terça-feira, 4 de novembro de 2008

A Tigra está de volta...

Livre e "louca" como sempre - no melhor sentido que é ser "louco" - Luciana Pestano está de passagem por Pelotas e se apresenta nesta quarta-feira (5) no Bar João Gilberto.


Assumidamente "Tigra", a artista de voz rouca e personalidade forte fará um show solo com voz, violão e gaita de boca. No repertório, músicas do segundo disco, antigos sucessos como "Vá Embora" e covers, ou melhor "releituras", de outros compositores como Fito Paez e Herbert Vianna - que tem uma participação especial no álbum lançado ano passado.


Pra não perder:

O quê: Show com Luciana Pestano
Onde: no bar e champanharia João Gilberto (rua Gonçalves Chaves, 430)
Quando: nesta quarta-feira, dia 5, a partir das 22h
Quanto: R$ 10,00 eles e R$ 6,00 elas
Contato: reservas de mesas pelos telefones 3026-2140 e 8403-0313
(ATENÇÃO! O telefone fixo do João Gilberto mudou!!!)

Para conferir na Feira do Livro

As Mãos de Campo, ou Manos del Campo são a inspiração da mostra que inicia hoje e vai até sexta-feira no Espaço Cultural da Bibliotheca Pública Pelotense na Feira do Livro.

Nos desenhos de Adriano Alves e nos pequenos textos escritos por ele e por Otávio Severo, ambos naturais do município de Dom Pedrito, estão representados vários aspectos das lidas campeiras: as mãos que tocam a gaita e o violão, que tramam arreios são as mesmas que passam a cuia do chimarrão, de mão em mão.


"As citações utilizam figuras poéticas, mas não possuem rima. Por isso são chamados versos de 'rima branca'", explica Alves, escritor e também criador das ilustrações feitas pela técnica de grafite sobre o papel.

O conjunto de obras faz parte do livro Pelas Mãos, em fase de finalização e com previsão de ser lançado até o final deste ano.

A exposição também inclui o calendário da quarta edição da Mostra Brasil-Uruguai, que encerra dia 14 com apresentação do intérprete e compositor uruguaio Numa Moraes, às 19h, no palco da Feira.


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / P. 6 | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 4 de novembro de 2008

X de Charque

"A" de Arroio Pelotas. "D" de doces. "X" de charque, ou melhor, de "xarque". Houve um tempo em que a cartilha era assim. O principal produto pelotense, no auge da tradição charqueadora do município, ainda não havia passado pela reforma ortográfica que o fez pular da penúltima para a terceira posição na ordem alfabética. E era com esse termo que as professoras ensinavam a redação de cartas e, ao mesmo tempo, passavam noções básicas sobre as transações comerciais mais recorrentes na época: a compra e a venda da carne salgada e secada ao sol.

Aprender o be-a-bá no século 19 era uma experiência bem diferente das fórmulas pedagógicas empregadas para alfabetização das crianças de hoje. E é isso o que se pode descobrir na exposição Cultura e Material Escolar, que reúne um raro e curioso acervo dos materiais didáticos com que provavelmente nossos avós ou bisavós aprenderam as primeiras lições.

"Essas peças oferecem uma percepção dos valores que eram transmitidos às crianças até as primeiras décadas do século 20. Por ali é possível observar as regras de conduta moral vigentes, os padrões estéticos da música e do desenho e a própria noção de civilidade que se tinha muito mais forte do que se tem hoje", compara o coordenador da mostra e professor da disciplina de História da Educação do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Eduardo Arriada.

A mostra reúne antigüidades capazes de provocar estranheza para a nova geração e nostalgia para quem viveu no tempo em que as canetas de pena e os tinteiros eram itens de primeira necessidade na lista de material escolar. Afinal, a caneta esferográfica só seria inventada na década de 30 e mesmo quando chegou ao Brasil, dez anos mais tarde, demorou até deixar de ser artigo de luxo para se popularizar nos estojos dos estudantes por aqui.

A lousa portátil - lisa e pautada -, também chamada de "pedra de ardósia" era outro material indispensável na alfabetização. Considerada a "bisavó do notebook", ela servia para que os alunos exercitassem a escrita antes de "passar a limpo" para os cadernos, que eram caros, como explica o professor. Resultado do impacto digital, os exercícios de caligrafia estão praticamente abolidos e a escrita manual, pela falta de prática de escrever em detrimento da grande habilidade que se tem atualmente para digitar, é cada vez mais disforme e substituída pelo padrão dos caracteres do computador. Todos iguais, mas com certeza sem o mesmo charme da rebuscada escrita caligráfica.

No tempo da velha caderneta, a avaliação dos alunos não era apenas quantitativa, pois continha também comentários sobre o desempenho dos estudantes (especialmente quando faziam 'algo errado').

Outra raridade da mostra é a coleção - quase completa - das primeiras edições dos livros didáticos escritos por Érico Veríssimo e uma série de livros de história e geografia que mostram o quanto o ensino está mudado atualmente. Aliás, não apenas a forma de ensinar mudou, como também a própria história e geografia não são mais as mesmas.

A ideologia também era outra: no Hino Republicano ou, pela grafia da época, "Hymno" (como é que se podia ler uma palavra dessas?!) ainda continha a estrofe suprimida em 1966, que se refere à "sermos gregos na glória e na virtude, romanos". Além disso, outra curiosidade: não era o "vinte" e sim o "vento" de setembro tal "o precursor da liberdade" citado no terceiro e no quarto versos.

Diferenças à parte, o responsável por reunir esse acervo chama atenção para as semelhanças existentes na educação daquela época em relação aos dias de hoje. "A escola ainda é uma instituição permeada pela relação aluno-professor", afirma ele, que considera a popularização do material escolar um dos principais ganhos da atualidade. "Os alunos continuam usando lápis, caneta, borracha e cadernos. Com o processo de escolarização das massas esses materiais ganharam qualidade e ficaram mais baratos", avalia. No entanto, ele não dispensa uma análise qualitativa do cenário: "o nível da educação caiu muito. O ensino das matérias da área das humanas foi reduzido bruscamente nos currículos, enquanto a técnica virou prioridade, sob a justificativa de preparar os alunos para a inserção no mercado de trabalho."


Prestigie:

O quê:
5ª Mostra de História da Educação - Cultura e Material Escolar: Práticas de Ensino
Onde: no Instituto João Simões Lopes Neto (rua Dom Pedro II, 810)
Quando: até o dia 8, com visitação de segunda à sexta-feira das 14h às 18h e no sábado a partir das 19h (durante encontro com o músico e escritor Vitor Ramil previsto no calendário do projeto Diálogos na Casa de Simões)
Entrada franca


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Capa | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 4 de novembro de 2008

Consumidor tem direitos garantidos na Feira do Livro

"A Feira do Livro está nota 10 em termos de respeito aos direitos do consumidor." A avaliação preliminar positiva partiu do coordenador do Procon em Pelotas, Jardel Oliveira, que acompanhou a reportagem do Diário Popular em visita ao evento ontem à tarde. Segundo ele, desde que a agência foi instalada no município - há cinco anos -, nenhuma reclamação referente à Feira foi registrada. E a expectativa é de que continue assim por mais essa edição.

"Tanto os consumidores quanto os livreiros conhecem seus direitos e deveres. Como a feira é bem organizada dificilmente alguém vai sair daqui se sentindo lesado", elogia.

Durante a visita, ele observou que os expositores estão cumprindo com aquele que poderia ser o principal alvo de reclamações: a demarcação de preços. Pela regra, todos os produtos à mostra devem conter indicações individuais de valor, ou ter o preço afixado de forma clara e visível na prateleira ou no local onde estiverem dispostos.

Nesse quesito, durante a caminhada, foram encontrados algumas variações entre o preço indicado na etiqueta e o preço informado na placa de uma caixa de "saldos". "O preço da etiqueta é o valor que oferecemos o produto na loja, aqui o que vale é o preço promocional", explica prontamente o vendedor. Nesse caso, o coordenador do Procon lembra que a regra é a mesma que os consumidores já aprenderam quando acontecem diferenças de preços dos produtos quando as compras são registradas no caixa do supermercado: não importa se na gôndola ou na etiqueta, na hora da compra o consumidor paga o menor valor.

Na praça de alimentação - onde, aliás, não é obrigatório o pagamento de gorjeta -, a orientação para que os restaurantes e bares informem os preços dos produtos nos cardápios também é cumprida à risca.


E os descontos?

Promoções relâmpagos e reajustes de preços durante a feira são comuns, e absolutamente permitidos. Oliveira lembra, entretanto, que quando o fornecedor oferece algum desconto à vista, o mesmo abatimento deve prevalecer para os pagamentos em dinheiro, cheque ou com cartão de débito ou crédito, desde que a dívida seja liquidada de uma só vez. Se a compra for parcelada, o valor cobrado será o preço de tabela, sem desconto. A lição, aparentemente, está na ponta da língua de quem trabalha na Feira: "se for pagar à vista sai mais barato mas se for em mais vezes fica o preço normal", informa prontamente a atendente de uma das bancas.

Com relação ao uso de cheques, as restrições quanto a talões de terceiros ou outras à critério do vendedor devem estar bem à vista. Nem todas, porém, são permitidas. A exigência de tempo mínimo de conta em banco, por exemplo, é ilegal.

"Quanto mais claras as informações estiverem, melhor", conclui Jardel Oliveira, satisfeito com o comportamento dos vendedores instalados na praça Coronel Pedro Osório. Ele, e o público de um dos principais eventos do calendário pelotense esperam que, como nos outros anos, a Feira do Livro transcorra sem incidentes que contrariem os direitos do consumidor.


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / P. 6 | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 4 de novembro de 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Joca Martins, prazer em vê-lo!

A tal da "velha certeza gaúcha" não se engana: Tinha tudo para ser um show memorável e foi. A noite do dia 31 era do nativismo, de adoração às tradições campeiras. O público recebeu Joca Martins de braços abertos e o antigo Theatro Guarany recebeu Joca com toda a pompa de sua imponência, mas com uma acolhedora simplicidade galponeira, dessas que só a querência proporciona.

O timbre inconfundível da voz rompeu o silêncio. Não havia eco, não havia oco. A casa estava cheia para aplaudir o cantor, de volta a sua terra. Ainda que ele cante com sentimento convicto que “qualquer lugar é querência, se houver cavalo crioulo”, não importa por onde ande, quando volta sabe: Pelotas é o chão de suas raízes.

Prova disso foram as homenagens emocionadas à personalidades daqui e ao sempre poético cenário pelotense. Emocionadas e que emocionaram. Não bastasse a paisagem da pampa ser, por si só, comovente, a melodia mansa da composição considerada um segundo hino do Rio Grande, em tom de oração, completou o momento em que todos cantaram baixinho os versos de Minha Querência.

Era mais uma música que a platéia, inspirada, sabia de cor. E mais um grande momento do show, como as duas vezes em que o ginete "Freio de Ouro" Dado Azevedo exibiu no palco sua habilidade e a destreza de seu cavalo. (Quem diria ver uma exibição dessas, ao vivo, em pleno Guarany!)

A platéia só não correspondeu ao chamado do cantor à participação quando a capacidade das cordas vocais não permitiu: aconteceu durante uma das músicas mais "altas". Não que o refrão não fosse conhecido, mas é que dificilmente a média "normal" do público consegue acompanhar o tom da voz de Joca, principalmente quando ele dá o melhor de si.

Ainda assim, o público abriu a garganta para soltar os tais "gritos selvagens", a variação desafinada de quem não aprendeu uma das artes do homem da pampa: "soltar um sapucai". "Aí que eu me refiro!", repetiu pela terceira ou quarta vez na noite para os aplausos e risos da platéia. "Foi com certeza mais um recorde mundial de grito selvagem e sapucai", afirmou em tom de brincadeira o Joca, a mesma piada do mesmo Joca que todos já conhecem e que ainda assim não perde a capacidade de surpreender, a cada apresentação.

No final, antes de provocar um verdadeiro "frenesi" - como poucos artistas locais provocam - no saguão do Theatro, diante dos fãs que queriam autógrafos e fotos, ainda atendeu a um último pedido feito à beira do palco: tocou "mais uma milonga pra Camaquã".

domingo, 2 de novembro de 2008

Onde a história acontece

Por trás da fachada, um universo a ser (re)descoberto. A casa da rua Dom Pedro, 810, é construída de histórias; 436 metros quadrados de histórias. A porta de entrada, de vidro transparente, permite que se olhe além dela para um horizonte literário. Lá dentro, o sol que entra sem cerimônia pelas grandes janelas ilumina as escaiolas que sobem pelas paredes como heras, e recria suas formas a cada hora do dia.

Não se esqueça de dizer: a porta é de vaivém, e nunca pára. Está sempre se abrindo, para quem mais, além do sol, quiser entrar. E são muitos, sempre bem-vindos. Por ali circulam crianças, moços e velhos, quase que diariamente. Eles percorrem cômodos da residência que durante dez anos foi a moradia do escritor João Simões Lopes Neto e percorrem também as páginas dos livros com uma curiosidade alegre e sagrada. Na sala, como se saísse de uma das paredes, é o próprio Capitão quem saúda os visitantes, com um olhar jovial de quem diz: “Olá! Amigo! Apeie-se; descanse um pouco! Venha tomar um amargo!”

Pela leitura, quem chega vai à busca da redescoberta da cultura gaúcha e dos tesouros perdidos nas entrelinhas escritas por uma caligrafia rebuscada. O Negrinho do Pastoreio os acompanha na procura por este caminho literário que continua a ser percorrido à luz dos tocos de vela acesos pelas Lendas do Sul e pelos Contos Gauchescos. Nem sempre foi assim.


A reconstrução

Até o final da década de 1990 o local estava caindo aos pedaços. O imóvel, abandonado, por pouco não teve sua destruição decretada. Se isso tivesse ocorrido, os escombros do casario teriam enterrado uma história que, por sorte, alguém se interessou em investigar. Esse alguém era o pesquisador Carlos Sicca Diniz, que através de registros nos cartórios de Pelotas comprovou as suspeitas de que a casa havia pertencido ao mais célebre dos escritores pelotenses. No período em que viveu ali, de 1897 a 1907, João Simões escreveu a lenda O Negrinho Pastoreio.

A descoberta deflagrou uma batalha judicial que mobilizou a comunidade, desde a imprensa até os historiadores e admiradores da literatura simoniana. Sete anos mais tarde a aprovação de um projeto de lei do então deputado Bernardo de Souza transformou a casa em Patrimônio Cultural do Estado. A demolição não aconteceria, mas nada impedia que o prédio ruísse irremediavelmente - no final de um processo de degradação longo, solitário - apenas com a ajuda do tempo e da umidade.

Foi então que um grupo de pessoas disposto a devolver a casa ao seu antigo e mais notável dono apareceu. Esse grupo fundou o Instituto João Simões Lopes Neto, e através dessa instituição civil conseguiu captar recursos, restaurar o prédio e, principalmente, devolver a vida ao lugar.

"Só por ser antiga, a casa já merecia ser recuperada. Mais ainda por Simões ter vivido aqui. A sua obra é a substância desse lugar", diz o escritor Vitor Ramil, autor de Satolep (Cosac Naify, 2008), que confessa uma relação afetiva com "o homem" João. Apesar de não serem contemporâneos, a amizade entre os dois se revela no estilo da prosa e na forma como Vitor é capaz de dialogar com o conterrâneo - autor atemporal.

Ramil defende a tese de que foi a decadência econômica do município que ajudou a conservação do patrimônio histórico de Pelotas, ou pelo menos impediu que a degradação fosse maior. A falta de dinheiro não retardou a ação do tempo, mas amenizou a ação do homem, ainda mais nociva. "É paradoxal isso, mas se a cidade tivesse mais recursos para a construção civil, teria destruído muito mais prédios. Porque a mentalidade das pessoas é de construir coisas novas. As pessoas não conseguem enxergar a beleza do antigo. De certa forma, a gente continua trocando ouro por espelinho", reflete, enquanto admira as escaiolas nas paredes, que antes escondidas nas sombras do prédio em ruínas, com o restauro voltaram a ser vistas.


A reabitação

Com quase dez anos de atividades constantes, dentro e fora da Casa, o Instituto é hoje um espaço concreto habitado por significados abstratos, como as escaiolas - metafóricas e enigmáticas - descritas por Vitor Ramil. Assim, capaz de atrair ações que convergem até ela e irradiar reflexos da mobilização cultural que ocorre no seu interior, não por acaso é reconhecido como um marco sólido da cultura do Rio Grande do Sul do passado, no presente e para o futuro.

Atualmente são mantidos diversos projetos permanentes, (veja no quadro) entre eles o Núcleo de Estudos Simoneanos. O grupo, que começou antes mesmo da criação do Instituto, se reúne semanalmente e é o verdadeiro "cérebro" da instituição, pois mantém a obra de Simões permanentemente lida e discutida, agora num local que não poderia ser mais inspirador.

Além dos simonianos, circulam pelo lugar mais de 500 pessoas todos os meses – uma movimentação que mantém a casa sempre ventilada.


O novo Blau

Mais de nove décadas depois da morte de Simões, sua obra talvez nunca tenha estado tão viva. A casa tem o seu espírito empreendedor, e a alma do velho Blau refletida nas vidraças. É o novo jeito de contar histórias.

A “memória” do vaqueano está se modernizando. Até o final deste ano o Instituto deve dar início à execução do projeto de digitalização do acervo, que só depende da liberação dos recursos (R$ 40 mil) aprovados na Consulta Popular de 2006.

Mais que um ambiente de preservação de um valioso acervo de obras e peças - muitas delas raras -, a Casa do Capitão se tornou um lugar de reflexão e releituras inesgotáveis para o legado simoniano. Mais ainda: tornou-se um ponto de referência por hospedar tantas outras atividades ligadas às artes, à história, à literatura – de oficinas de teatro a reuniões do grupo dos representantes dos museus de Pelotas - de forma ampla em uma cidade ainda órfã de uma casa própria para a cultura.

“Nos interessa que a história seja preservada como um todo. É importante que o Museu da Baronesa esteja em boas condições, por exemplo, porque quando o visitante vai lá ele pode ter uma noção de como era a sociedade pelotense da época de Simões”, contextualiza o presidente do Instituto, Henrique Pires.

“Abrir as portas para a comunidade é o que justifica a existência de um espaço como esse. Uma casa que foi reformada e é mantida com recursos de renúncia fiscal tem a obrigação de estar a serviço do público”, afirma ainda, ao admitir que teme que a polêmica envolvendo desvio de recursos da Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS) possa comprometer a programação do ano que vem. “Por enquanto a análise dos projetos está suspensa, mas nós vamos atrás de parcerias”, garante.


Algumas atividades
- Prêmio Trezentas Onças - reconhecimento simbólico concedido anualmente às personalidades que se destacam no trabalho pela preservação da memória e divulgação da obra de Simões.

- Simões Lopes vai à Escola - projeto de aproximação do escritor com os novos leitores através de atividades que se realizam nas escolas e no Instituto. Desde 2007, já contemplou mais de 40 colégios e cerca de 3 mil alunos das redes públicas e particular de ensino de Pelotas e região.

- Blau: Centro de Estudos Cênicos - oficina permanente de teatro onde a obra simoniana é a matéria-prima da didática de formação do ator.

- Teatro Mostra Simões - projeto que incentiva a formação de grupos de teatro nas escolas por meio de oficinas preparatórias. Os grupos recebem suporte técnico para elaborar esquetes inspiradas na obra de Simões e depois apresentam as montagens em outras escolas. Este ano, 6 colégios participam diretamente e outros 14 irão receber as apresentações itinerantes até dezembro.

- Seminários - o IJSLN faz parte da comissão organizadora da Feira do Livro e anualmente promove seminários temáticos. Este ano, pela primeira vez, contará também com um estande próprio no evento.

- Prêmio JSLN de Artes Visuais - implementado este ano, o concurso incentiva a produção contemporânea de artistas gaúchos.

- Palestras e oficinas - inúmeras oficinas voltadas para o aprendizado de diversas linguagens artísticas são promovidas pelo Instituto, quase sempre com participação gratuita, ou a preços simbólicos. Além disso, palestras, debates e seções de exibição de filmes são freqüentemente realizados no auditório da Casa. No próximo domingo, Vitor Ramil inaugura a série Diálogos na Casa de Simões, quando irá discutir com leitores as interpretações de seu livro Satolep.


Novos leitores

Na escola, os alunos aprendem que "João Simões Lopes Neto foi o mais importante escritor regionalista do Rio Grande do Sul". No Instituto, onde as crianças se sentem em casa, o Simões, ou simplesmente João, assume um tom menos solene e uma importância real não para o mundo, mas para cada um dos novos leitores que são conquistados pelo carisma e pela prosa cativante do escritor.

Alana, de nove anos, acha que ele foi importante porque seus livros registraram as histórias dos gaúchos e, traduzidos, fizeram com que o Estado ficasse conhecido em todo o mundo. Ela, como os colegas, não sabe ler japonês. A tradução, para eles, nem é tão importante assim, porque apesar de viverem no Rio Grande do Sul, eles aprenderam e reconheceram suas próprias origens pelas histórias de Simões, contadas em português mesmo, mas um português carregado de sotaque.

Durante a leitura, orientada pela professora, os alunos formularam um glossário. "Charlador" foi uma das primeiras palavras cujo significado precisaram pesquisar. "Charlador é uma pessoa que fala muito, que conta histórias, como o Blau Nunes", explica a aluna Eduarda, mostrando que tem a lição na ponta da língua. "Ele é um tagarela", completa Arthur, arriscando um sinônimo mais próximo do seu vocabulário.

Envolvidos pela atmosfera do passeio literário, os alunos da quarta série do Colégio São Francisco de Assis soltam a imaginação. "Eu acho que o Simões era alto, magro e bigodudo", diz alguém. "Era até bem charmoso... E ele fumava! Naquela época fumar era considerado elegante! Mas hoje é bem diferente...", analisa outro aluno.
"Mesmo ele tendo a aparência de um senhor muito velho, eu acho que ele tinha mesmo uma alma de criança. Ele é muito simpático!", diz Bruna, que no teatrinho montado na escola fez o papel de protagonista do conto O mate do João Cardoso.

"As pessoas acham que museu é uma coisa chata, parada, mas esse aqui não é. A gente não deve destruir nada disso porque se a gente estragar não tem como ele escrever de novo! E eu acho que lá do céu o Simões deve estar feliz porque a gente vem visitar a casa dele e quer saber mais das histórias que ele contava", resume a colega Eduarda.


Casa velha, vida nova

Arejadas pelo folhear dos jovens as páginas amareladas dos livros são tratadas como verdadeiras preciosidades. As velhas histórias são novidade para as crianças e outros leitores que como elas dão os primeiros passos nas andanças literárias feitas há muito tempo pelo velho Blau.

A Casa do Capitão é ponto de partida para esses caminhos. É a descoberta, de que entre Simões - escritor, empreendedor - e João - o homem -, ficou estendida uma longa estrada semeada de recordações – casos, dizia –, que de vez em quando alguém reconta, como quem estende ao sol, para arejar, roupas guardadas ao fundo de uma arca...


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Estilo / Capa e páginas centrais | Publicado em: Pelotas, Domingo, 2 de novembro de 2008

sábado, 1 de novembro de 2008

A infância na frente do espelho

É só ouvir falar em foto que a modelo mirim Alice, de dois anos de idade, vai logo passar batom e começa a fazer caras e bocas. Foi assim quando ela ficou sabendo que receberia a visita do Diário Popular. Sob os olhos da mãe, ela mesma escolheu a roupa que iria vestir. Na hora de colocar os sapatos, entre o tênis de luzinhas que a mãe sugeriu e par de mocassins cor-de-rosa que a menina pegou da cômoda, venceu o mocassim.

A mãe, Genessi, diz que sempre deixa que a filha decida o que vestir, mas orienta de perto as escolhas e, em caso da menina querer usar algo inadequado, é a mãe quem dá a última palavra. Maquiagem, por exemplo, só quando vai posar para fotos de trabalho, e mesmo assim de leve. "Ela tem que entender essas coisas porque senão vai crescer achando que pode tudo. Mas a Alice é muito tranqüila pra isso. Normalmente chegamos a um consenso", relata.

Para Genessi e Alice, encarar o guarda-roupa não é problema, já que a relação entre mãe e filha é bem resolvida também diante do espelho. Para a psicóloga Marizele Cantarelli, a atitude da mãe é a mais correta. O diálogo nessa hora é fundamental. "É saudável que a criança participe dessas pequenas escolhas. Isso a prepara para as grandes decisões", afirma ela, que também considera hora de definir o vestuário uma ótima oportunidade para os pais ensinarem aos filhos noções de limites. Sair de blusinha de alcinha em um dia frio e sem casaco, por exemplo, está fora de questão. "Os pais devem orientar sobre o tipo de roupa que é mais adequado para cada ocasião e o que é mais confortável para a criança brincar." Na hora da compra, a dica é oferecer opções que caibam no orçamento da família dentre os itens que são necessários (e não simplesmente levar o que a criança viu na loja e "quer", mas não precisa).

Por outro lado, as crianças que nunca podem escolher que roupa usar, tendem a se tornar mais inseguras e "rebeldes". "Muitas vezes os pais projetam nos filhos uma imagem que não condiz com a atitude da criança. Nesse caso é uma até rebeldia positiva que demonstra que a criança quer se expressar. A roupa é uma das primeiras formas de manifestar a identidade."


Roupa e fantasia

Assim como os adolescentes (e até adultos) costumam imitar a moda que vêem principalmente na mídia, as crianças repetem modelos na forma de se vestir. As primeiras referências são os pais. Depois, são os personagens que assistem na TV, apresentadoras, personagens de novelas e super-heróis, principalmente. Segundo a psicóloga, não há nada de anormal nisso, mas é importante sempre discutir esses modelos. "Há pais que acham bonito a criança se vestir como uma adulta em miniatura e só depois se dão conta que com isso podem estar 'atropelando' a idade mental e visual dos filhos e fazendo com que eles se desenvolvam de forma precoce. Cada etapa deve ser vivida na sua plenitude e sem pressa. Vai chegar a hora certa da menina usar salto alto, não tem porque antecipar isso", explica.

Na hora da brincadeira, no entanto, os pais podem e devem deixar a imaginação dos pequenos correr solta. "Maquiagem pode ser uma coisa lúdica durante uma encenação de teatro, ou de um desfile de moda. Faz parte da brincadeira. Os exageros é que fazem mal", conclui Marizeli, que repete a regra fundamental da pedagogia moderna que se aplica a todas as situações: ter bom senso.


Roupa transada também para os pequenos

Peep-toe nos pés, mistura de estampas, colete, short balonê, minissaia, bermudão xadrez, babados, bata e flor no cabelo. As principais tendências contemporâneas que ditam a moda invadem com força total o guarda-roupa infantil. Foi se o tempo em que roupa de criança resumia-se a vestidinhos de algodão floriadinhos e conjuntos comportados. Nos desfiles do último Moda Pelotas – realizado no dia 10 do mês passado – as coleções apresentadas confirmaram essa vocação.

Pequenos desejam vestir-se como gente grande e as grifes, antenadas na preferência dos consumidores, criam suas peças conforme o gosto do freguês. O resultado pode ser verificado nas vitrines das lojas do setor. Como a estação que vem pela frente é o verão, a estação das cores, as coleções esbaldam-se nos tons vibrantes, nas estampas bem alegres, nos modelitos arejados. Aliás, roupa infantil tem tudo a ver com a descontração tão típica dos dias mais quentes. E para arrematar o look modernoso vale apostar nos acessórios como bolsas franjadas, cintos para marcar a cintura, óculos, tiaras e fivelas igualmente coloridas. Só não vale deixar de ser criança! (colaborou Inês Portugal)


Texto: Bianca Zanella e Inês Portugal | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Infantil | Publicado em: Pelotas, Sábado, 1º de novembro de 2008