domingo, 18 de maio de 2008

Refugiados


Maio de 1948 mudou a vida de Isam Issa, de 51 anos, e de outros milhares de muçulmanos, muito embora ainda nem fossem nascidos na época. Em Pelotas desde outubro do ano passado, o palestino vive hoje as conseqüências dos acontecimentos daquele final de década.
Em novembro de 1947 a Organização das Nações Unidas (ONU) redesenhou o mapa do território Palestino, definindo fronteiras entre dois Estados - um judeu e um árabe. A decisão arbitrária nunca foi aceita pelo lado árabe, mas foi apoiada pelos judeus, que em 15 de maio do ano seguinte instituíram o Estado de Israel. O Estado Palestino árabe jamais foi proclamado.


Marco histórico do conflito no Oriente Médio, a independência de Israel, que completou 60 anos na última quinta-feira, provocou como reação imediata a invasão de exércitos de cinco países árabes e acabou resultando na expansão do território de Israel. O fato, símbolo de autonomia para os israelenses, é lembrado como um massacre pelo povo muçulmano.



Nascido Sem Pátria
O pai de Isam Issa era um entre os mais de 700 mil árabes que foram expulsos de suas casas e obrigados a fugir das áreas que passaram a ficar no âmbito das novas fronteiras impostas por Israel. Ele tornou-se refugiado no Iraque. Isam nasceu no Iraque, mas por causa da ascendência, não é reconhecido como iraquiano, e é considerado palestino. Já para as organizações internacionais, que não reconhecem a Palestina como nação, sua nacionalidade é "stateless", termo cunhado para designar alguém nascido em um lugar que é "menos que um Estado", em uma tradução literal.
O pai de Isam nasceu na Palestina, Isam é palestino, logo a Palestina existe porque, embora os mapas oficiais não a reconheçam, ele a reconhece. Por isso a denominação, tachada em seu passaporte de refugiado emitido pela ONU o aborrece. "O Iraque não é minha pátria mãe, é uma 'pátria madrasta', e uma madrasta má, como a de Isabella", diz, em uma comparação análoga ao assassinato de Isabella Nardoni, cujo pai e a madrasta são os principais suspeitos de tê-la jogado pela janela.
Sem negar a origem herdada do pai, Isam viveu no Iraque, cursou até o doutorado na área de melhoramento genético, casou-se com uma iraquiana e teve filhos, reconhecidamente iraquianos. Isso, na época em que a autoridade absoluta no Iraque era Saddam Hussein.
Em 2003, no entanto, após a invasão americana e a queda do líder, a minoria xiita ascendeu ao poder e declarou uma verdadeira "caça às bruxas" aos sunitas e palestinos, que sob a acusação generalizada de terrorismo passaram a ser considerados uma ameaça à soberania do novo regime e à soberania de Israel sobre o território palestino.
Isam não tinha para onde ir, mas precisava ir embora. Em meio à perseguição, assim como seu pai havia feito décadas antes, ele também fugiu, dessa vez para a Jordânia, refugiando-se no campo de Rwaished, a 70 quilômetros da fronteira com o Iraque. Passou quase cinco anos exilado, vivendo em um acampamento no deserto, sem contato com a família e em condições precárias de sobrevivência, preparando-se para ir a algum país que o aceitasse. Sozinho, estudou línguas e aprendeu, em vários idiomas, diversos sinônimos para as palavras preconceito, depois de ter o visto negado em vários Países. Isam foi um dos últimos a deixar o campo, junto com outros aproximadamente cem palestinos que vieram para o Brasil.
A postura diplomática brasileira, que diferente dos demais países não rejeitou refugiados de origem palestina, foi reconhecida internacionalmente. "É uma atitude nobre que não será esquecida nem ignorada pelas autoridades internacionais", elogia o secretário-geral adjunto da Confederação Palestina Latino-Americana e do Caribe, Maisar Omar, que também exerce o cargo de presidente honorário da Federação Palestina no Brasil e é professor de economia na Universidade Católica de Pelotas.
Maisar Omar também é palestino, mas é naturalizado brasileiro há 15 anos. Nasceu na cidade de Ramallah, território atualmente ocupado por Israel e administrado pela Autoridade Palestina eleita após a morte do líder Yasser Arafat, em 2004.
Segundo Omar, Pelotas é bastante receptiva o que ameniza as dificuldades de adaptação. "Para eles esta é uma oportunidade de um futuro melhor. A cidade, por outro lado, também tem muito a ganhar com esse intercâmbio e com a contribuição de pessoas como o doutor Isam e a esposa, que são altamente qualificados", analisa.


Bem pra "cá" de Bagdá
Isam chegou a Pelotas em outubro do ano passado, junto com a mulher e os dois filhos (uma menina de 11 anos e um menino de 13), através do programa de reassentamento solidário da ONU. A família foi designada para cá por organizações internacionais que prestam apoio aos refugiados, e que consideraram a cidade a mais adequada para o professor, a esposa e os filhos.
Logo na chegada ele já conheceu um dos principais problemas do Brasil: a burocracia, pois, desde então, enfrenta uma verdadeira batalha por conta de discrepâncias na sua nova documentação, como a grafia do sobrenome - escrito com dois esses, e não com um apenas um - e a data de nascimento errada, para não citar outras.
A esposa de Isam, que trabalha como engenheira em uma empresa estatal iraquiana, retornou ao Iraque, onde aguarda o tempo que falta para sua aposentadoria antes de se estabelecer definitivamente em Pelotas. Além do salário da mulher, a família conta com uma modesta ajuda de custo oferecida aos refugiados.
Sem poder trabalhar, por causa da necessidade de novos documentos e por limitações impostas pelo próprio idioma, que ainda não domina com fluência, Isam dedica seus dias a acompanhar os filhos, que estudam em escola pública e têm diariamente aulas extras de português. Também faz parte de sua rotina freqüentes idas ao Café Aquários - local onde se sente bastante à vontade e lembra dos cafés de Bagdá -, e à Bibliotheca Pública, onde mergulha nos pesados volumes de gramática portuguesa. "Tenho que entender a gramática porque gramática é a lógica do povo - e entendendo sua lógica de é possível entender também seu espírito", afirma ele, que através dos estudos coleciona novas palavras em seu vocabulário, já bastante razoável. "Saudade" foi um dos primeiros verbetes que descobriu no dicionário.


Novo apartheid
De jeito simples, feições serenas e pele morena marcada pelo sol do deserto, Isam fala como se fosse natural misturar em uma conversa frases trilíngues em português, inglês e árabe, sempre gesticulando, e normalmente com um cigarro entre os dedos.
Apesar da dificuldade da comunicação, não é preciso entender nenhum idioma estrangeiro para compreender a substância daquilo que ele diz em seus depoimentos. As expressões do rosto pontuam as frases da narrativa no relato dramático de famílias separadas pela guerra, que precisaram deixar suas casas e simplesmente não têm para onde voltar.
"Quando a ONU fala em paz é melhor se preparar porque a guerra está chegando", reflete Isam, que assim como o professor Maisar acredita que a alternativa viável para a Palestina é a construção de um único Estado, para cristãos, muçulmanos e judeus. "A situação atual é dramática, é preciso por um ponto final nesse sistema de apartheid", defende Maisar.


Um país para chamar de "seu"
"Eu sou gaúcho. Eu sinto que sou gaúcho. Gosto da tranqüilidade daqui", fala Isam, em claro português. "O Brasil é uma chance", define. "Prefiro que meus filhos hajam como brasileiros, sejam brasileiros. Assim vai ser melhor pra eles". Essa é a perspectiva dos recém-chegados, que fazem esforço para se adaptar à nova casa com desapego aos velhos costumes.
"Quem não ama sua pátria-mãe não merece ter outra pátria", diz um ditado árabe. Talvez por acreditar nisso eles tenham se apropriado tão bem essa que é uma das características mais marcantes da cultura gaúcha: o orgulho e o amor pela terra.

As Memórias do Exílio - História de vida agora é roteiro
A história de vida de Isam e outras vítmas dos conflitos no Oriente Médio virou roteiro de televisão, e deve chegar também às telas de cinema. Isam Issa é um dos cinco palestinos refugiados no Brasil escolhidos para serem personagens do documentário A Chave de Casa, produzido pela Mixer, de São Paulo, e com co-produção da TV Cultura e da rede Sesc TV. O projeto é um dos vencedores do programa Janela Brasil, promovido pela Fundação Padre Anchieta, que premiou no ano passado 13 obras audiovisuais, segundo a temática "Brasil Invisível".



O vídeo, previsto para exibição na TV a partir de 2008 e ainda sem data para chegar em versão longa aos cinemas, documenta as últimas 48 horas dos refugiados no campo da Jordânia e o início da adaptação à nova vida, do ponto de vista social e político. Para isso, a jornalista Stela Grisotti, responsável pela pesquisa, direção e roteiro, foi conhecer de perto a situação dos refugiados palestinos, ainda na Jordânia, junto com outros quatro integrantes da equipe de produção. "Viajamos de São Paulo até Paris, e de lá voamos para Amã (capital da Jordânia). Depois foram mais cinco horas de carro até a fronteira com o Iraque e chegando lá nos deparamos com aquelas pessoas, naquela situação. No mais, era só areia e pedra", relata ela, que pretende fazer um contraponto da globalização mostrando como as fronteiras, ao invés de se abrir, estão cada vez mais fechadas, impedindo que o direito de ir e vir seja exercido plenamente, e por todos.
O documentário, que também teve cenas gravadas em outras cidades do País onde vivem os demais refugiados que participam do filme, coloca em evidência os cenários do cotidiano de cada um. De Pelotas, Isam aparece em cenas na praia do Laranjal, nas ruas do centro da cidade, na Bibliotheca Pública e no Café Aquários.



Refugiados no Brasil
* Vivem no Brasil hoje cerca de 3,7 mil refugiados, oriundos de 69 países;
* Destes, quase 80% vieram da África, a maioria da Angola;
* Atualmente, os colombianos representam o grupo que mais cresce no país;
* Em 1999 o Governo brasileiro firmou o acordo de reassentamento com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). O programa de reassentamento é realizado em parcerias com organizações da sociedade civil;
* O objetivo é atender refugiados que continuaram tendo problemas no primeiro país de asilo (ameaça à segurança pessoal, dificuldade de integração, etc.);
* 22 cidades, em 4 estados brasileiros, possuem refugiados reassentados, sendo que a maioria deles vive em São Paulo e no Rio de Janeiro.
* Dados fornecidos pelo ACNUR. Saiba mais sobre refugiados no site:
Texto: Bianca Zanella Fotos: Paulino Menezes (1, 3) e Divulgação Mixer (2) Extraído de: Jornal Diário Popular / Cultura / Páginas 16 e 17 Publicado em: Pelotas, Domingo, 18 de maio de 2008

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Show do Nei Van Soria é amanhã

Desculpe, errei!

Diferente do que foi publicado na versão impressa da matéria sobre o lançamento do CD do Nei Van Soria (DP / Caderno Zoom / 15 de maio de 2008 / P. 4), o show em Pelotas ocorre sexta, e não quinta-feira. Já o de Rio Grande está marcado para sábado.

Na versão on-line publicada neste blog, essa informação já foi corrigida.

Leia mais:
Nei Van Soria apresenta seu Mundo Perfeito em CD duplo
Blog do Nei Van Soria

Nei Van Soria apresenta seu "Mundo Perfeito" em CD duplo

Ícone do rock gaúcho, o cantor e compositor faz show de lançamento de seu CD amanhã no Moa - em Pelotas, e sábado no Chalé - em Rio Grande.

Traduzido em som e forma, o novo álbum de Nei Van Soria - com lançamento marcado para amanhã e sábado em Pelotas e Rio Grande - oferece um "pacote completo" para aqueles que gostam de ouvir música "à moda antiga": Conceitualmente forte - na sonoridade e no visual - o CD duplo tem o tom nostálgico dos velhos bolachões de vinil e o vanguardismo poético e musical que une o óbvio ao inusitado, e mistura tendências acústicas - com ênfase nas bases de piano e violão - ao espírito roqueiro elevado na pegada da bateria e das guitarras elétricas. Tudo para quem gosta de ouvir música no sofá, folheando o encarte, saboreando cada parte.

"É o que mais me agrada nesse trabalho: o formato, a cara que ele tem... essa experiência tátil e visual que ele provoca, aliado à música", comenta Van Soria. A idéia de que um "mundo perfeito" se faz da própria busca e trajetória individual é o mote do disco, que tem a assinatura dele próprio e de Duca Leindecker, da Cidadão Quem, na co-produção.



A proposta, sobretudo desconstrói a utopia desse mundo, quando afirma, por exemplo, já na primeira faixa, que dá título ao álbum que "o seu mundo perfeito / só existe porque você acreditou". As ilustrações do encarte, inspiradas na representação da viagem de um xamã entre o mundo terreno e o mundo celestial, complementam e fortalecem ainda mais o significado do repertório. Um pouco dessa proposta pôde ser reproduzida no site oficial do músico.


Em síntese

Recheado de baladas românticas - e outras nem tão românticas assim - o álbum tem todos os elementos que, para o compositor, representam a síntese desse universo idealizado: amor, fantasia, silêncio, lembrança, erro, ideal, compaixão, amizade, ironia, esperança, dúvida... e melodia. Apesar de alguns clichês - sinceros e talvez inevitáveis quando o assunto é relacionamento - poesia e melodia escapam do óbvio neste álbum, a exemplo do som burlesco e brincalhão da faixa Monstro do Armário, dos toques "latinos" e doces de Amanheceu e da ironia de Sua Boca, quando Van Soria, em tom de pergunta e reflexão, canta os versos o que você é quando está online / e offline / o que você é...



Musicalmente, Mundo Perfeito representa a consolidação da tendência perseguida pelo artista ao longo de sua carreira solo, com composições sofisticadas e maior destaque para as bases de piano, o que lhe confere uma textura musical bastante peculiar. A evolução melódica e poética, até o estágio de elaboração atual, é pontuada nos discos que precedem este - de Avalon, o primeiro, lançado em 1995 até o gravado ao vivo Só, de 2005, passando por O dia mais feliz da minha vida (2003), Cidade Grande (2001) e Jardim Inglês (1998) - verdadeiro marco na sua discografia.


É rock, e é daqui

Há mais de 20 anos na estrada, sendo os últimos 16 em carreira solo, Van Soria tem seu nome marcado na história do rock tal como conhecemos hoje, chamado - com muito orgulho - de rock gaúcho, tendo sido um dos fundadores de duas das bandas de maior destaque nesse cenário: o explosivo TNT e o mal-comportado Cascavelletes.

A linhagem, musicalmente considerada "nobre" por quem freqüenta o meio, continua honrada e bem-representada, segundo o rocker, por uma nova safra de bandas que tem contribuído para a renovação do público adepto desse estilo peculiar de ser, tão bem cultivado pelo rock daqui. "Há o pessoal mais maduro, que continua presente na cena musical, e há uma gurizada nova - como as bandas Pata de Elefante e Identidade - que está descobrindo o rock gaúcho. A produção continua muito fértil", confirma o músico. "O problema é que nem sempre se consegue alcançar os meios de comunicação para divulgar o que está sendo criado, o que gera a falsa impressão de que a produção é menor, ou de menor valor", analisa.


Serviço

O show de lançamento do CD Mundo Perfeito, de Ney Van Soria, ocorre amanhã à noite em Pelotas no Bar Moa. Ingressos antecipados à venda na Aloha Surf Store (rua 15 de Novembro, 670 A) e na Rosa Carmim (rua Voluntários da Pátria, 957). Os primeiros 150 ingressos custam R$ 15,00, e a partir do segundo lote serão vendidos a R$ 20,00. Reservas de mesas pelo telefone 8111-1555.

Em Rio Grande
Para o show que ocorre sábado no Chalé do Porto (rua Riachuelo, 141), em Rio Grande, os ingressos estão à venda na Companhia do Som (rua Marechal Floriano, 279), à R$ 12,00. Reservas de mesas pelo telefone 8111-1160.

* Ambos os shows estão previstos para começar após a 1h30. Nos dois locais a festa começa a partir das 22h30, com animação do VJ Ernani antes e depois.

Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Página 4 | Publicado em: Pelotas, Quinta-feira, 15 de maio de 2008


Cristiano Quevedo convida para "Um mate novo"

Com sabor de chimarrão cevado a capricho, o novo CD de Cristiano Quevedo tem na essência as tradições gaúchas e campeiras, marcadas pela personalidade da voz e da poesia que o intérprete e compositor carrega como identidade. Depois de Portugal, que teve um pré-lançamento do CD ainda no ano passado, os pelotenses serão os primeiros a conhecer este novo trabalho dedicado aos fãs e amigos, hoje à noite no Theatro Guarany.

A escolha por iniciar a turnê oficial de divulgação de Um Mate Novo por aqui diz muito sobre a trajetória do músico, que já acumula 15 anos na estrada. Afinal, na sua geografia, Pelotas aparece como um lugar de destaque por ser o lugar onde começou a escrever sua história profissional.

Radicado em Porto Alegre, ele não nega porém, seu orgulho em ser piratiniense, naturalidade constantemente reafirmada. Depois de cantar um verdadeiro hino à "primeira capital" do Rio Grande no CD anterior, neste ele entoa em ritmo de vanera um novo refrão de saudação e saudade, que assina ao lado de Elton Sandanha e Erlon Péricles: Piratini, Piratini / A capital farroupilha / Terra buena onde nasci / Piratini, Piratini / Eu sou um guerreiro a cavalo / Que não esqueci de ti.

O chamame especialmente dedicado à sua filha e "primeira prenda da casa", a "flor de menina" Maria Rosa, também se destaca entre outras canções que traduzem seu encantamento, respeito e adoração quando se refere à mulher gaúcha.

Participam do show e do CD os músicos Paulinho Goulart (acordeon), Érlon Péricles (baixo), Jucá de Leon (percussão), Renato "Popó" (bateria) e Felipe Barreto (violão). Cristiano ainda divide o palco com convidados especiais, seus amigos e músicos Erlon Péricles, Shana Muller e Ângelo Franco com quem forma o projeto “Buenas e M’Espalho”, quarteto que valoriza a integração entre músicos e vêm fazendo grande sucesso por onde passa.


Tema da Semana Farroupilha tem a voz de Cristiano Quevedo

Para o músico, que iniciou sua carreira nos festivais, esses palcos "são um verdadeiro laboratório porque oferecem uma boa estrutura para o artista e tem grande repercussão na mídia". Aliás, um de seus maiores sucessos e marco na sua discografia - Contraponto - saiu justamente de um festival, e de Pelotas, tendo vencido a 5ª edição do Círio - Canto Interuniversitário Rio-Grandense.

De festival em festival, Cristiano Quevedo canta mensagens de amor e orgulho das tradições gaúchas, mesclando sensibilidade, simplicidade, emoção e técnica sobre cada tema, a cada interpretação. O talento e a competência do músico, lhe renderam ano passado cinco prêmios, e em 2008, já venceu três dos quatro concursos que participou.

Foi premiado em nada menos que em dois dos festivais nativistas mais tradicionais do Estado: o Cante uma Canção, realizado durante o Rodeio Internacional de Vacaria e a Comparsa de Pinheiro Machado. De "lambuja", ainda arrebanhou o primeiro lugar como intérprete no festival que escolheu a música Orgulho de um Povo, com letra de Silvio Ayone Genro e música de Duca Duarte, como tema da Semana Farroupilha 2008.

Eu tenho orgulho das nossas rodas de Mate / E na paz que se reparte / Nesse gesto de oferenda! dizem alguns dos versos da canção que será a trilha sonora oficial do Estado no mês de setembro. Conforme a temática escolhida, a poesia valoriza os 10 símbolos oficiais do Rio Grande do Sul: a Bandeira, o Hino, as Armas, a planta Erva-mate, a ave Quero-Quero, a flor Brinco-de-princesa, o Cavalo Crioulo, a planta medicinal Macela, a bebida Chimarrão, e o Churrasco, como principal prato típico.


Música gaúcha sem fronteiras


"O Rio Grande do Sul absorve toda a cultura Latino-Americana. Por que não absorver também a bossa nova, o choro, o jazz...", questiona o músico, que costuma ouvir um repertório diversificado, com influências que vão de Djavan a Noel Guarani. "Não quero transformar a música nativista, só atualizá-la", diz ele que assegura que mesmo nos espaços mais conservadores, há lugar para ineditismos, desde que a expressividade seja autêntica. "Tem que haver verdade, a música precisa ser sincera".

"Essa audácia de buscar o novo sem pisar no rastro e reacender as brasas" é justamente o contraponto de manter sempre os pés no chão e o orgulho de cantar o que é nosso, que costuma agradar a "gregos e troianos" - gaúchos de todas as querências onde passa. Pois na peleia entre a Tchê Music e as vertentes mais conservadoras da música nativista, não toma partido. Sua ousadia musical é sensível e ponderada. Não se prende às amarras do tradicionalismo, nem choca quem aprecia essa linha musical com os arranjos e refrões pré-fabricados da música gaúcha que virou pop.


Prestigie!
O quê: Show de lançamento do CD Um Mate Novo, de Cristiano Quevedo
Quando: Nesta quinta-feira, 15 de maio, às 21h
Onde: No Theatro Guarany
Ingressos: Antecipados à venda no Posto Cidadão Capaz e na bilheteria do Theatro, à R$ 10,00. Estudantes e idosos têm direito a 50% de desconto

Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Capa | Publicado em: Pelotas, Quinta-feira, 15 de maio de 2008



terça-feira, 13 de maio de 2008

Sétima Arte de volta ao Sete de Abril

Projeto abre uma nova janela para o cinema pelotense e volta a colocar filmes em cartaz no teatro.

No início dos anos 40 os pelotenses pagavam mil réis pela poltrona para assistir no Sete de Abril ao Programa Cineac, com "sessões contínuas das três horas da tarde em diante". Em seqüência, o público assistia aos cinenoticiários e a filmes, em sua maioria estrangeiros. Também era de costume exibirem-se projeções nos intervalos das apresentações teatrais, o que, segundo o professor e crítico de cinema Joari Reis, muitas vezes era o que salvava o público das peças sem-graça.

Quase três décadas depois que os últimos filmes entraram em cartaz na tradicional casa de espetáculos (que funcionou como cinema entre o início dos anos 40 e o final da década de 70), um projeto faz lembrar a época áurea do diversificado e tradicional circuito de cineteatros em Pelotas que tinha o teatro da praça Coronel Pedro Osório como um dos pontos principais, junto com os memoráveis Cine Capitólio, Apolo, Tabajara, Rei, Fragata, Avenida e Guarany.

Marcado para estreiar no dia 29 de maio, o Sete Imagens passa a integrar o calendário de atrações permanentes do Theatro Sete de Abril, a exemplo dos já consolidados Sete ao Entardecer e Cena Literária. Até novembro, serão sete edições do evento, onde o público poderá apreciar, a cada uma delas, a exibição de um filme de curta-metragem pelotense, e, após, participar de debates sobre a temática abordada no audiovisual. As sessões ocorrerão sempre uma quinta-feira de cada mês, às 18h30, e terão entrada franca. Os debates ainda terão continuidade durante o programa Moviola na RadioCom (104.5 FM), com participação de produtores, convidados e ouvintes, todas as segundas-feiras, às 22h30.

Inscrições terminam na sexta

Com inscrições abertas até sexta-feira (16), o projeto contemplará exclusivamente produções locais, sejam elas vinculadas a instituições de ensino ou independentes. O edital não exclui nenhum formato audiovisual, sendo aceitos, até mesmo, vídeos gravados em suportes amadores e alternativos, como câmeras digitais e celulares.

O Sete Imagens foi elaborado pela Secretaria Municipal de Cultura por intermédio do Theatro Sete de Abril e por professores da Universidade Federal de Pelotas. Os sete filmes que irão integrar o programa serão selecionados por uma comissão formada por representantes do Theatro e professores das universidades Federal e Católica de Pelotas (UFPel e UCPel) e do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet).

O objetivo principal, segundo a diretora do Sete de Abril, Annie Fernandes, é promover a reflexão sobre o papel das produções audiovisuais enquanto ferramentas de construção da memória cultural e da identidade local.

A temática em primeiro plano

"O filme não necessariamente precisa falar sobre a cidade. No momento que as personagens interagem com elementos que fazem parte do cotidiano local, isso já é uma forma de identidade e construção da memória", analisa Cíntia Langie, professora do curso de Cinema e Animação da Universidade Federal de Pelotas e que deverá estar no programa de exibições com pelo menos uma produção independente, pela Moviola Filmes. Não, não será o Katanga´s Bar. "A idéia é criar um vídeo experimental especialmente para o Sete Imagens, com uma abordagem poética sobre as cada vez mais raras salas de exibição em Pelotas", adianta ela em tom de suspense.

A proposta, aliás, tem tudo a ver com o projeto pois é justamente na contramão desse processo de encolhimento das janelas de exibição coletiva de filmes - cada vez mais substituídas pelas novas tecnologias individuais e domésticas - que o Sete Imagens surge. Se por um lado constitui uma nostálgica oportunidade de retomada a uma trajetória histórica, por outro, aparece como uma necessidade de suprimento das novas demandas, geradas principalmente após a implantação do curso de Cinema e Animação na UFPel, e estímulo à produção cinematográfica local - de olho no futuro.

Prazo curto pode atrapalhar

Na avaliação da professora Cíntia Langie, o curto prazo de inscrição - que começou no final de abril e termina esta semana - pode prejudicar a adesão ao projeto, já que os filmes, ainda que sejam selecionados para serem exibidos daqui a meses, devem ser apresentados prontos no ato da inscrição. "Não há como saber o nível técnico das produções que serão apresentadas porque o cinema local ainda é muito recente, e dificilmente haverá muitos projetos prontos à tempo de concorrer ao edital", avalia ela, que acredita que outra dificuldade seja a necessidade da própria equipe de produção dos filmes precisar providenciar os equipamentos de vídeo para a projeção.

Apesar disso, os integrantes da comissão de formatação e e seleção estão otimistas, e com boas expectativas especialmente em relação aos roteiros. Segundo a professora da UFPel Carmem Biasoli, critérios técnicos como a qualidade de imagens, áudio, iluminação, etc, serão levados em consideração na hora de selecionar os filmes para garantir um nível aceitável de qualidade, mas isso não será o mais importante.

"Temos que observar isso considerando as condições técnicas do nosso contexto local de produção, que estão longe de ser as ideais", ponderou, salientando que o principal é que os trabalhos inscritos estejam de acordo com a proposta central do projeto, de promover a reflexão temática.


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Capa | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 13 de maio de 2008

A novíssima Sala dos Novos

Quatro fotógrafos de três diferentes jornais de grande circulação em Pelotas formam o conjunto de oito imagens na exposição Pelotas Antiga vista pelos Fotojornalistas, com vernissage marcada para amanhã no Museu de Arte Leopolgo Gotuzzo (Malg).

A proposta, segundo a professora Francisca Michelon - que assina a curadoria ao lado de Raquel Schwonke - é sucitar através desse olhar diferenciado, reflexões a respeito daquilo que possui valor patrimonial e constitui memória, conceitos que, segundo ela, são construídos sob grande influência do discurso fotojornalístico. "O fotojornalismo é diferente da fotografia meramente contemplativa, principalmente porque exerce uma percepção muito mais factual e sintética. Ao mesmo tempo, o fotógrafo no jornal tem um poder muito mais imediato que o repórter. A matéria é informativa, porém a foto é reflexiva", afirma a professora da UFPel, que tem formação em artes visuais e doutorado na área da história.



Participam da mostra os fotógrafos Nauro Júnior, da Zero Hora, Vilmar Tavares, do Diário da Manhã, Paulo Rossi e Moizés Vasconcellos, ambos do Diário Popular, escolhidos, segundo Francisca Michelon, porque "possuem uma maturidade fotográfica conquistada ao longo de suas trajetórias profissionais, e estilos bastante distintos".


Mostra fotográfica será a primeira a ocupar a Sala dos Novos

A nova sala de 15 metros quadrados está situada no segundo piso do Malg, e será destinada, após esta mostra fotográfica, a expositores com pequenos trabalhos, de qualquer seguimento artístico, especialmente àqueles iniciantes, com currículo pouco extenso, e que portanto acabam perdendo na concorrência por espaços de maior destaque. Na próxima semana a administração do Museu abrirá edital para selecionar as outras três ou quatro exposições que irão ocupar a sala até o final deste ano.


Malg na Semana Nacional de Museus

Até domingo o Malg promove atividades integradas à programação nacional da 6ª Semana dos Museus, que este ano tem como tema central o papel dos museus como agentes de mudança social e desenvolvimento. Para diretora Raquel Schwonke, o fato do Malg estar inserido nesta programação de forma bastante diferenciada, não apenas com exposições mas também com oficinas e palestras, faz com que o Museu ocupe uma posição destacada nacionalmente. Ela acredita que a ampla divulgação deva repercutir tanto como fator de valorização do Malg no âmbito local quanto como forma de atrair visitantes de outras localidades que estejam em trânsito. "Nossa preocupação foi manter esta semana uma proposta não tanto voltada para a arte, mas sim para a relação da comunidade com a arte", explica.

A expectativa, segundo a diretora, é de que o público freqüentador do museu durante esses dias alcance o dobro da média normal. Atualmente esse número já tem se mantido alto - entre 150 e 200 visitantes por dia - desde o início da exposição do acervo do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) A Expressividade na arte brasileira, que ocupa a sala principal até o dia 1º de junho e já tem lotada a agenda de visitação em grupos.

Prestigie!

O quê: Exposição Pelotas Antiga vista pelos Fotojornalistas

Quando: Vernissage - Quarta-feira, dia 14, às 18h Visitação - de 15 de maio a 31 de julho, com visitação de terças a domingos das 10h às 19h. Entrada franca

Onde: na Sala dos Novos, no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (rua General Osório, 725).

***Confira também***

Programação da 6ª Semana Nacional de Museus no MALG

De 12 a 31 de maio

Oficina de Xilogravura. Coordenação Gabriela Pereira IAD/UFPel. Horário: das 14h às 17h. Valor: R$ 5,00

Hoje

Palestra - Museu e Inclusão Social; discutindo a acessibilidade. Palestrante Cíntia Essinger - UFPel. Das 18h às 20h. Entrada franca.

Amanhã

Oficina - Desenho de modelo vivo. Coordenação Nadia Senna - IAD/UFPel. Das 14h às 17h. Valor: R$ 5,00

Quinta-feira

Mesa Redonda - Museu, Fotografia e Memória. Participação Francisca Michelon e Letícia Mazucchi - UFPel. Das 14h às 17h. Entrada franca.

Sexta-feira

Oficina - Educação para o Patrimônio e Mudança Social. Relatos. Participação de Francisca Michelon e alunos da UFPel. Das 8h30 às 17h. Entrada franca.

Cinema - Mostra do filme Saneamento Básico seguida de debate. Coordenação Lanza Xavier - Curso de Cinema e Animação da UFPel. Das 18h às 19h30. Ingressos gratuitos e limitados, disponíveis antecipadamente no Malg.

Mesa Redonda - Cinema e Memória. Coordenador Guilherme da Rosa - Curso de Cinema e Animação da UFPel. Das 19h30 às 20h30. Entrada franca.

Inscrições: no local ou pelo telefone 3225-9144

Mais informações: no site http://ila.ufpel.edu.br/malg


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Página 4 | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 13 de maio de 2008 | Foto: Divulgação (1)/ Dankas Moraes (2)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Histórias de um canto do mundo em cartaz no COP

Um canto do mundo chamado Rio Grande do Sul ganha a cena em forma de música, prosa e poesia no espetáculo que estará em cartaz na próxima terça-feira, 13, no teatro do Círculo Operário Pelotense (COP).

Contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2007, Histórias de um Canto do Mundo - Memórias de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul apresenta lendas, costumes e fatos históricos gaúchos, recuperados em textos, canções e reportagens do passado e do presente. Contadas e cantadas, essas histórias ganham vida no palco com a expressividade da interpretação de Deborah Finocchiaro.


O espetáculo, segundo a atriz e diretora, pretende retomar a tradição do menestrel, para através dos contos - reais e imaginários - valorizar a memória e a identidade cultural do Rio Grande do Sul. "Nosso objetivo é fazer o público refletir sobre o preconceito, a intolerância e a violência e romper limites entre as diversas culturas do País", explica.

A peça tem textos de autoria da jornalista Rosina Duarte, criados a partir de pesquisas em jornais gaúchos e outras fontes históricas. O tecladista e arranjador Cau Netto assina a direção musical do espetáculo, que é apresentado pela Companhia de Solos & Bem Acompanhados, de Porto Alegre.

A atração chega a Pelotas depois de passar pelas cidades de Farroupilha, Erechim, Santa Cruz do Sul e Lageado, em mais uma turnê promovida pelo SESC - Cultura por toda parte, através do projeto Rio Grande no Palco.


Prestigie!

O quê: Espetáculo músico-teatral Histórias de um Canto do Mundo - Memórias de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul
Quando: dia 13, terça-feira, às 20h
Onde: no Teatro do COP
Ingressos: Antecipados à venda no SESC (rua Gonçalves Chaves, 914) ao valor de R$ 10,00. Comerciários, estudantes, idosos e professores pagam somente a metade.


Texto: Bianca Zanella | Fotos: Lu Mena Barreto | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Página 4 | Publicado em: Pelotas, Segunda-feira, 12 de maio de 2008