Mostrando postagens com marcador Cotidiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cotidiano. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Helicópteros no Parque Dom Antônio Zattera

Esta noite, quando eu voltava a pé pra casa, passando pelo Parque Dom Antônio Zattera, encontrei algo que fez germinar na minha cabeça memórias da infância. Lembram aquelas sementinhas com uma “asa”, ou “hélice”, que quando se joga para cima cai rodopiando?

Nunca fui boa em botânica, não sei o que brota dali. Mas eu as chamava de “sementes de helicóptero”. Meu irmão dizia "helipcópteros", dificultando com mais uma conssoante uma palavra já complexa para o vocabulário de uma criança quase quatro anos mais nova que eu.

A calçada era um heliporto repleto, com quantos helicópteros cada um pudesse carregar no bolso formado pela camiseta dobrada na barriga, ou conseguisse juntar no tempo da pressa da minha mãe. Gostava de juntar no chão da praça da Santa Casa sempre que acompanhava ela ao centro, para depois brincar no pátio de casa.

Aí ficava tonta de tanto girar em volta, tentando acompanhar a trajetória com os olhos e segurá-las no ar antes do pouso, até que elas se quebrassem de tal forma que a aerodinâmica fosse comprometida.

Será que alguém ainda brinca disso?

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Crônica das palavras prostituídas

Confesso: sexo verbal sempre esteve entre as minhas preliminares favoritas. E mais: sempre tive as palavras mais como amantes que como amigas. Palavras são traiçoeiras, mas confio mais no que está escrito que em quem escreve, no que está dito do que em quem diz.

Apesar disso, se não merece a cumplicidade e a fidelidade de uma relação de amor ou amizade, acredito que cada palavra mereça, ao menos, ser cobiçada, conquistada, desejada como amante. Mas, prostituída?!

Vejo palavras jogadas sem qualquer tesão sobre páginas brancas em monitores encardidos, cor de lençol de motel barato. Amontoam-se várias ali, sem qualquer afinidade, faz-se uma orgia e tem-se um release. Depois, são lidas sem paixão, tão banalizadas quanto o sexo nos dias de hoje, vazias, usadas. São exibidas ao leitor como filme pornô de quinta em comercial de canal pay-per-veiw. Basta ler um trecho para entender o vazio contexto geral. E se for release político, então, vira pornô chanchada.

...

A maior parte do que leio durante o dia é droga. Se a realidade é feia, ou não faz sentido algum, quem escreve tais relatos também é desprovido de talentos. Por isso quando chego em casa para o abraço dos cobertores prefiro ler ficção, ou documentários de autores bem escolhidos. Busco a poesia para encontrar no sono um sonho bom. Acordo com sede de mais histórias bem contadas.

...

Em certos dias queria ser Carpinejar, a voz contemporânea do amor. Melhor ser escritor que jornalista, ao menos os escritores têm licença poética. Queria falar o que a maioria cala – o que eu calo – mas, para isso, precisaria sofrer como todos sofrem. Escrever pode ser perigoso...

...

Noite dessas a leitura repetida quase sempre antes de dormir foi suspensa pela sensação gelada nas pontas dos dedos. A sensação de não sentir.

Até que uma brisa de inspiração que entra por baixo dos cobertores me fez sair da cama em busca de papel e caneta para não correr o risco de esquecer as palavras ao amanhecer. Perdi o papel onde rascunhei esta crônica. Tento aqui recordar o que escrevi, em garranchos sem seguir as linhas sonolentas.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Rumo ao 14° endereço

Três tentativas mal miradas de desligar a TV (os singles estavam provocando interferência nos pensamentos) e aqui vamos nós outra vez. Se bem me lembro, o último post antes desse falava de mudanças... Agora volto para mais uma. Por que será que as mudanças me inspiram e me trazem até aqui?

Tem gente que odeia mudar. De casa, de endereço. Já troquei de cidade, de estado, e cá estou com alguns traumas, muitas saudades e um bom punhado de histórias que gosto de lembrar e recontar. Vou de casa para apartamento, 'de escada pra elevador', quase sempre embalada por uma empolgação que sempre toma conta de mim quando uma nova mudança se aproxima.

Ah, dragão galático eu sou, sempre pronta para um recomeço, para um novo pontapé inicial. Bom é criar. A continuidade me entedia. Mas não para tudo, claro. Há certas bases que garantem a possibilidade das criações e certas continuidades que inspiram. Sou a favor da convivência a dois, por exemplo, sempre renovada, arejada, mas eterna enquanto dure.

Gosto de mudar de lugar, de casa, de roupa, de emprego... Quase não sinto saudade do que me desfaço porque tudo o que realmente preciso comigo guardo em mim. Sinto saudade mesmo é do tempo e de algumas pessoas que hoje não estão mais comigo, ou não tão perto quanto eu gostaria. E, às vezes, até confesso, sinto saudade de mim em outros tempos, embora se pudesse escolher entre tantas que já fui para ser hoje, seria eu mesma.

Agora mal posso esperar para recomeçar o ritual: encaixotar coisas, jogar outras fora, deixar para trás coisas velhas, quebradas, que não uso, e levar para o novo endereço os planos - para o próximo final de semana, o próximo mês, até o final do ano e para o resto da vida... Se não me falham as contas, esse será o meu 14° endereço, contando um que eu morei duas vezes. Vai ser a terceira vez não consecutiva que resido na mesma rua. Estou ficando craque em especulação imobiliária.

A decoração vai ter um pouco do que já tenho e gosto, não mais o que desgosto, e alguns novos toques. Tudo muito simples, mas como é bom arrumar casa nova!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Capítulo de um livro que provavelmente nunca será escrito ou, o diário interrompido no dia 1

Agora as ideias únicas e solitárias que estavam há tempos entaladas na garganta saem de mim aos tropeços, pelas pontas dos dedos, misturadas com outros sabores engasgados que tenho experimentado. Que seja completa a digestão.

Num fim de tarde destes, quando voltava para casa pela Avenida Bento Gonçalves, vi na ação de uma menina a personificação de uma inquietude minha. A criança, interrompida de suas brincadeiras e distrações no parque, gritava em um tom de quase pânico para a mãe, sentada há poucos metros de distância: - Mãe! Olha! Uma arã...

Parou de súbito enquanto apontava para o “monstro” preto com várias patas no chão, quase aos seus pés, irreconhecível e assustadoramente vivo. Tentou de novo, aos berros, nomeá-lo: - Uma arã...

Engasgou. Não sabia o que o bicho era, mas sabia que não era uma aranha. E a falta da palavra para denominar o conceito tornava o animal asquerozo ainda mais assustador. A angústia de não dizer, de não ter como dizer, era ainda mais angustiante que a presença do bicho, e paralisava a menina, dedo apontado para o chão, intrigada. Como se a falta de palavras para nominar a causa do medo também provocasse a falta de pernas para correr dali e superar a apatia.

Hoje voltei a pensar nessa cena quando despertei de uma incursão literária, sobressaltada, duas paradas depois do ponto em que eu deveria ter descido do ônibus para ir ao trabalho. A relação com as profecias da obra-prima de George Orwell, 1984, foi inevitável. Pensando bem, depois de tanto tempo sem escrever, sinto-me um pouco como o herói Winston Smith ao rabiscar anotações na primeira página de seu diário. Ele na sua transgressão, eu na minha. Esse texto foi escrito ao sabor de chocolate (daqueles com maior concentração da cacau).

Como ele, sinto falta de palavras. Sinto fome e vontade de saborear um bom texto e sinto falta do tempo em que eu viajava buscando as melhores composições para contar histórias. Eu contava histórias, e até acreditava que eram boas. Agora tenho me alimentado da carne dura dos releases e de insossas notas de reclamações sobre o caos no serviço público e suas meias porções de informações. Fora do trabalho, saboreio com veracidade os verbos, substantivos, adjetivos, advérbios... palavras de todas as classes que tenho encontrado nos livros onde busco me nutrir com uma alimentação mais rica que pobres leads. Tenho buscado ler e reler os clássicos.

Mesmo assim, sinto tristemente que, em pouco tempo, vou aprender fluentemente um dialeto parecido com o Novafala, a linguagem oficial da ditadura profetizada por Orwell, tão vazia de sentido quanto certas notícias que se vêem por aí.

Respiro fundo. Hoje é o dia um de mais um recomeço. Um de muitos que já passaram e de muitos outros que virão. Sinto falta dos que me são queridos e daqueles que há pouco tempo estavam tão perto e agora estão longe, se afastando cada vez mais. Mas, pelo menos só por hoje, eu prefiro a solidão.

Provavelmente passarei por mais um bom tempo sem dar as caras por aqui. Só volto quando preciso de refúgio. Depois do desabafo, ponho meu melhor sorriso no rosto e saio por aí, com discreta displicência, até que tenha o ânimo renovado. Foi um prazer, de novo, editar um texto meu ao sabor de chocolate (literalmente).

Este é apenas um capítulo, talvez o primeiro, de um livro que provavelmente nunca será escrito. Às favas, Grande Irmão!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A linha

________________________________________________________

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Mensagem recebida no meio de uma tarde agitada. Curta demais, longa demais...

O importante, como nos disse Cora Coralina, é saber viver.
Saber Viver


Não sei... Se a vida é curta

Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto durar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Minha vida digital

Estou on-line, logo existo. Como a vida social na Internet está cada vez mais agitada, o Estilo lança a questão: viramos escravos da agenda virtual?

Será impressão minha ou a expressão "surfar na Internet" saiu mesmo de moda? Talvez porque hoje em dia, com a profusão de informações na rede, ninguém consiga mais se equilibrar em uma reles prancha. É bem verdade que, mesmo nos tempos mais remotos, os cibermares nunca foram muito tranquilos. Mas, com a maré cheia de conteúdos que se tem atualmente, os internautas vivem cada vez mais a se equilibrar sobre o mouse em meio a "águas" turbulentas. Apesar disso, navegar é preciso.

O Brasil é um dos países onde as pessoas permanecem mais tempo conectadas no mundo. Em março desse ano atingimos uma marca inédita: cada um dos mais de 25,5 milhões de internautas residenciais navegou, em média, 26 horas 15 minutos durante o mês. Isto é, um dia inteirinho mais uma hora e quinze minutos. O recorde nos colocou no topo do ranking mundial que mede o tempo de navegação por usuários no mundo, logo acima de países como o Reino Unido, a França e a Alemanha.

Na prática, usuários mais efetivos costumam passar muito mais tempo na Internet. Adolescentes ou quem trabalha on line – especialmente profissionais na área de mídias ou informática – chegam a permanecer cerca de 8 horas seguidas conectados todos os dias.

Para piorar, estudos indicam que, a cada ano o internauta fica cerca de 0,8% mais lento para assimilar a informação disponível on line a despeito da tecnologia que, ao contrário, é capaz de transmitir cada vez mais informações com mais velocidade.

"E o que tu queres que eu te diga, que os jovens são viciados em Internet?" Foi a pesquisadora Raquel Recuero – uma das mais conceituadas quando se trata de redes sociais – quem começou perguntando na entrevista. Ela própria é um exemplo de internauta praticamente full time. "Quando eu era adolescente costumava passar horas ‘pendurada’ no telefone", compara. Hoje o que era um simples telefone virou celular e ganhou muito mais funções e, assim como o computador, permite que ela, os adolescentes e também gente de todas as idades passem horas conectados. "O importante é ter disciplina para não deixar que essa rotina seja sufocante, e saber usar a Internet na medida em que ela é útil", diz ela.

A rotina digital é intensa, e começa cedo, muitas vezes regada à uma boa xícara de café que acompanha as primeiras leituras do dia: é o momento de dar a primeira olhada na caixa de entrada do correio eletrônico (que nem sempre é única) e, como é preciso se manter bem informado, também é hora de ler as notícias do dia em jornais on-line, blogs ou no próprio agregador de feeds.

Nesse meio tempo, ainda sobram alguns minutos para dar uma passadinha nos microblogs Twitter (para ver o que está rolando por lá) e no Plurk, para ver se os amigos têm alguma novidade e, claro, para manter o "karma" (índice que mede o nível de popularidade e interação dos usuários). Uma "pausa" para responder a janelinha do MSN que começou a piscar (ao mesmo tempo que emite seu sinal sonoro característico), e não esqueça de colocar logo na Internet aquelas fotos da festa do final de semana. Ah! E cuidado para não se perder entre os milhares de links por aí, ou lá se vai a tarde inteira…

Agregadores de Feed

Os agregadores são programas que organizam informações de acordo com as preferências e interesses dos usuários. Tais programas são receptores de RSS Feed, uma tecnologia que permite a distribuição e recebimento de conteúdo (texto, som ou vídeo) sem a necessidade de acessar um website. Basta o internauta faça um registro nos sites ou blogs de onde deseja receber informações.

Microblogs

A instantaneidade dos microblog (blogs onde se publica textos de até 140 caracteres) conquistou internautas em todas as partes do planeta. No Brasil, os adeptos do formato têm aumentado expressivamente: o Twitter, mais popular deles, teve um crescimento de 456% em acessos entre abril de 2009 e o mesmo período do ano passado.

Mesmo assim nem chega perto de ser tão popular quanto o Orkut, lançado há 5 anos. Dos 25,5 milhões de internautas residenciais no Brasil, 17,85 milhões acessam o site de relacionamentos do Google.

O Plurk, criado mais recentemente, tem uma audiência menos expressiva mas virou uma espécie de fenômeno local. Hoje o site conta com pelo menos 400 "plurkers" pelotenses.

***Continuação do texto***
Na sequência, a agenda ainda pode reservar outros compromissos: verificar recados, checar as comunidades que você administra para ver se não há nenhum post indevido e ainda dar uma espiada na página de recados do namorado(a) ou ex no Orkut; ler e comentar blogs alheios (se quiser ter audiência no seu próprio blog, é preciso frequentar os dos outros) e, por falar nisso, você também precisa atualizar o seu blog, já que a última postagem foi publicada na semana passada.

Ser popular na Internet exige tempo e, pela falta dele, de assunto ou de paciência, provavelmente o próximo texto que será escrito comece de uma forma bem pouco inspirada: "Desculpem a falta de atualização no meu blog, mas a correria está demais (e a minha preguiça também!) Prometo tentar postar com mais frequência e blá, blá, blá…" Pra quê?

Para cada plataforma na Internet, existem milhares de utilitários – alguns aplicativos extras que até melhoram a funcionalidade dos sites, mas muitos são apenas um múltiplo a mais para as formas que se tem de interagir.

A maioria das pessoas nem conhece todos os recursos que um site pode oferecer (a forma de navegar é cada vez mais personalizada) e usa somente o "basicão", assim como a maioria das pessoas também não conhecem totalmente o potencial da maior parte dos aparelhos eletrônicos que possui. Ou você sabe tudo o que o seu celular é capaz de fazer?

Minimize

Os calculistas dizem que estamos a, no máximo, seis níveis de separação de qualquer pessoa do globo. Isto é: eu tenho um amigo. O amigo desse amigo meu tem outro amigo que conhece outro alguém que tem uma vizinha cuja tia tem uma empregada que é mãe do meu amigo. Mais ou menos assim.

Quase todo mundo recebe diariamente vários e-mails de desconhecidos de toda parte que querem se tornar "amigos". Querem que a gente esteja presente em cada nova rede virtual que aparece, seja ela Orkut – a mais popular no Brasil – ou My Space, Facebook, Sonico, Hi5… E eu disse "estar presente" mesmo, porque as redes sociais na internet exigem presença. A palavra de ordem é compartilhar. O que requer atualizar constantemente o perfil (e como somos seres tão mutantes o que dizemos sobre nós hoje logo fica defasado), postar novas fotos no álbum, novos vídeos, e estar em constante interação.

Em meados do século passado o escritor belga naturalizado argentino, Júlio Cortázar, dizia - não com essas exatas palavras - que quando se tem um relógio se tem também a obrigação e a necessidade de lhe dar corda todos os dias.

As redes digitais exigem a mesma frequencia e fidelidade. Segundo o Ibope, os brasileiros visitam o Twitter, em média, uma vez a cada oito dias. Já a média de assiduidade no Orkut por parte dos internautas daqui chega a ser de pelo menos um acesso a cada dois dias.

Mas, quando a vida offline (sim! Exite vida além da vida digital!) não deixa folgas para o seu avatar ou representação do "eu digital" agir o resultado é uma infinidade de posts com pedidos de desculpas pela falta de atualização – e tem gente que realimente se sente culpada por faltar a esses "compromissos" informais – além de milhares de perfis "fantasmas" condenados ao abandono.

Se estar sempre conectado pelo computador ou celular para alguns é um castigo, para Aleksandar Mandic é versatilidade. O empresário, um dos pioneiros da internet brasileira, argumenta que isso não é "perda de tempo", e sim uma forma de otimiza-lo. "A tecnologia não evoluiu para nos tornar escravos dela, mas sim para nos colocar mais presentes no dia-a-dia dos negócios e cuidar de outros assuntos ao mesmo tempo. Agora você pode tirar férias com a família e acompanhar os negócios de perto", defende.

Uso, sem abuso
(existem incontáveis formas de usar a internet – invente uma!)

Raquel Recuero é uma jornalista pelotense e trabalha como professora, pesquisadora e consultora na área de redes sociais. Tem 78 anos (segundo seu perfil na Internet), mais de 2 mil seguidores no Twitter e, orgulhosamente, 100 de karma no Plurk.

Ela não gosta da ideia de "criar regras", mas impõe limites para si mesma: todos os dias ela lê seus feeds mais interessantes até as 8h15min, dá um "alô no Plurk para manter o karma" e sai para correr. "O que não é lido até aquele horário não leio mais", até porque no dia seguinte vai haver pelo menos o dobro de links para serem acessados.

Angélica Freitas, tem 36 anos e é poetisa. Nasceu em Pelotas mas vive pelo mundo (atualmente passa um tempo na Argentina). Participou de vários blogs coletivos, entre eles o Poeta com dead line (uma alusão à sua formação em jornalismo), onde os colaboradores escreviam poesias diretamente na Internet e o Algavária, onde tinha a obrigação de publicar uma nova poesia a cada segunda-feira. É, ou era, blogueira desde 2001 e mantinha há 7 anos o blog pessoal Tome uma Xícara de Chá. Em abril deste ano deixou muitos leitores órfãos. Na sua derradeira postagem, a despedida poética: "É um chicletinho cósmico, a internet. Mas todo mundo sabe a verdade sobre o chicletinho: vicia. Só mais um pouquinho: e lá se foi a manhã. Que não voltará jamais! Se sair do Orkut e do Facebook é 1/2 um suicídio, deixar de ter um blog e de ler blogs é 3/4 sair da cidade grande para ir morar no campo. Creiam-me. Oh, já ouço o gritar dos quero-queros! Eu quero-quero uma casa no campo!"

Tatiane Lang é psicóloga, tem 28 anos e nasceu em Pelotas. Conheceu muitos amigos no IRC, gostava de ICQ e hoje adora plurkar e bater-papo no MSN. Entrou no MySpace por "incentivo" a apresentadora de TV Oprah Winfrey, mas prefere usar o Facebook. Pensou várias vezes em criar um blog, mas nunca o fez para evitar o compromisso. Isso porque "se vai começar a fazer alguma coisa tem que se dedicar", diz ela.

Jean Marques é web designer. Tem 29 anos e nasceu em Pelotas. Passa praticamente o dia todo online e admite que fica nervoso sem internet. "Uso algumas gadgets pra tentar manter a produtividade e a organização como calendários online e lista de tarefas, esse tipo de coisa.". Durante a entrevista, concedida pelo Gtalk estava em mais três conversas online, no Plurk e em fórum.

Guilherme Felliti é jornalista, nascido em São Paulo e tem 26 anos. É colunista da revista Carta Capital e editor-assitente do site IDG Now!, especializado em tecnologia. Cansou do Twitter. Abandonou sua conta pessoal no ano passado mas continua administrando o perfil do IDG Now!, que tem 4,5 mil seguidores. Diz que já foi compulsivo pelo computador mas que hoje em dia não entraria em colapso na falta de Internet. "Passaria uma semana ou um mês longe sem problemas. Claro que não nas próximas semanas, que eu preciso acabar minha tese!". Depois que concluir o mestrado, pretende se isolar durante um final de semana sem nada tecnológico. "Abraçar o mundo digital é suicídio. Admitir que há uma tonelada de coisas legais rolando por aí e que você não poderá ver absolutamente todas é um bom caminho", disse em entrevista pelo Gtalk

Bianca Zanella é jornalista, tem 21 anos e trabalha no Diário Popular. Seu perfil no Orkut está desatualizado. Deixou de postar no Twitter há meses, mas continua acumulando seguidores (o que será que eles querem ler lá?). Meses atrás chegou ao Plurk Nirvana (com karma superior a 81) mas atualmente não consegue mais passar dos 80. Dedicada a fazer essa matéria, foi conhecer mais a fundo o assunto e criou contas no Facebook e no MySpace (que serão abandonadas). Por causa de uma falha de configuração ficou cinco dias sem receber e-mails e até agora não conseguiu ver todas as mais de 90 mensagens que acumularam nesse tempo.

Lições para reaprender a navegar

Livre-se do lixo. Filtre seus e-mails. Configure seu anti-spam para reduzir o número de e-mails indesejados e não deixe acumular mensagens não lidas na sua caixa de entrada. Além de causarem a impressão de muitas coisas pendentes, elas ainda podem fazer você perder e-mails realmente importantes. Também não esqueça da regra básica da "netiqueta" (etiqueta da Internet) e seja criterioso ao enviar mensagens para não entulhar as caixas de entrada alheias.
Organize-se. Pode dar um pouco de trabalho criar pastas para e-mails, mas em pouco tempo essa medida pode ajudar a reduzir o tempo gasto para administrar o correio eletrônico. Há quem prefira administrar todos os e-mails em uma conta universal (que recebe e-mails enviados para as contas pessoais e profissionais), mas nem sempre essa pode ser a melhor opção. Outra dica é ter uma conta exclusiva para cadastros em sites. Assim as mensagens indesejadas, principalmente publicitárias, poderão ser todas desviadas para lá.

Saiba que menos é mais. Seja qual for o seu objetivo – conquistar popularidade e "capital social", fazer contatos profissionais ou divulgar produtos e ideias, será mais fácil conseguir isso com perfis, blogs ou sites "turbinados", bem feitos e principalmente atualizados que com inúmeras páginas onde o seu nome aparece mas sem qualidade de informação.


Texto: Bianca Zanella Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Estilo / Páginas Centrais Publicado em: Pelotas, Domingo, 24 de maio de 2009

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Campanha


[Clique na imagem para visualizar em maior resolução.]
* Isto não é um post pago. Anuncie aqui.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Uma vida ressignificada

Em um apartamento claro e arejado, Eunice espera. Uma espera bem mais paciente e agradável que de tempos passados. Sentada sobre uma poltrona verde, com um colar de grandes contas coloridas ela recebe alegremente os visitantes com cumprimentos distantes. Pede licença, e com o auxílio das muletas cor-de-rosa caminha a passos mansos até o quarto para retocar o batom, com sua blusa muito branca, como as paredes da ampla sala de estar. Também pudera. Branco é a mistura de todas as cores que ela adora.


Há tempos que Eunice passou a sentir repulsa do preto. Comprou as muletas da cor que encontrou e lamenta que não sejam fabricadas cadeiras de rodas coloridas. "A cor passou a ter um outro significado na minha vida", diz ela. Mas não foi apenas a cor.

O andar de Eunice é uma vitória para quem havia deixado de caminhar, assim como vestir-se só e como receber visitas depois de tanto tempo de reclusão. A pose para a foto é um desafio. Dona de belas feições, ela jamais perdeu a vaidade. Por conta disso, foram dois anos sem permitir registros da sua imagem, sem reconhecer-se no espelho e não raro sem ser reconhecida por causa dos efeitos colaterais de um tratamento árduo.


Lições de vida

A psicóloga Eunice Damé Wrege, 61 anos, sempre foi uma profissional ativa. Professora universitária, mantinha um consultório particular e ainda assessorava empresas na gestão de recursos humanos.

Há 3 anos ela foi surpreendida pelo diagnóstico de uma doença chamada Granulomatose de Wegener e de uma hora para a outra teve a rotina interrompida, obrigada a abandonar tudo e dedicar todas as suas forças para lutar pela própria vida.

Em cada 100 mil pessoas apenas 3 sofrem dessa doença. Quando soube, ela se fez a pergunta óbvia que qualquer outra pessoa faria: "por que eu?" "A gente sempre pensa que essas coisas nunca vão acontecer com a gente, mas acontecem."

A descoberta veio através de sinais como rinite, olhos vermelhos, cansaço e depressão, sintomas que mascaravam o real problema: uma espécie de reumatismo raríssimo. Como é uma doença autoimune, o corpo de Eunice passou a combater o próprio corpo, e ela precisou se submeter à quimioterapia e a medicamentos para diminuir as defesas do organismo, ficando vulnerável a qualquer contato com outras pessoas. Com a saúde fragilizada, um simples resfriado se tornou um grande risco.

"Quando a gente adoece, adoece todo mundo junto: a família, os amigos... Mas a cura é um processo solitário", diz ela, que fez das várias batalhas vencidas um mosaico de experiências registradas em livro. Patchwork, retalhos da alma - que a autora autografa hoje à tarde na Livraria Mundial - é uma mensagem de esperança de quem teve a vida despedaçada e sobreviveu, com alegria e fé.

"Tenho medo de me expor, medo de parecer ridícula" confessa Eunice, que foi convencida a publicar o livro em favor de uma causa nobre. Ao dividir os relatos e desabafos que antes só eram compartilhados com familiares e amigos pela Internet, ela espera tornar sua cura menos solitária e oferecer um alento a quem passa por situações semelhantes. Além disso, o livro serve como alerta para outras vítimas dessa doença silenciosa.

"A gente tem que dar uma choradinha e em seguida pintar os olhos, dar um sorriso que a vida segue!"

Em suas crônicas escritas em linguagem simples, Eunice consegue falar com leveza do drama, das idas e vindas do hospital, da UTI e de todos os duros aspectos do tratamento, retratados por palavras de alguém que se sente renascida. "Quando a gente adoece volta a ser criança. A inversão é tanta que eu às vezes chamava as minhas filhas de 'mãe'", conta a autora, que a exemplo da crônica O coelhinho da Páscoa também passou por aqui (leia o trecho nesta página) diversas vezes mergulhou nos refúgios do imaginário infantil para traduzir o que sentia.

Apesar de tudo, ela pouco se queixa e preferiu assumir o papel de sobrevivente, ao invés do papel de vítima. "Nunca fui de ficar reclamando. Mas quando eu estava triste e me diziam para não chorar, mesmo assim eu chorava. Eu tinha motivos pra isso, oras! Mas a gente tem que dar uma choradinha e em seguida pintar os olhos, dar um sorriso que a vida segue!", afirma, com o tom de alguém que realmente já viveu muito para compartilhar conselhos e lições. Hoje, por sinal, é aniversário dela, para quem celebrar a vida tem realmente um significado muito especial.

Prestigie!

O quê: sessão de autógrafos de lançamento do livro Patchwork, retalhos da minha alma, da autora Eunice Damé Wrege
Quando: hoje, das 18h às 19h30min
Onde: na Livraria Mundial (rua 15 de Novembro, 564)


Leia um trecho

Como uma criança, a Páscoa começou a aguçar minhas fantasias. Jamais seria uma boa jogadora de pôquer, pois não podia deixar de esconder meus planos. Vou à casa da afilhadinha, a pequena Sofia, vou abraçar a dedicada afilhada Fernanda, vou visitar as tias, vou, vou. Era eu e mais todos os coelhinhos da Páscoa saltitantes visitando meio mundo. Aliás, eu era o próprio. Visualizava uma coelhinha gordinha dando cambalhotas de jardim em jardim.

Mais se aproximava a semana da Páscoa, mais eu mirabolava.

Até que esquentou o tempo e a temperatura de meu corpo também. De tanto o coelhinho pular? Não, era a febre mesmo. Essa parte, agora, quem vai pular sou eu, aqui no papel, porque não vale a pena a gente ficar remoendo. Só para encurtar o caso, Sexta-feira Santa, eu tremia tanto, mais do que vara verde, e quando me dei conta - pois aprendi que doente é muito esperto e que às vezes é melhor ter memória fraca - estava indo para o hospital. É, acreditem se quiser, hospital. A Bel, sempre muito atinada, já estava com as mochilas a postos. Como? Não sei, ela é muito rápida!

Chegando lá, num instantinho ela arrumou o quarto com meus pertences. Eram os meus santinhos na mesa ao lado da cama, todos em cima de um guardanapo de linho branco bordado de vermelho e azul. Detalhe: bordado por mim, pois toda moça que se prezava, na época, aprendia a bordar para seu enxoval de casamento.

(...)

Sábado vem a surpresinha: lembram que no dia seguinte seria domingo de Páscoa? E os meus planos? Parece que um “Tsunami” tinha passado por ali e varrido todos eles.

Voltemos ao sábado. O doutor, este sim, com a própria cara de um muito bom jogador de pôquer, anuncia: “Vamos ter que ir para a UTI.” Minha reação? Nem sei, estou bem embaixo daquela maior e avassaladora onda. Senti meu coração bater com toda a força na ponta dos dedos, na garganta, até chegar às pernas. Aos poucos ele foi se acalmando pois eu perguntava : “Como é lá?”, “Por que tenho que ir para lá?” E as pessoas vão dizendo coisas, e é bem melhor acreditar naquilo de bom que dizem.

(...)


Texto: Bianca Zanella | Imagem: Divulgação | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Capa | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 13 de janeiro de 2009

domingo, 23 de novembro de 2008

Polêmica na bilheteria II

O que está valendo?

JustificarPara jovens:

* Está assegurado aos estudantes o acesso com 50% de desconto pelas Leis Municipais 3.682/1993 em Pelotas e 4.601/1991 em Rio Grande;

* Embora a lei pelotense exija a apresentação da Carteira de Identidade Estudantil expedida por órgãos estudantis reconhecidos (UNE, UBES, ANPG ou UPES), enquanto estiver vigente a Medida Provisória MP 2.208/2001 - que proíbe a exigência exclusiva do registro em qualquer entidade - a identificação do estudante pode ser feita por qualquer documento que comprove sua condição, inclusive os emitidos pelos estabelecimentos de ensino, associação ou agremiação estudantil a que pertença o aluno.

* Em Porto Alegre, todo jovem de até 15 anos, estudante ou não, tem direito ao benefício da meia-entrada, nos dias estipulados pela lei municipal da capital (9.989/2006), mediante a apresentação do documento de identidade.


Para professores:

* Em Pelotas, a Lei 3.682/1993 estende o benefício da meia-entrada aos professores de estabelecimentos de ensino públicos ou particulares localizados no município.

* Para usufruir do benefício, os professores devem apresentar a carteirinha expedida pelo Sindicato Nacional dos Docentes da Instituição de Ensino Superior (Andes), pelo Sindicato dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS), pelo Sindicato dos Municipários de Pelotas (Simp), pelo Sindicato dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul - Particulares (Simpro) ou pelo Sindicato Nacional dos Servidores em Escolas de 1º e 2º Graus Federais (Sinasefe).


Para idosos:

* Toda pessoa com 60 anos ou mais de idade tem direito à meia-entrada garantido pelo artigo 23 do Estatuto do Idoso (Lei Federal 10.741/2003);

* Para reivindicar o benefício, o idoso precisa apenas apresentar documento de identidade no ato da compra do ingresso e na portaria. Não é necessária comprovação de renda, como exige a Lei Municipal de Pelotas 3.682/1993 (que restringe o benefício a aposentados que recebem até 3 salários mínimos), já que a norma perde a validade frente à Lei Federal.


Onde vale?

As leis da meia-entrada, em geral, valem para acesso a cinemas, teatros, espetáculos musicais, circenses e eventos educativos extracurriculares, bem como esportivos e de entretenimento, como festas e exposições artísticas.


Entidades estudantis

UNE – União Nacional dos Estudantes
UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas
ANPG – Associação Nacional de Pós-Graduandos
Uges - União Gaúcha de Estudantes
Umespel – União Municipal dos Estudantes de Pelotas
Fone: 8434-2097


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Estilo / Páginas Centrais | Publicado em: Pelotas, Domingo, 23 de novembro de 2008

Polêmica na bilheteria I

Instituída nos anos 40, a meia-entrada foi incorporada à cultura de tal modo ao longo das décadas que virou tradição entre os principais consumidores de lazer: com a carteirinha na mão, os estudantes, juntamente com os idosos, representam a maior parcela das platéias dos eventos artísticos, culturais e esportivos no País.

Quando se fala em pagar menos, em princípio todo mundo gosta, mas algumas perguntas são inevitáveis: os preços dos ingressos estão altos porque existe meia-entrada ou a meia-entrada existe porque os ingressos estão pela hora da morte? E se a meia-entrada deixasse de existir, como a CPMF, os preços dos shows, do cinema, do teatro e dos jogos de futebol cairiam imediatamente?

O fato é que com o benefício o ingresso pesa menos no bolso de quem tem direito ao desconto - com o respaldo da legislação federal e também dos estados e municípios - mas pesa mais no orçamento dos promotores de eventos. Para reequilibrar a balança e não deixar de pagar as despesas, o jeito geralmente é repassar o ônus adiante, reajustando a tabela das receitas. E aí...


Quem paga a outra metade?

Longe de ser uma solução definitiva para garantir o acesso à cultura - previsto no artigo 23 da Constituição Federal como competência do Estado - a meia-entrada acaba por dividir os prejuízos entre os artistas, a iniciativa privada – produtores de eventos e exibidores de cinema - e o público pagante - com ou sem desconto. No final, quem paga a conta é o cidadão comum, uma vez que, em geral, o preço dos ingressos sofre aumento proporcional para cobrir o benefício dos estudantes.

Outros apelam para manobras que mascaram o valor real cobrado, como a concessão de descontos promocionais para o público em geral mediante a doação de alimentos não perecíveis, o que é ilegal. "No fundo, não passa de um benefício ilusório", diz o produtor do Grupo Tholl Paulo Martins. "A gente acaba tendo que dobrar o valor do ingresso para não ter prejuízo."

Atualmente, tramitam na esfera federal dois projetos de lei que pretendem regulamentar o benefício dos estudantes, um na Câmara e outro no Senado.

O projeto apresentado pelos senadores Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e Flávio Arns (PT-PR) – PLS 188/2007 - corre na frente. Já obteve parecer favorável em duas comissões – a de Constituição e Justiça e a de Educação, Cultura e Esporte – e será votado nesta terça-feira.

O outro – PLC 1007/2007 -, elaborado pela deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), tramita na Câmara em caráter de urgência, mas ainda está em discussões preliminares e não deve entrar na pauta de votação tão cedo.
O texto original dos dois projetos tem vários pontos em comum. O principal deles é a limitação do benefício aos estudantes do ensino regular (educação básica, profissional, superior e especial – para portadores de necessidades especiais). O projeto da Câmara inclui ainda os alunos dos cursinhos pré-vestibulares.

Ambos os projetos derrubam a Medida Provisória 2.208, aprovada durante o governo Fernando Henrique Cardoso, que pôs fim à exclusividade de emissão das carteirinhas para as entidades reconhecidas pelo Ministério da Educação. Pela nova lei, as Carteiras de Identificação Estudantil (CIE) válidas seriam somente aquelas expedidas pela União Nacional dos Estudantes (UNE), União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) e outros órgãos devidamente autorizados, deixando de valer, portanto, aquelas confeccionadas pela própria escola. “Regularizar isso é o mais importante”, defende o senador Eduardo Azeredo. “Não podemos voltar ao sistema cartorial do passado, mas também não podemos manter esta anarquia de hoje, onde a pessoa faz qualquer cursinho e tem carteirinha de estudante, e onde as carteirinhas são vendidas no meio da rua”, afirma.

Para coibir falsificações e fraudes, o projeto da deputada Manuela ainda prevê a criação de um Selo Nacional de Segurança.


Restrições

Azeredo propõe uma cota máxima de 40% dos ingressos para a meia-entrada em espetáculos e eventos esportivos. É exatamente esse o principal ponto de discussões. Os produtores lembram que a lei dos transportes coletivos, por exemplo, limita o número de acentos reservados para idosos. Mas, para o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) o benefício não deve ser restringido por cotas. Com esse argumento ele teve o pedido de vistas do projeto concedido pelo presidente da comissão de Educação, o senador Cristovam Buarque, e conseguiu assim impedir que o projeto fosse votado já na terça-feira passada.

A deputada Manuela também é contra limitar a venda de ingressos com desconto, apesar de ser a autora – enquanto era vereadora - do projeto que resultou na lei vigente em Porto Alegre desde 2006, que prevê desconto de apenas 10% - ao invés dos tradicionais 50% - nos espetáculos realizados de sexta a domingo e nos cinemas aos finais de semana, entre outras restrições. “A lei de Porto Alegre sofreu modificações. Ela não representa tudo aquilo com o que eu concordo, mas é o que nós conseguimos aprovar. Aqui vai ser a mesma coisa. Não sou intolerante e espero que os demais parlamentares também não sejam e estejam dispostos a dialogar com a sociedade”, justificou.

A proposta de emenda ao projeto do senador Azeredo, que previa restrição do desconto ao finais de semana não passou pelas comissões. Mas entre as emendas apresentadas que foram aceitas pela relatora Marisa Serrano (PSDB-MS) e poderão ser aprovadas com a lei está a proposta da senadora Ideli Salvatti (PT-SC) que determina a venda de ingressos com desconto somente até 72 horas antes do evento.


Fique atento

Você pode acompanhar a tramitação dessas e outras matérias em discussão no Legislativo através dos sites www.camara.gov.br e www.senado.gov.br.


Responsabilidade social ou sobrecarga na iniciativa privada?

Os produtores fazem as contas e reclamam: no cinema e nos shows mais populares em Pelotas, o público pagante com direito à meia-entrada chega a ocupar em média 70% da platéia. "Aqui, além dos estudantes e dos aposentados, a gente ainda tem que subsidiar os professores. O que justifica uma única categoria profissional ter direito a esse benefício? Sem contar que não recebemos do Estado nenhum tipo de incentivo", indigna-se o empresário Jarbas Mello. “No show do Nenhum de Nós eu subsidiei simplesmente R$ 14 mil em descontos e isso não é pouca grana.”

Para os defensores da lei, isso faz parte da responsabilidade social inerente a toda atividade produtiva. Mas para os produtores o Poder Público simplesmente transfere o ônus que o Estado é incapaz de assumir.

Tanto o projeto que tramita na Câmara quanto o que será votado no Senado prevêem possibilidade de ressarcimento aos produtores independentes através do Programa Nacional de Apoio à Cultura, com verbas do Fundo Nacional de Cultura ou patrocínios, dentro dos critérios da Lei Rouanet. Os empresários, entretanto, acreditam que é um recurso distante da realidade da maioria das produções. "Dificilmente se consegue chegar a esses recursos porque eles dependem de um processo muito burocrático", afirma Mello. Para a deputada Manuela, esta "é uma possibilidade em que cabe nova regulamentação".

Ao ser questionado sobre a necessidade de mecanismos mais acessíveis de subsídio para a iniciativa privada, o senador Azeredo desconversa. "Isso já é outra história... É algo que tem que ser discutido em outro projeto que trate de incentivo à cultura."


Jurisprudência

Nos mesmos moldes dos projetos de lei federais, a Lei Estadual 9.869 que regulamenta a meia-entrada no Rio Grande do Sul, aprovada em 1993, está suspensa desde 2000 por uma liminar. Na interpretação do Tribunal de Justiça do Estado, responsável pelo julgamento em primeira instância, a lei é considerada inconstitucional por ter caráter discriminatório entre estudantes e não estudantes, além de impor intervenção abusiva do Estado no direito de propriedade privada e violar o princípio da livre iniciativa.

Na opinião dos defensores do direito à meia-entrada para estudantes, o benefício deve ser entendido como uma complementação da formação escolar. Outros entendem que a lei acaba por privar do acesso à cultura quem já não tem acesso à educação. Para a deputada Manuela, não há contradição em restringir o desconto a quem é estudante. “O Bolsa Família também é vinculado à educação. Os jovens precisam estar na escola para receber. Se ele não está no lugar onde deveria estar, é preciso pensar em mecanismos que proporcionem essa condição básica”, argumenta.

Segundo ela, a Câmara está mobilizada para criar uma comissão especial da Juventude que irá discutir a criação de um Estatuto que contemple os jovens acima de 18 anos, que não são respaldados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Nesse novo Estatuto, seria incluída também uma norma definitiva para a meia-entrada. “Nós recém conseguimos aprovar uma emenda que inclui o termo 'juventude' na Constituição Federal. Ainda temos muito o que avançar."


Eles querem o direito inteiro

Contra as restrições e contra a exigência de carteirinhas exclusivas, o presidente da União Municipal dos Estudantes de Pelotas (Umespel) - filiada à União Gaúcha de Estudantes (Uges), Alex Cunha, considera os projetos de lei federais um atraso em relação à legislação vigente no município. Segundo ele, a entidade tem atualmente 22 mil sócios e confecciona carteirinhas a R$ 5,00 na sede e a R$ 2,50 para quem solicita o documento nas escolas (para representantes que fazem visitas regularmente às instituições de ensino), enquanto entidades como a UNE e a Ubes cobram entre R$ 15 e R$ 20 pelo documento. "É muito caro. A maioria dos alunos da periferia não tem condições de adquirir."

Além disso, o projeto prevê a validade do documento por um ano, enquanto a lei do município exige a revalidação a cada seis meses. "Esse controle semestral é uma forma de avaliar a evasão escolar e fazer com que quem deixou de estudar pare de receber o benefício da meia-entrada", diz ele.

Alex Cunha é a favor de cotas por "entender o lado do produtor cultural", tanto que se antecipa à legislação e ele mesmo negocia com os organizadores de eventos um percentual de ingressos disponíveis para os estudantes, como fez com o Parque Tupy, que abre inclusive em dias específicos especialmente para receber os grupos escolares. "A gente sabe que se cumprir a lei rigorosamente os produtores quebram", afirma Cunha, que também recebe lotes de ingressos dos produtores para vender separadamente, direto aos associados da Umespel.

Jardel Oliveira, coordenador do Procon em Pelotas, afirma que as denúncias de descumprimento da lei da meia-entrada diminuíram consideravelmente nos últimos meses, depois que o órgão realizou uma campanha de conscientização. Segundo ele, o trabalho contemplou principalmente casas noturnas e organizadores de festas, que de acordo com os produtores de shows são geralmente os menos visados pela fiscalização.

Oliveira diz acreditar que as mudanças só vão burocratizar mais o benefício e dificultar a fiscalização de uma lei que, segundo ele, já não é cumprida muitas vezes. "Se estipularem dias para oferecer o desconto o estudante vai ter que andar com uma tabelinha no bolso pra poder comprar ingresso", afirma. Sobre a venda separada de ingressos para estudantes ele diz: "Não pode, assim não tem como fiscalizar. O estudante tem que comprar ingresso no mesmo local."

Junto com o Procon, o Ministério Público, a Procuradoria Geral do Município e a Secretaria de Serviços Urbanos - que emite alvarás de funcionamento - são responsáveis por fiscalizar o cumprimento da norma. "Os produtores às vezes tentam inverter a interpretação da lei, mas a orientação do Procon é sempre defender a parte mais fraca, que é o consumidor."


Tire suas dúvidas

O Procon em Pelotas fica na rua Professor Araújo, 1.653 e atende de segunda à sexta-feira das 12h30min às 18h30min. Telefone 3284-4477.


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Estilo / Páginas Centrais | Publicado em: Pelotas, Domingo, 23 de novembro de 2008

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Histórias das redações

"Bismarck dizia que as pessoas ficariam indignadas se soubessem como são feitas as leis e as salsichas...". E se soubessem como são feitas as notícias? Eis a provocação do livro A Ópera dos Vivos, que o jornalista Jayme Copstein autografa hoje (14) na Feira do Livro, em Pelotas.


Se conhecer o que se passa nos bastidores da imprensa ajuda a compreender a notícia ou afeta a credibilidade do jornal ele não sabe responder. Mas tem certeza de que as pessoas cairiam na gargalhada se soubessem o que se passa no dia-a-dia de uma redação. "Não sei se ajuda ou atrapalha na questão de credibilidade. Acho que não faz diferença, isso depende do veículo. Mas ajuda a fazer rir, que é a única intenção do livro", diz o autor, que revela sem escrúpulos o lado cômico escondido por detrás das manchetes "sérias" publicadas todos os dias. No livro, ele relata alguns dos episódios mais inusitados, colecionados ao longo dos mais de 65 anos vividos no interior de grandes e tradicionais veículos de comunicação do Rio Grande do Sul.

O título - A Ópera dos Vivos - é inspirado nos espetáculos que eram apresentados no Rio de Janeiro no século 17. "Era para ser uma tragédia, mas os atores que interpretavam a ópera eram tão bisonhos que faziam a platéia cair na gargalhada. Bem como o jornalismo: a intenção é fazer uma coisa séria, mas algumas situações acabam se tornando engraçadas."

Apaixonado pelo que chama de "notas curiosas sobre a espécie humana" (título de outro livro seu, publicado em 1997), Copstein observa com perspicácia os cacoetes, manias, coisas engraçadas e outras absolutamente sem graça que são inerentes ao homem, especialmente àqueles que perambulam pelas redações. "Fora a tecnologia, não há nenhuma diferença entre o cara que molhava a caneta no tinteiro, datilografava a máquina ou que digita no computador hoje. Esse cara é o mesmo e continua fazendo as mesmas bobagens", para divertimento dos leitores.


Perfil

Natural de Rio Grande, Jayme Copstein começou a desempenhar atividades em rádios e jornais aos 15 anos de idade. A carreira teve início por causa de uma brincadeira entre amigos no alto-falante da cidade, o que mais tarde acabou rendendo um emprego na primeira rádio de Rio Grande, a Rádio Cultura Riograndina.

Trabalhou como repórter de polícia do jornal Gazeta da Tarde, ao mesmo tempo em que escrevia textos de radioteatro para as emissoras da cidade.

Aos 80 anos, Copstein tem no currículo passagens pelos principais veículos de Porto Alegre e vários prêmios, entre eles a Medalha de Prata do Festival Internacional do Rádio de Nova Iorque, em 1995. Atualmente seus comentários podem ser lidos no site <http://www.jaymecopstein.com.br>.


Confira
O quê: sessão de autógrafos do livro A Ópera dos Vivos (Editora Jayme Copstein, R$ 30,00)
Autor: Jayme Copstein
Onde: no estande da Livraria Mundial na Feira do Livro
Quando: hoje (14), a partir das 18h


Texto: Bianca Zanella | Foto: Nilton Santolin / Divulgação | Extraído de: Jornal Diário Popular / Pelotas / P.10 | Publicado em: Pelotas, Sexta-feira, 14 de novembro de 2008