terça-feira, 30 de setembro de 2008

Shakespeare, aqui e agora

Para uns, um reencontro. Para outros, uma oportunidade de se apaixonar à primeira vista pela obra Shakespereana. A primeira Mostra Sesc de Teatro - que trouxe ao circuito pelotense de quarta-feira a domingo oito espetáculos, além de oficinas e workshops - envolveu atores e platéias nas tramas de um dos maiores mestres na arte de fazer rir e chorar.
Lado a lado, o cômico e o trágico. De um lado Shakespeare e do outro também. Foi um prazer ver ou rever, assim tão bem.

A discussão temática foi além. Nada melhor que uma agradável conversa. Muitos assistiram com uma finalidade analista, um olhar estritamente crítico. Há quem foi apenas pelo prazer da apreciação estética, pelo gosto pelas artes cênicas. Em ambos os casos, quem esteve no Sete de Abril ou nos demais locais que abrigaram a programação teve motivos para sair satisfeito.

A sátira de temas cotidianos, a reflexão intimista, a análise das complexas relações humanas são ainda tão presentes e dizem tanto à realidade atual que não são necessárias mais que adaptações sutis para que se pense que tal texto possa ter sido recém-concebido. Por isso, diz-se "clássico".

Porém um bom espetáculo se faz de um bom texto, mas não apenas disso. A qualidade técnica e interpretativa, e a emoção dos atores escancarada no palco deram nova vida à Shakespeare e a seus personagens, em releituras excelentes e minuciosamente bem cuidadas. Contemporâneas e arejadas, as peças ganharam também personalidade. Hamlets, Antífolos, Drômios, Valentinos e Proteus assumiram uma vida própria e jamais serão iguais àqueles que foram vistos em Pelotas na semana que passou. Foram, sem dúvida, apresentações únicas. Variações criativas e atuais para personagens que em essência ainda falam muito a qualquer público.

Merece destaque o incentivo dado pelos organizadores às produções locais, que valoriza e oferece crédito a um trabalho que começa a se desenvolver. O Núcleo de Teatro da Universidade Federal de Pelotas, que contribuiu para enriquecer a programação da Mostra, demonstra que vem adquirindo maturidade, e apresentou um bom trabalho mesmo ao lado de elencos consagrados, como os grupos Nós do Morro, do Rio de Janeiro, e as companhias Rústica, Santa Estação e Stravaganza, de Porto Alegre.

O êxito do projeto vem a confirmar a qualidade dos eventos culturais realizados pelo Sesc Pelotas. A Mostra de Teatro foi mais um, de tantos grandes e bons espetáculos a que o público pelotense tem tido a oportunidade de assisir. Merece ser aplaudido de pé. Merece bis.


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Página 4 | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 30 de setembro de 2008

Lugar de mulher... é na arte

Uma história mal-contada. Raras vezes lembradas nas coleções e historiografias oficiais da arte universal, as mulheres reivindicam seu espaço, no passado e no presente. O assunto foi o mote da palestra de abertura do Simpósio sobre Gênero, Arte e Memória (Sigam), que começou ontem no Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Pelotas (ICH/UFPel). O evento que pretende discutir a presença feminina nas artes e na filosofia continua até amanhã (1º de outubro).

"Esses vazios na história da mulher na arte é um tipo de silêncio ruidoso, e também uma forma de representação, uma tomada de posição ao lado de quem já detém a legitimidade", analisa Luciana Loponte, doutora em arte e educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

O reconhecimento no meio artístico é para poucos, e geralmente para aqueles que pertencem a um perfil pré-determinado. "Os que são considerados 'gênios da arte', normalmente se enquadram no estereótipo de homens, brancos, europeus. Todos mortos", analisa. "À mulher é reservado o papel de musa, de objeto da representação e quase nunca o de agente criador. As mulheres se expõem. Os homens expõem as mulheres."

À crítica, soma-se a concepção de mito de democracia de gênero. O fato de haver mais mulheres envolvidas com a arte contemporânea por si só não garante, segundo a pesquisadora, que haja maior discussão sobre o tema. "Porque as mulheres estão em toda parte não quer dizer que o discurso tenha deixado de ser 'generizado'. As pessoas não vêem mais sentido em falar de feminismo, como se todas as questões estivessem superadas", diz a professora, que é ainda mais enfática: "Só citar Tarsila (do Amaral) e (Anita) Malfat não basta para reconhecer a participação da mulher na arte brasileira".


Recortes contemporâneos

Pouco privilegiada no aprendizado das artes, ou com acesso limitado aos ambientes próprios, ditos "femininos", as mulheres ficaram relegadas a fazer desenhos e pinturas com temas amenos. Flores, frutas, natureza morta. Entre as que se permitiram "manobras radicais" ou "discretas ousadias", rompendo com barreiras de estilo ou inovando na temática, a pesquisadora mostra que a arte, assim como a política, é uma esfera de poder. A gente olha para a coisa e a coisa também nos olha.

Para Luciana Loponte, que faz coro a recentes linhas de pensamento, é preciso estudar as conseqüências dessa troca. "As mulheres se conhecem apenas por imagens feitas por homens e não por elas mesmas. Não que a visão dos homens seja falsa, mas é preciso deslocar o olhar que estamos acostumados, diversificar o ponto de vista."

Quando se busca e se encontra, nas lógicas sutis - fora da historiografia oficial - a presença feminina no contexto cultural predominantemente masculino, os exemplos mostram que a diferença está na cara, bem diante dos olhos. Um mesmo episódio diplomático - a Independência do Brasil - parece dois fatos distintos nas leituras de Pedro Américo (O Grito do Ipiranga, 1888) e de Georgina de Albuquerque (Sessão do Conselho do Estado, 1922). A diferença é o foco. No segundo, a protagonista, representada em primeiro plano, é a Imperatriz Leopoldina, enquanto no primeiro a figura heróica é representada por Dom Pedro I. "Pela primeira vez a mulher era colocada como a principal na cena. Apesar do estilo acadêmico de pintura ser mantido, Georgina ousa representar um assunto político, e faz isso de forma diferenciada."

Para a pesquisadora, a importância de se duvidar das convenções não é apenas uma questão de corrigir uma injustiça histórica, que se perpetua nos dias atuais. "É preciso entender como os processos de representações e o ato de olhar para a arte se relacionam com as condições com que os homens e mulheres olham, na vida", conclui, ao citar a pensadora Michelle Perrot.


Confira

As palestras ocorrem às 14h e às 19h no auditório da Faurb/UFPel (rua Benjamin Constant, 1359) e as comunicações das 16h às 18h nas salas do Instituto de Ciências Humanas da Faculdade de Educação (ICH/Fae/UFPel), na rua Alberto Rosa, 154. As comunicações são abertas ao público e têm entrada franca para ouvintes (sem certificado). Para assistir às palestras é preciso efetuar a inscrição no evento, que custa R$ 15,00.


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Capa | Publicado em: Pelotas, Terça-feira, 30 de setembro de 2008

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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Estudos Budistas


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Questões de gênero - Programação

Programação SIGAM - Simpósio sobre Gênero, Arte e Memória

Segunda-feira
14h - Palestras
- Mulheres e artes visuais no Brasil: veredas e memórias descontínuas
- Donas da Beleza - a imagem feminina pelas artistas plásticas do século XX

16h - Comunicações
Eixo temático: artes, gênero e memória (sala 101 - ICH)
- A Poética da Dor: Maria, Frida e Camille
- Nazareth Pacheco: dor e encantamento
- Mãos que batucam: os casos de três Tamboreiras de Nação do extremo sul brasileiro
- A Docência na Literatura de Érico Veríssimo: um estudo do romance Clarissa

Eixo temático: educação, gênero, arte e memória (sala 103 - ICH)
- Contribuições do universo artesanal da cerâmica à formação dos professores de arte
- Uma experiência no ensino das artes visuais revisitada através da "lousa mágica"
- Meditações entre história de vida, letramento e gênero: a história de Sônia à luz do meu olhar de hoje
- Mulheres, adolescentes e grávidas...

Eixo temático: história, gênero, arte e memória (sala 134 - ICH)
- Os homens vivem, as mulheres esperam: as relações de gênero na obra Presença de Anita
- Crimes de defloramento nos anos de 1920-30: dentro dos processos jurídicos da 2ª Vara Civil de Soledade-RS
- Costurando vidas: os itinerários de Ana Aurora do Amaral Lisboa (1860-1951) e Júlia Malvina Hailliot Tavares (1866-1939)
- O tecido que cobriu as mulheres artistas durante a Idade Média: finas amarras de opressão

19h - Conferência de Abertura
- La 'razón poética' como discurso femenino del exilio en el pensamiento de María Zambrano
- A Caixa de Pandora - arte e pensamento feminino no século XX

Terça-feira
14h - Palestras
- Estudos de Gênero em Música: Panorama e duas musicistas brasileiras
- As noções de desejo e erotismo no 'ku torno das batucadeiras de São Martinho Grande (Ilha de Santiago - Cabo Verde)

16h - Comunicações
Eixo temático: artes, gênero e memória (sala 101- ICH)
- A representação romântica e contemporânea de Lucrécia Bórgia
- Lucrécia Bórgia sua Imagem no Renascimento
- Arte das cidades-estados na África Ocidental
- Problematizando as relações de gênero através do teatro-fórum: reflexões acerca de uma prática na escola

Eixo temático: filosofia, gênero e memória (sala 134 - ICH)
- Os Incríveis: disciplina, gênero e normalização
- Mulher e o infanticídio: uma abordagem sobre gênero e as relações de poder
- As mulheres e Maio de 68

Eixo temático: educação, gênero, arte e memória (sala 103 - ICH)
- O movimento feminista e os denominados novos movimentos sociais: breves apontamentos e registros a partir do olhar da filosofia (da educação)
- Educação e gênero: a não escolaridade de quatro mulheres da zona rural
- Memória, pós-modernidade e educação
- Educação e gênero: Os "Collegios Femininos Privados" e as "Aulas Particulares" como campo de trabalho das mulheres, em Pelotas-RS (1875-1890)
- Um passeio sobre as questões de gênero e sexualidade na Coleção Galeras, Paqueras (Cathy Hopkins)

19h - Palestras
- Narrar processos: mulheres e criatividade visível
- Deusas (Im)perfeitas ou apenas mulheres?


Quarta-feira
14h - Palestras

- Clarice Lispector e esses vestidos colados no corpo: sobre gêneros e faceirices
- Movimentos feministas da década de sessenta e suas conseqüências diretas na arte contemporânea
- Lembrar do tempo através dos olhos das mulheres: memória da fotografia em histórias de fotógrafas

16h - Comunicações
Eixo temático: artes, gênero e memória (sala 132 - ICH)
- Camille Claudel: sofrimento e angústia rompendo a modernidade
- A escultura de Maria Martins nos anos 40
- A artista brasileira no mercado de quadrinhos
- A germanidade no feminino: representações da mulher de origem alemã no Musterreiter´s neuer historischer Kalender (Novo Almanaque Histórico dos Caixeiros-Viajantes)

Eixo temático: filosofia, gênero e memória (sala 212 - ISP)
- Natalidade: a esperança de um novo começo
- Res Publica e Liberdade em Hannah Arendt
- O conceito de poder em Hannah Arendt e o pensamento político contemporâneo

Eixo temático: história, gênero, arte e memória (sala 245 - FaE)
- Contribuições de escritoras na "Revista do Globo": Porto Alegre-RS (1929-1939)
- Imprensa feminina no sul do Brasil: Corymbo, 21 de outubro de 1939
- Mulher e gênero: sua presença nos partidos políticos e na eleição municipal do ano 2000 em Pelotas

19h - Palestras
- O Feminino na Literatura

Questões de gênero

Grupo de estudos da UFPel coloca em pauta o feminino nas artes e na filosofia

O mito grego de Pandora é a inspiração para o grupo de mulheres pesquisadoras dos cursos de artes, filosofia e ciências sociais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e mote para o ciclo de palestras e debates que começa hoje (29) e vai até quarta-feira.

O Sigam - Simpósio sobre Gênero, Arte e Memória pretende colocar em discussão a contribuição feminina para o pensamento moderno, a partir de trabalhos realizados na UFPel e em outras universidades do Estado como a UFRGS, a Unisinos e a Furg e a UBA, da Argentina.

Nos mais de 30 trabalhos e 12 palestras, quase todos os autores são autoras. A visão das mulheres sobre as próprias mulheres só não é diversificada em relação ao gênero porque eles ou não se arriscam a tentar compreender esse universo ou não têm interesse. No grupo de estudos da UFPel "Caixa de Pandora", que desenvolve pesquisas desde abril do ano passado sobre mulheres artistas e filósofas do século 20, apenas um professor preenche a exceção. "Os homens não se interessam muito pelos assuntos relacionados à mulher, ou se sentem intimidados", palpita a estudante Daniela Azevedo.

Em pouco tempo de trabalho, elas já se surpreenderam com as descobertas que serão apresentadas durante o Simpósio. "Pouco se tem idéia da produção artística e filosófica feminina, que no entanto sempre existiu".


As aparências enganam

Apesar do que se possa supor, as meninas evitam falar em "discurso feminista", pelo menos no que se refere à idéia de que a mulher é superior e totalmente independente aos homens. "Há um problema conceitual em relação a esse termo", considera uma das integrantes que explica a intenção do Simpósio de buscar a valorização de forma igualitária entre ambos os gêneros. "A temática é apenas um pano de fundo. Mais importante que o fato de serem mulheres, é a contribuição que cada uma delas para o mundo."

"Historicamente a mulher é entendida como o pólo negativo, a parte fraca, vulnerável, ardilosa, ou como o lado pecador", analisa outra pesquisadora. Na tentativa de romper com esse dualismo que consideram preconceituoso, elas contra-atacam e assumem a imagem construída pelo senso comum para contestá-la. Abrir a Caixa de Pandora - aquela que contém todos os males do mundo - significa para elas principalmente despertar a curiosidade para lugares desconhecidos das artes e do pensamento. Ou, como diz Daniela, quer dizer, "então tá: somos a Caixa de Pandora e agora vamos abrí-la para mostrar ao mundo o que é que tem lá, afinal". O convite a participar é, portanto, para quem deseja (tentar) ao menos conhecer (se não for possível compreender) o desconhecido universo feminino.


O gênero na cena

O Núcleo de Teatro da UFPel irá participar nos intervalos da programação (diariamente às 18h30) com intervenções no saguão da Faculdade de Urbanismo (Faurb/UFPel). "Vamos apresentar uma série de cenas curtas abordando a mulher e suas questões de trabalho, afetividade e principalmente políticas", adianta o coordenador do Núcleo, Adriano de Moraes. "Mas a gente não sabe exatamente como vai ser", confessa, revelando o tom de improviso que terão as montagens.


Confira

As palestras ocorrem sempre às 14h e às 19h no auditório da Faurb/UFPel (rua Benjamin Constant, 1359) e as comunicações das 16h às 18h nas salas do Instituto de Ciências Humanas da Faculdade de Educação (ICH/Fae/UFPel), na rua Alberto Rosa, 154. As inscrições custam R$ 15,00.


Texto: Bianca Zanella | Extraído de: Jornal Diário Popular / Caderno Zoom / Página 4 | Publicado em: Pelotas, Segunda-feira, 29 de setembro de 2008

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Nenhum de Nós fará a abertura da Quinzena


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