa no instituto, a menção honrosa concedida a Bianca será mais um motivo de celebração na programação que marcará os 144 anos do nascimento do escritor, programada pelo IJSLN para o dia 9 de março, data do aniversário do autor. O presidente do instituto, Henrique Pires, afirma que, entre as atividades que vão de manhã até a noite, uma homenagem à repórter será prestada. “No momento que uma jornalista do interior do Rio Grande do Sul ganha um prêmio desse porte, isso mostra que a atividade cultural realizada no interior pode competir de igual para igual com o resto do País. É muito merecido”.


Texto: Aline Reinhardt | Extraído de: Jornal Diário Popular / Contracapa | Publicado em: Pelotas, Sábado, 28 de fevereiro de 2009


Leia também:
Texto de Francisco Vidal sobre o prêmio

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Como fugir do Carnaval?

Nada de fantasia, samba ou batucada. Acredite ou não, tem gente que quer distância da folia

JustificarDicas para (não) cair na folia

Essa história de que “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu” anda meio ultrapassada. Tem muita gente que se puder vai no sentido contrário ou pega um desvio para não cruzar com um alto-falante gigante tocador de axé music por aí. Gente que não vai ao sambódromo nem por convite expresso do próprio rei Momo ou da Ivete Sangalo e, para o espanto dos mais fanáticos foliões, está bem vivinho, sim senhor.

Eles não usam fantasias, mas têm muito em comum. Você também combina com esse perfil? Então venha fazer parte do bloco antifolia!


1) Pratique o ócio criativo

A psicóloga Lígia Monassa até que fez força para gostar de Carnaval, lá nos idos da mocidade. Pulou, brincou bastante. Mas aí, passada a euforia, resolveu que não precisava gostar de alguma coisa só porque a maioria das pessoas gosta.

Supercaseira, aos 55 anos ela quer mais é sossego para curtir a nova morada, onde vive há nove meses. Para isso, há um motivo especial: na casa nova ela realizou o sonho de montar seu próprio ateliê, refúgio onde se entrega ao hobby preferido: fazer arte. Sempre inventiva, Lígia pretendia aproveitar as férias para se dedicar à pintura. Mas as férias vieram e se foram e ela nem chegou perto dos pincéis. “Quando dá tempo sempre tem uma coisa ou outra que me tira desse foco. Às vezes as filhas, às vezes o neto”, fala com ternura.

Agora, com a chegada do feriado prolongado de Carnaval, ela está mais uma vez determinada a se debruçar sobre as telas. “Eu não espero inspiração, nem conheço muitas técnicas. Gosto de ir testando materiais para ver o efeito que dá”, diz a modesta e talentosa artista que se considera apenas uma pintora amadora.

Assim como Lígia, não é preciso esperar a inspiração chegar para colocar algum antigo projeto pessoal em prática. Ou, talvez, a inspiração esteja aí diante dos olhos: armários precisando de uma boa arrumação, prateleiras de livros e revistas ainda por serem lidos. Da videolocadora, quantos filmes você ainda não assistiu e quantos episódios da última temporada do seu seriado preferido ficaram para trás?

Mas, se ficar em casa não está nos seus planos também, o.k.. O Estilo ainda tem outras opções.


2) Viaje (mas para longe do Pelourinho e da Sapucaí!)

Há uma tendência nova começando a se desenhar no mercado de turismo: cada vez mais pessoas buscam viagens alternativas, fora dos destinos convencionais do período carnavalesco. Os roteiros mais procurados, afirma um agente de viagens, continuam sendo os tradicionais como Salvador, Fortaleza e Rio de Janeiro. Mas, há também roteiros especiais para o perfil de cliente que não pretende passar o feriadão ouvindo samba, frevo ou axé.

Então, vai um tango aí?

A artista plástica Cristina Ceia não pensa duas vezes em aceitar a proposta. Com viagem marcada para Buenos Aires, já faz algum tempo que ela e o marido optaram por trocar o agito dos bailes e da folia de rua por passeios onde, de preferência, nem lembrem do Carnaval - a não ser pelo fato de que é ele quem lhes garante os dias de folga prolongada. Ano passado foram para a praia de Torres e no retrasado a Montevidéu.

“Antigamente eu gostava, mas hoje acho que a festa é menos participativa, perdeu o objetivo. E tem também a questão da segurança. Sempre tem alguém disposto a acabar com a festa”, opina ela, para quem a fase de foliã já é página virada: “Foi bom, mas acabou. Eu gostava de Carnaval, mas hoje ele não me faz falta.”


O sossego, logo ali

O rei Momo tomou posse da chave da cidade para comandar a folia e há quem queira sair pela janela. Para esses Buenos Aires é a principal sugestão das agências de viagens em Pelotas (com saídas também de Rio Grande).

Os pacotes individuais para cinco dias custam em média R$ 700,00. A viagem inclui passeio pelos principais pontos turísticos da capital portenha como a Casa Rosada, o Plaza de Maio, a Catedral e o Bairro da Boca, além de jantar com show na tradicional casa de espetáculos Sr. Tango e noitadas em cassinos.

Outra sugestão é a capital alagoana, Maceió. Um pacote básico com saída de Porto Alegre custa em média R$ 1,6 mil por pessoa (sem contar as despesas adicionais da viagem). Não deixe de ver também as dicas para aproveitar a Serra gaúcha, na reportagem da página 3.


Informe-se

Para saber detalhes sobre os roteiros de viagem, consulte:
MS Turismo - Fone: 3028-4060
Voyage Turismo - Fone: 3225-1833
Cisplatur - Fone: 3225-5944


3) Medite

Osvaldo Andrade sempre gostou de Carnaval. Aliás, ainda gosta. Mas há dez anos resolveu trocar os bailes em clubes e a folia de rua por uma forma diferente de curtir. Trata-se do retiro conhecido como Rebanhão, que este ano chega a sua 15ª edição. Ele gosta tanto que hoje é um dos organizadores.

O evento é uma realização da Renovação Carismática Católica de Pelotas e reúne todos os anos uma média de 200 participantes de todas as idades na casa de retiros Cenáculo. Para atrair tanta gente, a programação é diversificada e inclui desde momentos de oração e oficinas até atividades desportivas e uma festa rave - a Cristoteca. Para crianças pequenas o Rebanhão Kids traz atrações especiais. O retiro começa na manhã de sábado (21) e só termina na tarde de terça-feira de Carnaval (24).

“Como todo jovem, é claro que eu gosto de festa! Só que eu opto por aproveitar o Carnaval seguindo os preceitos cristãos. Não se pode generalizar, dizer que todas as festas que acontecem fora do retiro são ruins. Mas aqui certamente eu corro menos risco de me envolver em alguma briga, não vou ouvir música de baixo calão e principalmente vou encontrar pessoas que estão buscando a mesma coisa que eu”, diz Oswaldo ao defender que a evangelização dos jovens deve acontecer de forma criativa e atrativa.

Fora do Cenáculo, mas não muito longe (a cerca de 30 quilômetros do cruzamento das BRs 392 e 116 em direção a Canguçu) outro grupo estará reunido com uma proposta carnavalesca bem diferenciada no feriado prolongado.

Trata-se do segundo Encontro de Espiritualidade Cósmica no Carnaval que acontece entre os dias 20 e 24 deste mês (de sexta a terça-feira) no Trilha Jardim Espaço Arte. Situado na região do Quilombo, na colônia de Pelotas, o lugar irá reunir buscadores espirituais para troca de experiências através de vivências, palestras, painéis e workshops. Além disso, a beleza do local e o contato com a natureza já fazem o feriadão valer a pena. Devido à proximidade, é possível pernoitar na cidade todos os dias, mas para quem gosta o Trilha Jardim é um ótimo lugar para acampar.

Mesmo em clima de muita tranquilidade, os participantes terão os dias cheios: a programação inclui várias práticas como mantras, biodança e bioterapia. Entre as palestras, ensinamentos sobre a mitologia indu, a espiritualidade indiana, a cultura xamânica, a aplicação do mel para a saúde, a utilização de florais e a herança espiritual inca. Serão oferecidas também oficinas de culinária vegetariana, filtro de sonhos e ecoarte. À noite, as rodas de viola ao pé do fogo crioulo são a atração e oportunidade para admirar o céu estrelado tal como só pode ser visto longe da artificialidade das luzes dos centros urbanos.

A alimentação será preparada pelos próprios participantes, divididos em grupos de trabalho conforme suas famílias terrestres (definidas através do Sincronário da Paz) correspondentes a cada dia.


Pontos de encontro

Quem quiser participar do Rebanhão deve fazer inscrição prévia na Livraria Santuário (rua 7 de Setembro, 145), na Livraria Santo de Casa (General Neto, 888), na Associação Meu Irmão (Doutor Cassiano, 711) ou na Academia Body Company (Gonçalves Chaves, 404). O custo por pessoa varia entre R$ 10,00 e R$ 35,00. Crianças pequenas não pagam. Mais informações pelos telefones 3227-0710 e 8135-7133.

Para participar do Encontro de Espiritualidade Cósmica no Carnaval do Trilha Jardim é preciso confirmar presença até o dia 20 e fazer depósito no valor da estadia correspondente ao número de dias que o participante irá permanecer no evento (R$ 20,00 por dia). As diárias incluem alimentação ovo-lácteo-vegetariana e estrutura de acampamento. Mais informações e detalhes da programação no site www.trilhajardim.com.br.


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Estilo / Páginas Centrais | Publicado em: Pelotas, Domingo, 15 de fevereiro de 2009

domingo, 7 de dezembro de 2008

Uma outra versão da história

Onde tudo acaba em Carnaval, nem os clássicos escapam

Há mais de dois mil anos a mesma história é contada. Ou quase a mesma. Protagonizado por José, Maria e o Menino Jesus o episódio bíblico da fuga do massacre de Herodes ganha ares tropicais na releitura apresentada pela companhia teatral Stravaganza, de Porto Alegre. Para quem não se lembra, a Cia. Stravaganza é a mesma que apresentou em setembro a Comédia dos Erros, no auditório do colégio São José, durante a Mostra Sesc de Teatro - Discutindo Sheakespeare.


A comédia Sacra Folia, que será apresentada neste domingo na praça Coronel Pedro Osório, é uma adaptação tupiniquim do estilo de teatro criado pelos gringos - a chamada Commedia dell'arte. "É uma peça popular e sofisticada ao mesmo tempo", diz a diretora Adriane Mottola, que não poupa elogios à rica poética do texto escrito por Luiz Alberto de Abreu.

Nessa versão da história, a sagrada família recebe a ajuda de dois espertalhões, e por causa disso erra o caminho da fuga e acaba indo parar em Belém... do Pará! "A peça é uma brincadeira mas que tem um sentido profundo. Na verdade, os malandros pensam que se o Menino Jesus vai mesmo trazer 'fartura' então ele tem mais é que vicar aqui no Brasil pra ajudar a nossa gente", fala Adriane, adiantando uma das possíveis interpretações.

Ao melhor estilo do teatro de rua, o espetáculo promete encher os olhos do público com o colorido vibrante das máscaras, figurinos e cenários, além de jogos acrobáticos e alguns improvisos para dar ainda mais graça à folia natalina.

A apresentação faz parte da programação do projeto Cidade Feliz, do Serviço Social do Comércio (Sesc), que continua até o dia 22 de dezembro.


Não perca!
O que: espetáculo teatral Sacra Folia - Um auto brasileiro
Quando: hoje, às 21h
Onde: na praça Coronel Pedro Osório
Sugestão: levar cadeira


Próximas atrações:

A temporada cultural especial do Sesc continua na semana que vem com mais música, dança e teatro. Confira as atrações dos próximos dias:

Quarta-feira (10)
20h30min - Projeto Carinho | Apae
21h30min - Banda Filhos do Sol (Banda da Promotoria)

Quinta-feira (11)
20h30min - Toni Konrath
21h - Marquinho Brasil

Sexta-feira (12)
20h - Palhaço Bolaxa conta as lendas do Natal
21h - Grupo de Choro Reminiscências

Sábado (13)
20h30min - Conjuntos Vocais: Costinha, Canto Livre e Original Samba

Domingo (14)
20h -Palhaço Bolaxa conta a história do Pequeno Príncipe
20h30min - Misto Quente - Circo Girassol


Não esqueça:

O Clube da Maturidade Ativa do Sesc realiza até o Natal uma campanha de solidariedade que irá beneficiar instituições carentes da cidade. Participe doando brinquedos e alimentos não-perecíveis no ponto de coleta instalado na praça Coronel Pedro Osório no horário das apresentações.


Visite o Bom-Velhinho:

De segunda à sábado o Papai Noel do Sesc recebe visitantes na casa do Calçadão (em frente ao chafariz da rua Sete de Setembro), das 16h às 19h, onde na companhia de seus ajudantes oferece atividades recreativas e culturais para crianças de até 12 anos de idade.

Entre as 20h e as 22h (inclusive aos domingos) o Bom-Velhinho muda-se para o endereço da Praça Coronel Pedro Osório.


Texto: Bianca Zanella | Foto: Cláudio Etges / Divulgação | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Estilo / P.12 | Publicado em: Pelotas, Domingo, 07 de dezembro de 2008

domingo, 23 de novembro de 2008

Polêmica na bilheteria II

O que está valendo?

JustificarPara jovens:

* Está assegurado aos estudantes o acesso com 50% de desconto pelas Leis Municipais 3.682/1993 em Pelotas e 4.601/1991 em Rio Grande;

* Embora a lei pelotense exija a apresentação da Carteira de Identidade Estudantil expedida por órgãos estudantis reconhecidos (UNE, UBES, ANPG ou UPES), enquanto estiver vigente a Medida Provisória MP 2.208/2001 - que proíbe a exigência exclusiva do registro em qualquer entidade - a identificação do estudante pode ser feita por qualquer documento que comprove sua condição, inclusive os emitidos pelos estabelecimentos de ensino, associação ou agremiação estudantil a que pertença o aluno.

* Em Porto Alegre, todo jovem de até 15 anos, estudante ou não, tem direito ao benefício da meia-entrada, nos dias estipulados pela lei municipal da capital (9.989/2006), mediante a apresentação do documento de identidade.


Para professores:

* Em Pelotas, a Lei 3.682/1993 estende o benefício da meia-entrada aos professores de estabelecimentos de ensino públicos ou particulares localizados no município.

* Para usufruir do benefício, os professores devem apresentar a carteirinha expedida pelo Sindicato Nacional dos Docentes da Instituição de Ensino Superior (Andes), pelo Sindicato dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS), pelo Sindicato dos Municipários de Pelotas (Simp), pelo Sindicato dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul - Particulares (Simpro) ou pelo Sindicato Nacional dos Servidores em Escolas de 1º e 2º Graus Federais (Sinasefe).


Para idosos:

* Toda pessoa com 60 anos ou mais de idade tem direito à meia-entrada garantido pelo artigo 23 do Estatuto do Idoso (Lei Federal 10.741/2003);

* Para reivindicar o benefício, o idoso precisa apenas apresentar documento de identidade no ato da compra do ingresso e na portaria. Não é necessária comprovação de renda, como exige a Lei Municipal de Pelotas 3.682/1993 (que restringe o benefício a aposentados que recebem até 3 salários mínimos), já que a norma perde a validade frente à Lei Federal.


Onde vale?

As leis da meia-entrada, em geral, valem para acesso a cinemas, teatros, espetáculos musicais, circenses e eventos educativos extracurriculares, bem como esportivos e de entretenimento, como festas e exposições artísticas.


Entidades estudantis

UNE – União Nacional dos Estudantes
UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas
ANPG – Associação Nacional de Pós-Graduandos
Uges - União Gaúcha de Estudantes
Umespel – União Municipal dos Estudantes de Pelotas
Fone: 8434-2097


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Estilo / Páginas Centrais | Publicado em: Pelotas, Domingo, 23 de novembro de 2008

Polêmica na bilheteria I

Instituída nos anos 40, a meia-entrada foi incorporada à cultura de tal modo ao longo das décadas que virou tradição entre os principais consumidores de lazer: com a carteirinha na mão, os estudantes, juntamente com os idosos, representam a maior parcela das platéias dos eventos artísticos, culturais e esportivos no País.

Quando se fala em pagar menos, em princípio todo mundo gosta, mas algumas perguntas são inevitáveis: os preços dos ingressos estão altos porque existe meia-entrada ou a meia-entrada existe porque os ingressos estão pela hora da morte? E se a meia-entrada deixasse de existir, como a CPMF, os preços dos shows, do cinema, do teatro e dos jogos de futebol cairiam imediatamente?

O fato é que com o benefício o ingresso pesa menos no bolso de quem tem direito ao desconto - com o respaldo da legislação federal e também dos estados e municípios - mas pesa mais no orçamento dos promotores de eventos. Para reequilibrar a balança e não deixar de pagar as despesas, o jeito geralmente é repassar o ônus adiante, reajustando a tabela das receitas. E aí...


Quem paga a outra metade?

Longe de ser uma solução definitiva para garantir o acesso à cultura - previsto no artigo 23 da Constituição Federal como competência do Estado - a meia-entrada acaba por dividir os prejuízos entre os artistas, a iniciativa privada – produtores de eventos e exibidores de cinema - e o público pagante - com ou sem desconto. No final, quem paga a conta é o cidadão comum, uma vez que, em geral, o preço dos ingressos sofre aumento proporcional para cobrir o benefício dos estudantes.

Outros apelam para manobras que mascaram o valor real cobrado, como a concessão de descontos promocionais para o público em geral mediante a doação de alimentos não perecíveis, o que é ilegal. "No fundo, não passa de um benefício ilusório", diz o produtor do Grupo Tholl Paulo Martins. "A gente acaba tendo que dobrar o valor do ingresso para não ter prejuízo."

Atualmente, tramitam na esfera federal dois projetos de lei que pretendem regulamentar o benefício dos estudantes, um na Câmara e outro no Senado.

O projeto apresentado pelos senadores Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e Flávio Arns (PT-PR) – PLS 188/2007 - corre na frente. Já obteve parecer favorável em duas comissões – a de Constituição e Justiça e a de Educação, Cultura e Esporte – e será votado nesta terça-feira.

O outro – PLC 1007/2007 -, elaborado pela deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), tramita na Câmara em caráter de urgência, mas ainda está em discussões preliminares e não deve entrar na pauta de votação tão cedo.
O texto original dos dois projetos tem vários pontos em comum. O principal deles é a limitação do benefício aos estudantes do ensino regular (educação básica, profissional, superior e especial – para portadores de necessidades especiais). O projeto da Câmara inclui ainda os alunos dos cursinhos pré-vestibulares.

Ambos os projetos derrubam a Medida Provisória 2.208, aprovada durante o governo Fernando Henrique Cardoso, que pôs fim à exclusividade de emissão das carteirinhas para as entidades reconhecidas pelo Ministério da Educação. Pela nova lei, as Carteiras de Identificação Estudantil (CIE) válidas seriam somente aquelas expedidas pela União Nacional dos Estudantes (UNE), União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) e outros órgãos devidamente autorizados, deixando de valer, portanto, aquelas confeccionadas pela própria escola. “Regularizar isso é o mais importante”, defende o senador Eduardo Azeredo. “Não podemos voltar ao sistema cartorial do passado, mas também não podemos manter esta anarquia de hoje, onde a pessoa faz qualquer cursinho e tem carteirinha de estudante, e onde as carteirinhas são vendidas no meio da rua”, afirma.

Para coibir falsificações e fraudes, o projeto da deputada Manuela ainda prevê a criação de um Selo Nacional de Segurança.


Restrições

Azeredo propõe uma cota máxima de 40% dos ingressos para a meia-entrada em espetáculos e eventos esportivos. É exatamente esse o principal ponto de discussões. Os produtores lembram que a lei dos transportes coletivos, por exemplo, limita o número de acentos reservados para idosos. Mas, para o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) o benefício não deve ser restringido por cotas. Com esse argumento ele teve o pedido de vistas do projeto concedido pelo presidente da comissão de Educação, o senador Cristovam Buarque, e conseguiu assim impedir que o projeto fosse votado já na terça-feira passada.

A deputada Manuela também é contra limitar a venda de ingressos com desconto, apesar de ser a autora – enquanto era vereadora - do projeto que resultou na lei vigente em Porto Alegre desde 2006, que prevê desconto de apenas 10% - ao invés dos tradicionais 50% - nos espetáculos realizados de sexta a domingo e nos cinemas aos finais de semana, entre outras restrições. “A lei de Porto Alegre sofreu modificações. Ela não representa tudo aquilo com o que eu concordo, mas é o que nós conseguimos aprovar. Aqui vai ser a mesma coisa. Não sou intolerante e espero que os demais parlamentares também não sejam e estejam dispostos a dialogar com a sociedade”, justificou.

A proposta de emenda ao projeto do senador Azeredo, que previa restrição do desconto ao finais de semana não passou pelas comissões. Mas entre as emendas apresentadas que foram aceitas pela relatora Marisa Serrano (PSDB-MS) e poderão ser aprovadas com a lei está a proposta da senadora Ideli Salvatti (PT-SC) que determina a venda de ingressos com desconto somente até 72 horas antes do evento.


Fique atento

Você pode acompanhar a tramitação dessas e outras matérias em discussão no Legislativo através dos sites www.camara.gov.br e www.senado.gov.br.


Responsabilidade social ou sobrecarga na iniciativa privada?

Os produtores fazem as contas e reclamam: no cinema e nos shows mais populares em Pelotas, o público pagante com direito à meia-entrada chega a ocupar em média 70% da platéia. "Aqui, além dos estudantes e dos aposentados, a gente ainda tem que subsidiar os professores. O que justifica uma única categoria profissional ter direito a esse benefício? Sem contar que não recebemos do Estado nenhum tipo de incentivo", indigna-se o empresário Jarbas Mello. “No show do Nenhum de Nós eu subsidiei simplesmente R$ 14 mil em descontos e isso não é pouca grana.”

Para os defensores da lei, isso faz parte da responsabilidade social inerente a toda atividade produtiva. Mas para os produtores o Poder Público simplesmente transfere o ônus que o Estado é incapaz de assumir.

Tanto o projeto que tramita na Câmara quanto o que será votado no Senado prevêem possibilidade de ressarcimento aos produtores independentes através do Programa Nacional de Apoio à Cultura, com verbas do Fundo Nacional de Cultura ou patrocínios, dentro dos critérios da Lei Rouanet. Os empresários, entretanto, acreditam que é um recurso distante da realidade da maioria das produções. "Dificilmente se consegue chegar a esses recursos porque eles dependem de um processo muito burocrático", afirma Mello. Para a deputada Manuela, esta "é uma possibilidade em que cabe nova regulamentação".

Ao ser questionado sobre a necessidade de mecanismos mais acessíveis de subsídio para a iniciativa privada, o senador Azeredo desconversa. "Isso já é outra história... É algo que tem que ser discutido em outro projeto que trate de incentivo à cultura."


Jurisprudência

Nos mesmos moldes dos projetos de lei federais, a Lei Estadual 9.869 que regulamenta a meia-entrada no Rio Grande do Sul, aprovada em 1993, está suspensa desde 2000 por uma liminar. Na interpretação do Tribunal de Justiça do Estado, responsável pelo julgamento em primeira instância, a lei é considerada inconstitucional por ter caráter discriminatório entre estudantes e não estudantes, além de impor intervenção abusiva do Estado no direito de propriedade privada e violar o princípio da livre iniciativa.

Na opinião dos defensores do direito à meia-entrada para estudantes, o benefício deve ser entendido como uma complementação da formação escolar. Outros entendem que a lei acaba por privar do acesso à cultura quem já não tem acesso à educação. Para a deputada Manuela, não há contradição em restringir o desconto a quem é estudante. “O Bolsa Família também é vinculado à educação. Os jovens precisam estar na escola para receber. Se ele não está no lugar onde deveria estar, é preciso pensar em mecanismos que proporcionem essa condição básica”, argumenta.

Segundo ela, a Câmara está mobilizada para criar uma comissão especial da Juventude que irá discutir a criação de um Estatuto que contemple os jovens acima de 18 anos, que não são respaldados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Nesse novo Estatuto, seria incluída também uma norma definitiva para a meia-entrada. “Nós recém conseguimos aprovar uma emenda que inclui o termo 'juventude' na Constituição Federal. Ainda temos muito o que avançar."


Eles querem o direito inteiro

Contra as restrições e contra a exigência de carteirinhas exclusivas, o presidente da União Municipal dos Estudantes de Pelotas (Umespel) - filiada à União Gaúcha de Estudantes (Uges), Alex Cunha, considera os projetos de lei federais um atraso em relação à legislação vigente no município. Segundo ele, a entidade tem atualmente 22 mil sócios e confecciona carteirinhas a R$ 5,00 na sede e a R$ 2,50 para quem solicita o documento nas escolas (para representantes que fazem visitas regularmente às instituições de ensino), enquanto entidades como a UNE e a Ubes cobram entre R$ 15 e R$ 20 pelo documento. "É muito caro. A maioria dos alunos da periferia não tem condições de adquirir."

Além disso, o projeto prevê a validade do documento por um ano, enquanto a lei do município exige a revalidação a cada seis meses. "Esse controle semestral é uma forma de avaliar a evasão escolar e fazer com que quem deixou de estudar pare de receber o benefício da meia-entrada", diz ele.

Alex Cunha é a favor de cotas por "entender o lado do produtor cultural", tanto que se antecipa à legislação e ele mesmo negocia com os organizadores de eventos um percentual de ingressos disponíveis para os estudantes, como fez com o Parque Tupy, que abre inclusive em dias específicos especialmente para receber os grupos escolares. "A gente sabe que se cumprir a lei rigorosamente os produtores quebram", afirma Cunha, que também recebe lotes de ingressos dos produtores para vender separadamente, direto aos associados da Umespel.

Jardel Oliveira, coordenador do Procon em Pelotas, afirma que as denúncias de descumprimento da lei da meia-entrada diminuíram consideravelmente nos últimos meses, depois que o órgão realizou uma campanha de conscientização. Segundo ele, o trabalho contemplou principalmente casas noturnas e organizadores de festas, que de acordo com os produtores de shows são geralmente os menos visados pela fiscalização.

Oliveira diz acreditar que as mudanças só vão burocratizar mais o benefício e dificultar a fiscalização de uma lei que, segundo ele, já não é cumprida muitas vezes. "Se estipularem dias para oferecer o desconto o estudante vai ter que andar com uma tabelinha no bolso pra poder comprar ingresso", afirma. Sobre a venda separada de ingressos para estudantes ele diz: "Não pode, assim não tem como fiscalizar. O estudante tem que comprar ingresso no mesmo local."

Junto com o Procon, o Ministério Público, a Procuradoria Geral do Município e a Secretaria de Serviços Urbanos - que emite alvarás de funcionamento - são responsáveis por fiscalizar o cumprimento da norma. "Os produtores às vezes tentam inverter a interpretação da lei, mas a orientação do Procon é sempre defender a parte mais fraca, que é o consumidor."


Tire suas dúvidas

O Procon em Pelotas fica na rua Professor Araújo, 1.653 e atende de segunda à sexta-feira das 12h30min às 18h30min. Telefone 3284-4477.


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Estilo / Páginas Centrais | Publicado em: Pelotas, Domingo, 23 de novembro de 2008

domingo, 2 de novembro de 2008

Onde a história acontece

Por trás da fachada, um universo a ser (re)descoberto. A casa da rua Dom Pedro, 810, é construída de histórias; 436 metros quadrados de histórias. A porta de entrada, de vidro transparente, permite que se olhe além dela para um horizonte literário. Lá dentro, o sol que entra sem cerimônia pelas grandes janelas ilumina as escaiolas que sobem pelas paredes como heras, e recria suas formas a cada hora do dia.

Não se esqueça de dizer: a porta é de vaivém, e nunca pára. Está sempre se abrindo, para quem mais, além do sol, quiser entrar. E são muitos, sempre bem-vindos. Por ali circulam crianças, moços e velhos, quase que diariamente. Eles percorrem cômodos da residência que durante dez anos foi a moradia do escritor João Simões Lopes Neto e percorrem também as páginas dos livros com uma curiosidade alegre e sagrada. Na sala, como se saísse de uma das paredes, é o próprio Capitão quem saúda os visitantes, com um olhar jovial de quem diz: “Olá! Amigo! Apeie-se; descanse um pouco! Venha tomar um amargo!”

Pela leitura, quem chega vai à busca da redescoberta da cultura gaúcha e dos tesouros perdidos nas entrelinhas escritas por uma caligrafia rebuscada. O Negrinho do Pastoreio os acompanha na procura por este caminho literário que continua a ser percorrido à luz dos tocos de vela acesos pelas Lendas do Sul e pelos Contos Gauchescos. Nem sempre foi assim.


A reconstrução

Até o final da década de 1990 o local estava caindo aos pedaços. O imóvel, abandonado, por pouco não teve sua destruição decretada. Se isso tivesse ocorrido, os escombros do casario teriam enterrado uma história que, por sorte, alguém se interessou em investigar. Esse alguém era o pesquisador Carlos Sicca Diniz, que através de registros nos cartórios de Pelotas comprovou as suspeitas de que a casa havia pertencido ao mais célebre dos escritores pelotenses. No período em que viveu ali, de 1897 a 1907, João Simões escreveu a lenda O Negrinho Pastoreio.

A descoberta deflagrou uma batalha judicial que mobilizou a comunidade, desde a imprensa até os historiadores e admiradores da literatura simoniana. Sete anos mais tarde a aprovação de um projeto de lei do então deputado Bernardo de Souza transformou a casa em Patrimônio Cultural do Estado. A demolição não aconteceria, mas nada impedia que o prédio ruísse irremediavelmente - no final de um processo de degradação longo, solitário - apenas com a ajuda do tempo e da umidade.

Foi então que um grupo de pessoas disposto a devolver a casa ao seu antigo e mais notável dono apareceu. Esse grupo fundou o Instituto João Simões Lopes Neto, e através dessa instituição civil conseguiu captar recursos, restaurar o prédio e, principalmente, devolver a vida ao lugar.

"Só por ser antiga, a casa já merecia ser recuperada. Mais ainda por Simões ter vivido aqui. A sua obra é a substância desse lugar", diz o escritor Vitor Ramil, autor de Satolep (Cosac Naify, 2008), que confessa uma relação afetiva com "o homem" João. Apesar de não serem contemporâneos, a amizade entre os dois se revela no estilo da prosa e na forma como Vitor é capaz de dialogar com o conterrâneo - autor atemporal.

Ramil defende a tese de que foi a decadência econômica do município que ajudou a conservação do patrimônio histórico de Pelotas, ou pelo menos impediu que a degradação fosse maior. A falta de dinheiro não retardou a ação do tempo, mas amenizou a ação do homem, ainda mais nociva. "É paradoxal isso, mas se a cidade tivesse mais recursos para a construção civil, teria destruído muito mais prédios. Porque a mentalidade das pessoas é de construir coisas novas. As pessoas não conseguem enxergar a beleza do antigo. De certa forma, a gente continua trocando ouro por espelinho", reflete, enquanto admira as escaiolas nas paredes, que antes escondidas nas sombras do prédio em ruínas, com o restauro voltaram a ser vistas.


A reabitação

Com quase dez anos de atividades constantes, dentro e fora da Casa, o Instituto é hoje um espaço concreto habitado por significados abstratos, como as escaiolas - metafóricas e enigmáticas - descritas por Vitor Ramil. Assim, capaz de atrair ações que convergem até ela e irradiar reflexos da mobilização cultural que ocorre no seu interior, não por acaso é reconhecido como um marco sólido da cultura do Rio Grande do Sul do passado, no presente e para o futuro.

Atualmente são mantidos diversos projetos permanentes, (veja no quadro) entre eles o Núcleo de Estudos Simoneanos. O grupo, que começou antes mesmo da criação do Instituto, se reúne semanalmente e é o verdadeiro "cérebro" da instituição, pois mantém a obra de Simões permanentemente lida e discutida, agora num local que não poderia ser mais inspirador.

Além dos simonianos, circulam pelo lugar mais de 500 pessoas todos os meses – uma movimentação que mantém a casa sempre ventilada.


O novo Blau

Mais de nove décadas depois da morte de Simões, sua obra talvez nunca tenha estado tão viva. A casa tem o seu espírito empreendedor, e a alma do velho Blau refletida nas vidraças. É o novo jeito de contar histórias.

A “memória” do vaqueano está se modernizando. Até o final deste ano o Instituto deve dar início à execução do projeto de digitalização do acervo, que só depende da liberação dos recursos (R$ 40 mil) aprovados na Consulta Popular de 2006.

Mais que um ambiente de preservação de um valioso acervo de obras e peças - muitas delas raras -, a Casa do Capitão se tornou um lugar de reflexão e releituras inesgotáveis para o legado simoniano. Mais ainda: tornou-se um ponto de referência por hospedar tantas outras atividades ligadas às artes, à história, à literatura – de oficinas de teatro a reuniões do grupo dos representantes dos museus de Pelotas - de forma ampla em uma cidade ainda órfã de uma casa própria para a cultura.

“Nos interessa que a história seja preservada como um todo. É importante que o Museu da Baronesa esteja em boas condições, por exemplo, porque quando o visitante vai lá ele pode ter uma noção de como era a sociedade pelotense da época de Simões”, contextualiza o presidente do Instituto, Henrique Pires.

“Abrir as portas para a comunidade é o que justifica a existência de um espaço como esse. Uma casa que foi reformada e é mantida com recursos de renúncia fiscal tem a obrigação de estar a serviço do público”, afirma ainda, ao admitir que teme que a polêmica envolvendo desvio de recursos da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS) possa comprometer a programação do ano que vem. “Por enquanto a análise dos projetos está suspensa, mas nós vamos atrás de parcerias”, garante.


Algumas atividades
- Prêmio Trezentas Onças - reconhecimento simbólico concedido anualmente às personalidades que se destacam no trabalho pela preservação da memória e divulgação da obra de Simões.

- Simões Lopes vai à Escola - projeto de aproximação do escritor com os novos leitores através de atividades que se realizam nas escolas e no Instituto. Desde 2007, já contemplou mais de 40 colégios e cerca de 3 mil alunos das redes públicas e particular de ensino de Pelotas e região.

- Blau: Centro de Estudos Cênicos - oficina permanente de teatro onde a obra simoniana é a matéria-prima da didática de formação do ator.

- Teatro Mostra Simões - projeto que incentiva a formação de grupos de teatro nas escolas por meio de oficinas preparatórias. Os grupos recebem suporte técnico para elaborar esquetes inspiradas na obra de Simões e depois apresentam as montagens em outras escolas. Este ano, 6 colégios participam diretamente e outros 14 irão receber as apresentações itinerantes até dezembro.

- Seminários - o IJSLN faz parte da comissão organizadora da Feira do Livro e anualmente promove seminários temáticos. Este ano, pela primeira vez, contará também com um estande próprio no evento.

- Prêmio JSLN de Artes Visuais - implementado este ano, o concurso incentiva a produção contemporânea de artistas gaúchos.

- Palestras e oficinas - inúmeras oficinas voltadas para o aprendizado de diversas linguagens artísticas são promovidas pelo Instituto, quase sempre com participação gratuita, ou a preços simbólicos. Além disso, palestras, debates e seções de exibição de filmes são freqüentemente realizados no auditório da Casa. No próximo domingo, Vitor Ramil inaugura a série Diálogos na Casa de Simões, quando irá discutir com leitores as interpretações de seu livro Satolep.


Novos leitores

Na escola, os alunos aprendem que "João Simões Lopes Neto foi o mais importante escritor regionalista do Rio Grande do Sul". No Instituto, onde as crianças se sentem em casa, o Simões, ou simplesmente João, assume um tom menos solene e uma importância real não para o mundo, mas para cada um dos novos leitores que são conquistados pelo carisma e pela prosa cativante do escritor.

Alana, de nove anos, acha que ele foi importante porque seus livros registraram as histórias dos gaúchos e, traduzidos, fizeram com que o Estado ficasse conhecido em todo o mundo. Ela, como os colegas, não sabe ler japonês. A tradução, para eles, nem é tão importante assim, porque apesar de viverem no Rio Grande do Sul, eles aprenderam e reconheceram suas próprias origens pelas histórias de Simões, contadas em português mesmo, mas um português carregado de sotaque.

Durante a leitura, orientada pela professora, os alunos formularam um glossário. "Charlador" foi uma das primeiras palavras cujo significado precisaram pesquisar. "Charlador é uma pessoa que fala muito, que conta histórias, como o Blau Nunes", explica a aluna Eduarda, mostrando que tem a lição na ponta da língua. "Ele é um tagarela", completa Arthur, arriscando um sinônimo mais próximo do seu vocabulário.

Envolvidos pela atmosfera do passeio literário, os alunos da quarta série do Colégio São Francisco de Assis soltam a imaginação. "Eu acho que o Simões era alto, magro e bigodudo", diz alguém. "Era até bem charmoso... E ele fumava! Naquela época fumar era considerado elegante! Mas hoje é bem diferente...", analisa outro aluno.
"Mesmo ele tendo a aparência de um senhor muito velho, eu acho que ele tinha mesmo uma alma de criança. Ele é muito simpático!", diz Bruna, que no teatrinho montado na escola fez o papel de protagonista do conto O mate do João Cardoso.

"As pessoas acham que museu é uma coisa chata, parada, mas esse aqui não é. A gente não deve destruir nada disso porque se a gente estragar não tem como ele escrever de novo! E eu acho que lá do céu o Simões deve estar feliz porque a gente vem visitar a casa dele e quer saber mais das histórias que ele contava", resume a colega Eduarda.


Casa velha, vida nova

Arejadas pelo folhear dos jovens as páginas amareladas dos livros são tratadas como verdadeiras preciosidades. As velhas histórias são novidade para as crianças e outros leitores que como elas dão os primeiros passos nas andanças literárias feitas há muito tempo pelo velho Blau.

A Casa do Capitão é ponto de partida para esses caminhos. É a descoberta, de que entre Simões - escritor, empreendedor - e João - o homem -, ficou estendida uma longa estrada semeada de recordações – casos, dizia –, que de vez em quando alguém reconta, como quem estende ao sol, para arejar, roupas guardadas ao fundo de uma arca...


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Estilo / Capa e páginas centrais | Publicado em: Pelotas, Domingo, 2 de novembro de 2008

domingo, 19 de outubro de 2008

Nos bastidores dos Contos Gauchescos

Claquete... "Ação!" Agora só quem caminha no set de gravações é o jovem ator Leonardo Machado, mas quem entra em cena e fala é Blau Nunes: "Então, Picumã. O que é que tu fazes com o dinheiro que ganhas vendendo essas prendas?" O texto é pontuado por tragadas de fumo.

Juca Picumã, sentado ao lado, trança arreios e responde, com a voz rouca de Canabarro, o ator: "Mando tudo pra Rosa... Tudo! E ainda é pouco!"

"Rosa é minha filha! Linda como os amores...", responde, satisfazendo a curiosidade do gurisote interlocutor e de todos os que assistiam à cena. "Mas não é pra o bico de qualquer lombo-sujo, como tu..." adverte, antes de o diálogo esvair-se...

"Corta!", interrompe o diretor Henrique de Freitas Lima em voz de comando, dando início à coreografia sincronizada da equipe de produção. Todos sabem exatamente o que fazer: devem desmontar os equipamentos e remontá-los em nova posição para a próxima tomada. O elenco descansa na sombra. Roberto Birindelli, que entrará na cena seguinte, revisa o texto no roteiro amassado que guarda dentro da bota que complementa o seu figurino, uma farda azul e um lenço vermelho.

Henrique, o diretor, olha para o céu otimista. O trabalho segue no ritmo planejado, apesar das chuvas que atrapalharam a primeira tarde de gravações. Já se foram onze dias desde que o set foi instalado naquela locação. Seu assistente de direção teve que ser substituído porque machucou o pé durante as gravações, mas com sorte a equipe não terá mais nenhum imprevisto. É véspera do fim das filmagens e por isso ele observa apreensivo a direção do vento e espera que o tempo continue assim, firme, para que não atrapalhe as gravações das últimas cenas na manhã seguinte.

Estamos na estância do Inhatium, interior do município de São Gabriel, a cerca de 300km de Pelotas, onde os personagens criados por Simões Lopes Neto há quase cem anos ganham nova vida e transitam pela cochilha coberta de mata nativa. Paisagem cada vez mais rara. O cenário das aventuras do jovem recruta Blau Nunes prestes a ganhar as telas do cinema, no passado, já foi locação de episódios reais da epopéia farrapa.

O local foi paradouro para o imperador Dom Pedro II e sua comitiva na viagem que pôs fim ao cerco de Uruguaiana, durante a Guerra do Paraguai, pelos idos de 1865. Mas isso é assunto para outro causo, tema de outros contos como O Chasque do Imperador, ou O Anjo da Vitória do mesmo Simões, contador de histórias que os leitores não cansam de ler, e que artistas não cansam de recontar de diferentes formas.


Nova "tradução" carrega a essência da narrativa para as telas

Essa história, ou pelo menos essa parte dela, fala de uma certa moça que perdeu a trança no vértice de um triângulo amoroso, por conta da honra e da rivalidade dos homens. E conta ainda de uma "parada que custou vida, mas foi jogada..." por causa de um taura que apostou a mulher num tiro de taba. Jogo do Osso e Os Cabelos da China são os primeiros dos seis Contos Gauchescos que irão passar nas telas e telonas.

Além destes, Trezentas Onças, Contrabandista, No Manantial e Negro Bonifácio serão os outros episódios da série que terá no primeiro, do total de sete capítulos, o documentário Entre o Real e o Imaginado, de Pedro Zimmermann, que relembra a trajetória de Simões Lopes Neto.

A série, produzida pela cinematográfica Pampeana (a mesma que produziu o filme Concerto Campestre, em 2004), deve ir ao ar entre maio e junho do ano que vem pela TVE Piratini em todo o Estado, aos domingos, em horário nobre, e poderá entrar também na grade de programação da TV Brasil, nova rede pública nacional. A confirmação, no entanto, ainda depende de negociações.

A captação de imagens é feita no HD em vídeo de alta definição, com som direto e finalização digital. "Estamos trabalhando com uma banda internacional", diz Freitas Lima, que já pensa nos suportes necessários para colocar em prática os planos de exportar a série. "Quem sabe não fazemos uma versão em espanhol?"

Os curtas de 25 minutos terão também uma versão para o cinema, que deve estrear no festival de Gramado do ano que vem. Uma tropeada será o fio condutor da narrativa do longa metragem. Os incidentes dessa viagem vão desencadear as histórias das lembranças do personagem-narrador Blau Nunes em várias fases da vida, da juventude à maturidade.

"Os contos tem um grande potencial dramático, mas tivemos que adaptar. No texto original têm muitas frases que 'dizem tudo', mas cinema não dá pra fazer assim, simplesmente contando as coisas. No cinema a gente tem que mostrar, construir as cenas", diz o diretor, que assina também o roteiro. Por isso, ele explica, na adaptação a narrativa em off (quando um trecho da história é "contada" para "explicar" o que acontece no filme) será usada com moderação. "A breve narrativa que usamos é mais uma homenagem ao estilo de contar histórias da literatura de Simões que um recurso de encadeamento do roteiro."


Sotaque original

Os atores de Contos Gauchescos tiveram oficinas preparatórias para os papéis, mas de uma eles foram dispensados: não precisaram "treinar" para falar com sotaque dos pampas, já que o elenco é formado exclusivamente por gaúchos.

Leonardo Machado, Roberto Birindelli, JN Canabarro, Evandro Soudatelli e Renata de Lélis, são alguns dos nomes que estão no episódio Os Cabelos da China. O ator Marcos Breda foi convidado para um papel, mas não pôde participar das gravações por incompatibilidade da agenda. Não está descartada, entretanto a sua inclusão no elenco de um dos próximos curtas, que já tem o nome da atriz Daniela Escobar confirmado. São cogitadas também as participações de Júlia Lemmertz, Sílvia Pfeifer, Ittala Nandi, Paulo José e Sheron Menezes. "Alguns já são bem conhecidos, os outros não são tão famosos, mas têm carreiras ascendentes. Não precisamos trazer gente de fora pra fazer esses papéis. Temos atores muito bons que são daqui", elogia o diretor em busca de novas revelações das artes cênicas.

O episódio Jogo do Osso tem a participação especial dos músicos Renato Borghetti e Sérgio Rojas.

"É muito bom sair, porque isso te dá experiência e visibilidade, mas também é muito bom voltar. Sair me ajudou a reforçar a minha identidade, a cultura do meu lugar e me deu um referencial para o meu trabalho. Pode parecer utopia, mas eu quero ficar aqui", reflete o ator porto-alegrense Leonardo Machado, que tem no currículo os folhetins globais Malhação, O Clone e Senhora do Destino, além de várias produções cinematográficas gaúchas, como 3 Efes, do diretor Carlos Gerbase. Integrante da Companhia Rústica de Teatro, de Porto Alegre, ele esteve em Pelotas recetemente, onde encenou no palco do Sete de Abril as peças A Megera Domada e Sonho de uma noite de verão, ambas durante a Mostra de Teatro do Sesc.

"Aqui no sul a gente faz TV como quem faz cinema, com um cuidado a mais, e isso faz toda a diferença. Lá para cima são 'superproduções', mas tudo é feito em escala industrial, como se fosse uma fábrica de salsichas", compara o ator, que se diz fascinado pelo personagem Blau Nunes. "Eu li Simões pela primeira vez na escola, mas não tinha consciência de que ele era um escritor tão 'moderno'. Agora eu me dou conta do 'formigamento mental' que ele tinha", diz ele, que aos 32 anos de idade vive no cinema o Blau na fase jovem, com vinte e poucos anos. "O personagem tem toda a valentia, tem o lado heróico, mas nesse episódio ele a recém está chegando na guerra e tá meio assustado ainda."

Mais experiente em cena, o ator Roberto Pirindelli, de 45 anos, interpreta novamente um farroupilha. Com vários filmes - longas e curtas-metragens - e especiais para TV situados durante o período da revolução gaúcha, ele volta a dar vida ao arquetípico homem dos pampas. "A gente corre o risco de ser estereotipado. Os personagens são sempre os mesmos. As histórias retratam sempre o inverno, a guerra. O gaúcho veste sempre o mesmo pala. Mas eu me pergunto: onde é que está o momento de fraqueza desse homem que só pensa em vingança?", dispara, sobre o personagem que perdeu a mulher para outro homem, das tropas inimigas. A crítica, segundo ele, não é direcionada apenas à literatura de Simões, mas a toda a cultura do "gaúcho médio do interior".

"É só o herói que aparece. A gente nunca pega um personagem humano, mesmo. Só agora é que a arte começa a se libertar desse passado", avalia ele, que após ter concluído sua participação em Os Cabelos da China e nas novelas Duas Caras (Globo) e Chamas da Vida (Record) participa das gravações de um longa na Argentina e retorna ao Brasil para o início das filmagens de Vendeta, a nova novela da Record que conta a história da máfia no Brasil.


A parceria com o Instituto

Literatura e cinema andam de mãos dadas nesse projeto que pretende divulgar a obra simoniana por meio da linguagem audiovisual. O Instituto João Simões Lopes Neto (IJSLN), referência na preservação da memória do escritor pelotense, é parceiro da cinematográfica Pampeana na produção.

O Instituto possui licença de exibição dos vídeos (o documentário Entre o Real e o Imaginado já é passado nos eventos realizados pelo IJSLN) e terá os direitos exclusivos sobre a venda dos DVDs e CDs com a trilha sonora da série e do filme.

O IJSLN ainda mantém outras atividades, como a oficina de roteiro ministrada pelo também diretor e co-roteirista dos Contos Pedro Zimmermann.

No sábado passado, quando um grupo ligado ao Instituto esteve o set de filmagens de Os Cabelos da China, o cineasta Henrique de Freitas Lima e o presidente do IJSLN Henrique Pires manifestaram mais uma vez o interesse na parceria.

A visita às gravações do filme durou um dia, e teve a participação de convidados do Instituto, da produtora cultural Beatriz Araújo, de participantes da oficina de roteiro e alunos dos cursos de Cinema, Teatro, Filosofia e História da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

O artista e Mário Mattos, fundador do Núcleo de Estudos Simonianos, estava curioso para saber se o roteiro teria encaixado "a cena do amante da china fungindo em um cavalo maneado". "Esse é o clímax da história", disse, entusiasmado. A boa surpresa foi poder assistir justamente a gravação dessa cena de batalha com direito à cavalo maneado, briga com lanças, tiros e efeitos especiais.


Locações

A gravação do documentário Entre o Real e o Imaginado, realizada em Pelotas, teve o patrocínio da Ceee através da Lei de Incentivo à Cultura do Rio Grande do Sul (LIC/RS) e do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) pela Lei Nacional de Incentivo à Cultura - a Lei Rouanet -, além do apoio de logística da empresa Planalto.

Esta segunda etapa de gravação recém concluída, que incluiu os contos Jogo do Osso e Os Cabelos da China, teve o patrocínio da Aracruz Celulose e da Randon através da Lei Rouanet. A Planalto mantém o apoio logístico ao projeto, que conta ainda com a parceria da arrozeira Urbano e do frigorífico Marfrig, ambas empresas de São Gabriel.

Outros dois episódios serão gravados em terras gabrielenses, já que o município faz parte da base florestal da Aracruz. Para a tropeada que servirá de encadeamento para o longa-metragem as locações também já foram escolhidas: as gravações serão no município de Aceguá. "Descobrimos que lá tem um criador de 'bois de época'", brincou o diretor, referindo-se aos rebanhos de gado crioulo existentes naquela região da fronteira.

Para os episódios finais, Piratini e Livramento disputam qual deles irá sediar as locações. Belos cenários, ambas as cidades tem. O que vai pesar na decisão de qual será o rumo que elenco e equipe de produção irão tomar será, sem dúvida, a disposição dos patrocinadores.


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Estilo / Capa | Publicado em: Pelotas, Domingo, 19 de oububro de 2008